Bacskainé Lada Zsófia
A dama de negro da
arte naïf
No mundo naïf há
histórias de vida que quase superam o trabalho artístico. Esse
é o caso de Bacskainé Lada Zsófia. Não há duvidas de que sua
produção pictórica chama a atenção pelo valor intrínseco,
mas quando sabemos como foi difícil para ela realizar cada
trabalho é praticamente impossível desvincular arte e vida.
Zsófia nasceu em 10
de abril de 1910, na cidade de Nagyhalász, condado de
Szabolcs-Szatmár, na Hungria. Tinha cinco anos quando o pai pai
morreu e assistiu às dificuldades da mãe para criar, sozinha,
nove filhos. O sustento vinha de uma pequena área de terra, de
apenas 10 km2. A solução era colocar todo mundo para
trabalhar. E assim foi feito. As crianças capinavam a área e
ajudavam a plantar e a colher diversos vegetais. O trabalho mais
duro cabia à mãe de Zsófia: ir à cidade com uma carroça cheia
de produtos agrícolas para vendê-los no mercado.
Toda a infância de Zsófia
transcorreu dessa maneira. Quando chegou à adolescência, seu
destino era o mesmo de muitas jovens húngaras criadas na zona
rural: o casamento. Como uma prima morreu jovem deixando um viúvo
com quatro filhos, a família decidiu que aquele seria o destino
da jovem.
Zsófia casou com ele
e passou a criar as crianças, mas a união durou apenas cinco
anos, pois, em 1940, ele também veio a falecer, deixando a esposa
e os filhos sem qualquer tipo de apoio financeiro. A futura
artista, que tinha então apenas 30 anos, tomou uma decisão:
vestiu-se de negro, colocou um lenço da mesma cor em volta dos
cabelos e se vestiu assim até a morte, em 1995.
A vida de Zsófia
parece um livro. Criou as crianças com muita valentia, enfrentado
inúmeras dificuldades financeiras. Trabalhando duro, conseguiu
que um deles estudasse e comprou uma casa para outro filho. Quanto
às meninas, todas morreram de tuberculose, ainda adolescentes.
Assim, sozinha, Zsófia
parou para pensar o que mais gostava de fazer na infância dura
que teve. Logo lembrou que desenhar e pintar eram suas principais
diversões, pois fazia isso nas mesas de madeira da casa ou no
peitoril da janela, sendo freqüentemente punida por esses atos.
O cerceamento da
atividade de criar marcou profundamente Zsófia, que, por muito
tempo, ainda achava que era errado pintar. Por isso, era comum que
escondesse seus trabalhos daqueles que visitavam sua casa e
algumas vezes até queimava quadros que tinha acabado de fazer.
Pouco a pouco, porém,
ela passou a perceber que suas obras eram bem aceitas pela
sociedade. Seus temas são geralmente folclóricos e utilizam, em
alguns casos, um recurso comum da arte folclórica: a repetição
de uma imagem na posição inversa, como se o espectador estivesse
defronte a um espelho.
A matéria-prima de Zsófia
é sua autobiografia. Figuras estilizadas e não realistas e o uso
do plano bidimensional também são características comuns de seu
trabalho. Em diversos casos, utiliza adornos de flores comuns na
arte popular para tornar suas obras mais atraentes e cheias de
vida.
Ao olhar um conjunto
de quadros da artista, percebe-se que estamos defronte a uma
autobiografia visual, que traz inclusive muitas informações
sobre a vida dos camponeses húngaros. Mesmo seus quadros mais
pessoais, no entanto, extrapolam a dimensão individual, pois
trazem uma visão de mundo universal sobre o trabalho no campo em
suas mais diversas manifestações.
Pode-se dizer que a
exploração profunda das situações autobiográficas e
cotidianas abre a janela da universalidade para Zsófia. Quando
pinta um arado em suas posições por exemplo, focando-o do lado
direito e esquerdo, um abaixo do outro, o que menos interessa são
as roupas típicas húngaras do trabalhador rural. O que está em
jogo é o jogo de cores entre o negro, o verde e o amarelo e a
economia de traços, por exemplo, para pintar o arado.
Em agosto de 1975, o
trabalho de Zófia foi reconhecido ao ela receber o título de
mestre de Arte Popular, além de ter sua vida contada num artigo
publicado em Müvészet. Esses passos começaram a tornar a
artista mais conhecida dentro da Hungria e, posteriormente, em
outros países, como Eslováquia, França, EUA, Brasil e Cuba,
onde a arte naïf merece algum destaque de galeristas e da mídia.
Entre os trabalhos de
Zsófia, algo que impressiona são as suas jarras de flores. Ela
se vale de diversos tons de uma cor para emprestar ao quadro uma
vivacidade e beleza impactantes, num tipo de trabalho que evoca os
celebreis Girassóis de Van Gogh. Flores azuis
cuidadosamente detalhadas, por exemplo, tem seus traços e cor
repetidos simetricamente no jarro, e, em tonalidades mais claras
no fundo, gerando obras de intensa beleza e alegria, que não
combinam com a imagem austera da dama de negro em sua eterna
vestimenta de luto.
Ao final de sua
autobiografia, Zsófia declara que pinta para o próprio prazer a
partir de suas confidências pessoais. "Permaneci firme como
um álamo ao vento enquanto enfrentava grande miséria e
problemas", escreveu. De fato, como uma majestosa árvore
escura, a artista húngara deixa, em sua obra, um legado para as
futuras gerações. Elas certamente irão perguntar de onde aquela
senhora, vestida sempre de negro, tirou tanta energia para compor,
sem pieguismo, trabalhos repletos de sensibilidade.