por Oscar D'Ambrosio


 

 


Babel de gravuras

 

            A narrativa bíblica da Torre de Babel, presente no Gênesis, conta a história da construção de um edifício que atingiria o céu. Essa tentativa humana de atingir o universo divino gerou como represália a criação por Deus dos idiomas. Desse modo, ao não se conseguirem se comunicar, os seres humanos interromperam o trabalho.

O episódio, já transformado em exemplar conto pelo escritor mineiro Murilo Rubião, rendeu, no século XVI, pintura modelar do flamengo Pieter Bruegel. A imagem tornou-se um ícone do fracasso dessa jornada e do peso da ira de Deus sobre os homens, incapazes de vender as fronteiras entre as distintas línguas.

No momento em que um grupo de alunos da Universidade Braz Cubas, em Mogi das Cruzes, SP, sob curadoria de George Rembrandt Gutlich, reuniu-se para realizar um trabalho coletivo, a multiplicidade de opiniões e técnicas apresentadas por cada um apontou para esse babélico caminho.

A jornada consistiu em dividir a pintura de Bruegel em 20 pedaços e cada participante do projeto ficou com uma parte para desenvolver na técnica da xilogravura, dominada por todos. Assim se estabelece um rico universo de referências e, principalmente, de diálogo com o mundo contemporâneo como se ele fosse uma Babel.

Dois trabalhos bem significativos são os de Jonathan Medina Furuyama, artista convidado, que se debruça sobre o universo da arquitetura, uma novidade em sua pesquisa visual, enquanto Mayra de Mattos Melo toma o microcosmo da favela como o caos urbano, mas detentor de uma lógica própria e marginalizada.

O mesmo princípio espacial, aliado a um cuidadoso processo técnico está em Marcio Rogério F. Souza. Ele alia os sulcos da goiva e a destreza manual à colagem da pintura digital. Esses elos entre o artesanal e o tecnológico é tratado com semelhante força por Francisco Euclides, que discute as sutis fronteiras entre o homem e a máquina.

As analogias e metáforas são as mais variadas. A Babel contemporânea pode ser, por exemplo, um trem urbano, repleto nos horários de pico. Essa é a idéia de Natália Escobar Balogh, cujo trabalho dialoga com o do grafiteiro Thiago Fernandes Castro, que vai interferir sobre o seu trabalho e sobre o da colega.

Kathrein Jesus do Monte, ao trabalhar com chegada dos portugueses ao Brasil, alerta para o desaparecimento das línguas indígenas, estabelecendo uma conversa temática e visual com Maria do Carmo, com seu mapa repleto de grafismos dentro do mapa nacional. A nação invadida perde assim sua identidade cultural.

Renata Abdalla Ciferi foca a alma feminina. Evoca a sibila grega, eternizada inclusive por Michelangelo no teto da Capela Sistina, enquanto esse mesmo mistério feminino se faz presente na forma como Eliana Virgínia Costa desenvolve o tema da Caixa de Pandora, portadora de todas as dúvidas do mundo, inclusive as da arte.

As máscaras utilizadas pelo ser humano no universo da Babel em que vivemos inspiram Flávia Christina Prado, que retoma os personagens da comédia dell’arte, assim como Talita Cássia Machado,  indagadora das facetas do Bem e do Mal na vida de cada um e da sociedade como um todo.

O aspecto psicológico do ser humano, complexo e inquieto, pode ser visto na obra de Nazaré AGSM Gonçalves. A esfera individual surge com vigor. Já a dualidade do casamento, como relação a dois e instituição social, é o assunto desenvolvido por Sheila de Assis Andrade, que se vale da aliança como principal símbolo.

É justamente no plano de imagens que remetem a amplas significações que Roseli de Alcântara apresenta diversas letras e culturas, cabendo a Larissa Lemes de Andrade trazer à tona o sincretismo como um modo de pensar o Brasil em seus diversos aspectos não só lingüísticos, mas principalmente culturais.

Raciocínio semelhante é o de Davi Camargo, que alerta para as dificuldades da comunicação humana pelos símbolos. Os elos nem sempre desenvolvidos é também o tema de Denise Ferreira Fernandes, que questiona o poder dos estrangeiros se integrarem a uma realidade que lhes oferece um idioma desconhecido ou não-dominado.

O poder da destruição causada pela incomunicabilidade é o assunto de Kaíque Sanches, que retoma o livro do Apocalipse, com seus cavaleiros: Conquista, Fome, Guerra e Morte. Paulo Tenório Ramos, por sua vez, se volta para o ataque às torres gêmeas de Nova York como sinal do fim dos tempos pela intolerância.

 O conjunto de 20 trabalhos realiza assim uma aventura visual pela Babel contemporânea. Navega por arquiteturas, trens urbanos, linguagens indígenas, alma feminina, máscaras do cotidiano, psicologia, elos sociais, imagens, símbolos e a possibilidade da destruição que acompanha a vida a todo instante.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

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