por Oscar D'Ambrosio


 

 


Azulejos como forma de conhecimento

 

            A palavra azulejo significa “pequena pedra polida” e vem do árabe az-zulaïj. A técnica, introduzida pelos árabes em Portugal, país que se dedicou a ela, sendo referência até hoje para artistas e decoradores, constitui um excelente portão de entrada para o mundo das artes.

            Esse princípio foi comprovado em atividade realizada no segundo semestre de 2006 com seis crianças da Associação Travessia, entidade filantrópica sem fins lucrativos que atende crianças e jovens entre 7 e 18 anos. Existente desse 1998, a instituição conta com um Núcleo de Pedagogia Waldorf Especial, voltado para aqueles que não se enquadram em instituições voltadas ao atendimento de patologias em grau avançado, mas que também não são acolhidos pelas escolas tradicionais.

            Por meio do desenho e da produção das imagens a serem reproduzidas nos azulejos, as crianças, com orientação de profissionais da Casa Caiada 35, sede da ONG  Arpa – Apreciação, Reflexão e Produção Artística, puderam desenvolver as suas habilidades, levando em conta as suas necessidades individuais no âmbito social, emocional e espiritual.

A ênfase do trabalho foi de liberdade de criação. Nesse sentido, o estímulo para a construção de formas mais regulares ocorreu por meio de composições geométricas, enquanto o próprio corpo serviu como ponto de partida para lidar conteúdos visuais irregulares.

Na proposta de atividade de cada participante do grupo de trabalhar com as representações de parte de si mesmo, as mãos têm um papel fundamental  na construção do próprio pensamento e do azulejo. Este, em sua estrutura lindamente fragmentada, unifica-se para oferecer um resultado final agradável para o olhar e para o sentir.

Tradicionalmente, os motivos geométricos são essenciais na arte do azulejo, pois os árabes são proibidos pelo islamismo de mostrar a figura humana por meio de qualquer representação visual. Assim, flores, esferas ou pinhas dão a impressão de verdadeiros tapetes murais cujos relevos são valorizados com a luz.

As cores mais comuns eram o verde esmeralda, o azul de Fez, o branco, o preto e o amarelo alaranjado. Posteriormente, Portugal, com suas fábricas, utiliza a técnica chamada majolique, inventada pelo italiano Francesco Nicoloso, que permite que os motivos sejam pintados sobre um suporte liso. Isso torna possível representações figurativas mais complexas.

O azulejo branco e azul, cuja invenção é atribuída aos ateliês de Delft, na Holanda, aparece no fim do século XVII e, influenciado pela porcelana chinesa, vai obter muito sucesso no século seguinte, já que o apogeu do azulejo coincide com o reinado de João V (1706-1750).

            Grandes painéis monumentais enfeitaram – e ainda adornam – alguns palácios, igrejas, claustros e fontes. Parte dessa influência portuguesa pode ser notada, por exemplo, no Brasil, principalmente em São Luís, capital do Maranhão, que, como viveu um período de estagnação econômica no início do século XX, teve uma quantidade importante de imóveis históricos de grande qualidade conservados, mantendo as características de uma vila colonial ibérica.

            Os trabalhos das crianças da Associação Travessia, dentro da linguagem escolhida por cada um, nos faz repensar a própria história do azulejo, principalmente pela sua riqueza cultural. Retomar sua beleza e seus valores, num processo que vai do desenho ao produto final, é um exercício de criatividade e um desafio ao poder de cada um de estar se conhecendo melhor e se superando sempre.

 

Oscar D’Ambrosio, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp/São Paulo/Brasil), integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil).

 

 

 



 

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