por Oscar D'Ambrosio


 

 


Avelino

 

            Rondando a cidade

 

            Todo processo de amadurecimento técnico geralmente segue o desenvolvimento de algum assunto. É mergulhando nele, por algum tipo de afinidade, que o artista toma coragem e comete a progressiva ousadia de buscar novas soluções plásticas para as suas necessidades visuais interiores.

            Avelino tem em vistas da cidade de São Paulo um assunto pictórico com o qual se enfrenta a cada novo trabalho, seja pintando ao vivo, diretamente no local, ou partindo de fotografias que ele mesmo tira. O desafio é conseguir transformar sua vocação para pintura em resultado plástico que o satisfaça.

            Ao mergulhar em São Paulo, principalmente na região do chamado centro velho, onde está, por exemplo, a Estação da Luz, Avelino oferece o seu olhar particular, explorando efeitos de luz e sombra e de composição. Trata-se de um exercício cotidiano do olhar em que superar a si mesmo é a meta constante.

            Os trabalhos mais expressivos são justamente aqueles realizados no universo dos tons que rodeiam o ocre. Com eles, o artista revela, além de uma maior intimidade, um processo de interiorização da própria imagem. Parece que essa São Paulo cor de terra, regida pelo marrom, se faz presente como um ícone metropolitano.

            Isso significa que, ao ver as obras de Avelino, algumas delas retratando cenas noturnas, somos transportados para uma espécie de outra realidade. O ícone bizantino, por exemplo, buscava que o observado, por meio da imagem visível, atingisse o invisível, ou seja, naquele momento histórico, a divindade.

            É evidente que a arte contemporânea perdeu esse caráter sagrado no sentido literal, mas, quando bem realizada, mantém a atmosfera mágica. Pode-se observar a São Paulo do quadro e pensar em uma outra, além dela, dentro de cada um de nós, permeada por nossas lembranças e momentos.

            As rondas de Avelino pela cidade de São Paulo promovem justamente uma série de pensamentos sobre o que é a cidade e o que significa pinta-la neste século XXI. Quando o elemento humano se faz presente, em diversas composições, como pequenas silhuetas a integrar esse mundo de uma rica arquitetura, às vezes negligenciada, os quadros ganham força visual.

            A cidade adquire vida no momento em que está salpicada pelas pessoas. Elas vão, vêm, se reúnem ou não se olham, mas interagem com os edifícios. São elas que tornam São Paulo o que ela é, tanto em seus melhores como nos mais tristes momentos, sempre de maneira definitiva..

            Nas suas obras mais significativas, Avelino devolve ao observador de seu trabalho, uma São Paulo renovada em termos de pintura. Trata-se de uma visão paulistana que se insere na tradição das artes visuais que se deixaram encantar por uma cidade que, a cada momento, se oferece como diferente.

É preciso ter sensibilidade, olhar arguto e técnica em constante evolução para conseguir observar a cidade sempre sob novos aspectos, pois o desafio da arte está em nunca se repetir. O assunto pode ser o mesmo, mas a inovação deve se fazer presente, seja numa pincelada, numa cor ou num gesto inesperado e maravilhosamente desbravador.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

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Ladeira Porto Geral
aquarela
30,5 cm x 45, 5 cm 2006

Avelino

 

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