Avelino
Rondando a
cidade
Todo
processo de amadurecimento técnico geralmente segue o desenvolvimento
de algum assunto. É mergulhando nele, por algum tipo de afinidade, que
o artista toma coragem e comete a progressiva ousadia de buscar novas
soluções plásticas para as suas necessidades visuais interiores.
Avelino tem
em vistas da cidade de São Paulo um assunto pictórico com o qual se
enfrenta a cada novo trabalho, seja pintando ao vivo, diretamente no
local, ou partindo de fotografias que ele mesmo tira. O desafio é
conseguir transformar sua vocação para pintura em resultado plástico
que o satisfaça.
Ao mergulhar
em São Paulo, principalmente na região do chamado centro velho, onde
está, por exemplo, a Estação da Luz, Avelino oferece o seu olhar
particular, explorando efeitos de luz e sombra e de composição.
Trata-se de um exercício cotidiano do olhar em que superar a si mesmo
é a meta constante.
Os trabalhos
mais expressivos são justamente aqueles realizados no universo dos tons
que rodeiam o ocre. Com eles, o artista revela, além de uma maior
intimidade, um processo de interiorização da própria imagem. Parece
que essa São Paulo cor de terra, regida pelo marrom, se faz presente
como um ícone metropolitano.
Isso
significa que, ao ver as obras de Avelino, algumas delas retratando
cenas noturnas, somos transportados para uma espécie de outra
realidade. O ícone bizantino, por exemplo, buscava que o observado, por
meio da imagem visível, atingisse o invisível, ou seja, naquele
momento histórico, a divindade.
É evidente
que a arte contemporânea perdeu esse caráter sagrado no sentido
literal, mas, quando bem realizada, mantém a atmosfera mágica. Pode-se
observar a São Paulo do quadro e pensar em uma outra, além dela,
dentro de cada um de nós, permeada por nossas lembranças e momentos.
As rondas de
Avelino pela cidade de São Paulo promovem justamente uma série de
pensamentos sobre o que é a cidade e o que significa pinta-la neste século
XXI. Quando o elemento humano se faz presente, em diversas composições,
como pequenas silhuetas a integrar esse mundo de uma rica arquitetura,
às vezes negligenciada, os quadros ganham força visual.
A cidade
adquire vida no momento em que está salpicada pelas pessoas. Elas vão,
vêm, se reúnem ou não se olham, mas interagem com os edifícios. São
elas que tornam São Paulo o que ela é, tanto em seus melhores como nos
mais tristes momentos, sempre de maneira definitiva..
Nas suas
obras mais significativas, Avelino devolve ao observador de seu
trabalho, uma São Paulo renovada em termos de pintura. Trata-se de uma
visão paulistana que se insere na tradição das artes visuais que se
deixaram encantar por uma cidade que, a cada momento, se oferece como
diferente.
É
preciso ter sensibilidade, olhar arguto e técnica em constante evolução
para conseguir observar a cidade sempre sob novos aspectos, pois o
desafio da arte está em nunca se repetir. O assunto pode ser o mesmo,
mas a inovação deve se fazer presente, seja numa pincelada, numa cor
ou num gesto inesperado e maravilhosamente desbravador.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).