por Oscar D'Ambrosio


 

 


Aura Ramirez
O equilíbrio da inclinação


Imagens dos Andes, do Caribe venezuelano e do Sul dos EUA, além de diversas paisagens urbanas, compõem o universo pictórico da artista Aura Ramirez, capaz de construir as mais diversas composições, principalmente casas inclinadas e ruas de paralelepípedos, em atmosferas muito próximas às melhores manifestações do realismo fantástico na literatura.
Nascida na cidade de Mérida, Venezuela, em 17 de agosto de 1963, Aura está hoje radicada na Carolina do Sul, EUA. "Desde criança, sempre estive ativamente ligada à arte de pintar. Primeiro, graças a minha mãe. Depois, com o apoio das pessoas que me rodeiam", conta. "Sempre estou buscando algo diferente. Atualmente, ao me entender como naïf, posso expressar, com muito movimento, cor e amor, aquilo que faço."
O naïf surgiu para Aura entre 1996 e 1997. "Passava por um momento difícil de minha vida e o naïf me ajudou a me superar e a seguir em frente, tanto no nível pessoal como no artístico", afirma. Surge assim uma arte voltada para o paisagismo urbano, em que a artista não só trabalha com cores e formas, mas, principalmente, consegue transmitir a vida das pessoas que habitam nas residências, geralmente distorcidas, que retrata.
Para ter uma visão mais ampla do trabalho de Aura, é interessante retomar seu percurso artístico e existencial. Formada na Escola de Artes da Universidade dos Andes, em sua cidade natal, ela tomou os Andes venezuelanos como ponto de partida para uma obra vinculada ao naïf. Posteriormente, debruçou-se sobre as praias do Caribe de seu país e diversos bairros da capital, Caracas.
Mais recentemente, ao morar na Carolina do Sul, seus quadros começam a revelar influência da cultura do sul dos EUA. Os casarios históricos e as pessoas da região estão começando a ser personagens de quadros que sempre acentuam a relação entre a pessoa e o meio ambiente. As cidades que retrata, portanto, não são vazias ou mortas, mas surgem intensas e cheias de vida.
Laureada com o primeiro prêmio na Feira de Arte de San Cristóbal, Venezuela, Aura cristaliza a tradição de obras de artesanato de qualidade de Mérida. Ao enfocar os Andes tradicionais, a artista consegue belos efeitos, muito próximos ao surrealismo. As casas e igrejas, algumas de pedra, surgem geralmente de maneira inclinada, em cores vívidas.
Com esse efeito de quebra da lógica, as pinturas ganham intensa expressividade. Pontes de pedra, telhados encurvados e paredes brancas compõem universos pitorescos, em que as pessoas não aparecem como passivos integrantes da tela, mas como seres perfeitamente integrados ao todo. Ao fundo de alguns quadros, está a Cordilheira dos Andes, sendo que o Pico Bolívar com seus 5007 m, o mais alto da Venezuela, pode ser visto de qualquer local da cidade de Mérida.
O diálogo da pintora com o norte da Cordilheira Andina é constante, mas ela também consegue excelente efeito quando volta os olhos, telas e pincéis para as praias de seu país. Surgem assim, em biquinis sumários, mulheres arredondadas se bronzeando sob um sol inclemente em um ambiente paradisíaco, além de pescadores no seu duro trabalho diário.
Significativamente, os traços, nesses trabalhos sobre o ambiente litorâneo, são mais rústicos do que os presentes nas paisagens urbanas, em que predominam casas desequilibradas, que são dispostas em composições harmônicas que exploram praticamente todo o espaço da tela. Nos dois casos, Aura revela amplo domínio do seu ofício, na busca de densas imagens que atinjam a universalidade.
Ao enfocar o Sul dos EUA, Aura obtém resultado semelhante. Os andinos são substituídos por negros e negras e a arquitetura das casas também se altera. Mesmo assim, os traços do estilo bem definido da pintora permanecem, principalmente no trabalho realizado nas calçadas e nas ruas. Isso torna suas telas facilmente reconhecíveis.
Praça Santo Domingo, por exemplo, mostra as casas inclinadas, uma praça da Mérida venezuelana, cidade que tem municípios homônimos na Espanha e no México, e, ao fundo, a Cordilheira dos Andes, mais especificamente Serra Nevada. A oscilação das casas, ora inclinadas para a direita, ora para a esquerda, dão à tela um equilíbrio interno ímpar.
O maior segredo da arte de Aura Ramirez reside justamente na forma de tratar as paisagens urbanas. Ao inclinar tetos e ondular calçadas consegue dar uma dimensão humana a elementos concretos. Assim, em suas telas, as figuras humanas não são essenciais, pois o frio material das construções ganha, em sua perspectiva muito pessoal, emoção e dinamismo.
O resultado é uma arte em que as inclinações fogem aos parâmetros pré-estabelecidos pela realidade, criando uma nova relação do espectador do quadro com as cidades que vê todos os dias. Após contemplar diversos quadros de Aura, surge uma dúvida de cunho existencial: não será que as cidades são inclinadas e que nós, em nossa limitação humana, as vemos retas, frias e sem vida?
Ao motivar esse tipo de pergunta, patamar somente atingido por manifestações artísticas de qualidade, a obra de Aura Ramirez revela seu valor e justifica uma cuidadosa atenção, pois obriga a rever o aparente mundo real de ângulos retos sob uma fantástica perspectiva inclinada e distorcida, o que propicia o saudável exercício de encontrar, entre frias linhas e ardilosas curvas, nosso equilíbrio interior.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

 

 

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