por Oscar D'Ambrosio


 

 


Atelier Vanguarda

 

            A abertura de um espaço de exposições deve sempre ser recebida com alento, pois indica a existência de possibilidades de novos diálogos entre os artistas e o público. Numa sociedade em que o isolamento existencial é uma ameaça muito presente, a oportunidade de ver trabalhos e de refletir sobre eles já é motivo de júbilo.

O Atelier Vanguarda, localizado na Rua Cônego Eugênio Leite, 840, no Jardim América, abriu as portas com uma exposição coletiva de 18 artistas. Com diversas origens e linguagens poéticas, eles mostraram, de 18 de novembro a 6 de dezembro,  amostras do seu trabalho artístico.

            Os destaques são dois artistas de reconhecida competência e com o mesmo amor pelas técnicas sobre papel: Feres Lourenço Khoury e Rubens Matuck. O primeiro, ao trazer a público imagens de seu Livro das horas merece destaque não só pela intensidade plástica, mas, acima de tudo, pela delicadeza e coragem de criar pequenos livros em que textos e imagens são articuladas num caleidoscópio que remete às iluminuras medievais.

Matuck, mestre da aquarela, mostra seis estudos nessa técnica em que diversos cubos são transpassados por cores. Ele se vale daquilo que mais diferencia essa forma plástica de ver o mundo: o poder das velaturas de atrair o observador a praticamente penetrar em cada imagem, sendo transportado a novas dimensões.

Sergio Longo, em sua Dança das horas, embora tenha um tema análogo ao de Feres Khoury, segue um caminho bem diferente. A imagem é propositalmente desvanecida e não ocorre o jogo com a palavra. O seu universo é da superfície da tela e da destruição de tempo cronológico coletivo pelo psicológico individual. O resultado cativa pela coragem e despojamento no tratamento da matéria.

Entusiasmo semelhante, em termos de lidar com os recursos que a arte sobre tela oferece, é o atingido por Yugo Mabe. A paixão do fazer surge com todo vigor pela coloração utilizada e pela gestualidade como são colocados os diversos elementos imagéticos trabalhados.

A linguagem expressionista abstrata de Yugo encontra em Marcelo Tanaka um interessante paralelo. As duas telas Sonhos que ele apresenta incorporam a questão do onírico ao plástico, num casamento feliz. As imagens são o ponto de partida para nosso sonho e o de chegada dele.

            Lucy Pereira, com suas tela Transcendência, convida a um outro tipo de mergulho, vivencial. O seu trabalho pictórico, principalmente no trabalho desenvolvido em tons ocre revela uma combinação harmoniosa e entre lirismo e o domínio da técnica pictórica.

            Jorge Branco, com um casario em que o vermelho e o amarelo predominam,  realiza um exercício de composição em que o figurativo se torna menos importante perante a maneira de articular os elementos arquitetônicos que compõem o universo urbano.

Luiz Carlos Ferraciolli, com sua Construção VI, exercita a habilidade já reconhecida. Há sempre nele a preocupação com o trato do material e com o impacto visual de obras que, muitas vezes, como neste caso, são melhor observadas à distância, pelo amplo poder de comunicação de suas imagens. 

Vagner Aniceto, com sua série Metrópolis, uma em azul e outra em marrom, também oferece a sua visão do urbano, mas de uma maneira mais explícita, com edifícios imensos, verdadeiros blocos a preencher a tela. Seu mundo é o da grande cidade, onde não há espaço para respirar, mas também local de mistério, presente nas tonalidades que utiliza, sempre prontas a cativar pela sutileza.

Paulo Calazans, com o sugestivo título do Platônico ao real II, trabalha textura, composição e cores de forma a permitir duas leituras: uma, de perto, permite a observação do trabalho pictórico propriamente dito; outra, mais afastada, gera o interesse pelos jogos formais propostos.

            Já numa vertente mais figurativa, Vera Pimenta consegue captar o movimento dos malabares, de quem os manipula e da atmosfera do entorno ao artista. As cores quentes auxiliam a dar o clima da cena e , nesse sentido, o vermelho desempenha um papel essencial. Torna-se o foco do nosso olhar e prende a atenção.

Resultado semelhante é alcançado por Angel Cestac. Em Tocador de saxo, apresenta uma interessante e desafiadora composição, onde se destaca uma máscara na parte inferior esquerda do quadro. O universo da música pode então ser interpretado, assim como o de toda arte, como um cosmos em que o poder de seduzir e de criar novas realidades, por meio das mais distintas linguagens, é fundamental.

Cecília Braun, com uma figura masculina imponente, obriga a uma reflexão sobre a importância das formas humanas na arte contemporânea. Para ela, o corpo merece relevância como o local em que o ser humano se concretiza, seja em sua existência concreta, seja em sua materialidade plástica.

Norma Amaral, em Idade da inocência, trabalha com uma técnica próxima ao impressionismo, em que predomina a delicadeza, com sutil trabalho plástico. Suas imagens remetem as Graças e outras figuras alegóricas voltadas à exaltação da juventude e da mulher.

Elmi Scarino, A dança dos anjos, tem uma pintura com respiração semelhante, movida pela imagem humana e pelos elos que ligam pessoas a outras esferas. Trata-se do universo em que o belo e o harmonioso caminham em paralelo, dispostos a cativar e encantar o observador pelo uso da cor e das figuras.

            Lirismo semelhante, só que em uma esfera bem mais contemporânea de realização plástica, no sentido de busca de uma ousadia visual e conceitual, é o de Ivoty Macambira. Os pés surgem como objetos de desejo, sendo fotografados e tendo as imagens montadas em várias posições e com diversos calçados, obrigando um novo olhar sobre os nossos próprios passos existenciais

            No universo da escultura, Marcos Garrot, com seus trabalhos em ferro pintado, em que o dourado e o preto dialogam, oferece uma obra de agradável resultado plástico e esmerado acabamento. Cada peça é cuidadosamente esboçada e finalizada em uma estética que deixa quase nenhum espaço para o acaso, mantendo em alta a inventividade humana.

Margarita Farré, por sua vez, ao lidar com o alumínio pintado, dá novas conotações à figura humana, retirando dela o máximo que o material lhe permite, principalmente em composições estéticas às vezes bem-humoradas, como em De pernas pro ar.

Virgínia Sé, em seus três trabalhos, apresenta esculturas em que se vale da resina para construir variadas formas. A exploração das potencialidades das linhas e a pesquisa da tensão entre o alongado e o achatado geram, a cada trabalho, a curiosidade de verificar até onde a potencialidade da artista pode chegar.

Do conjunto de trabalhos expostos nesta exposição inicial, fica a certeza de que a cidade ganha um novo e significativo espaço cultural. A escolha de Feres Lourenço Khoury e Rubens Matuck para ocupar o maior espaço e mostrar o maior número de trabalhos já foi uma escolha feliz, característica de um projeto que pode vir a agregar muito à vida plástica de São Paulo e – por que não? – do Brasil, país que ainda tem muito a ser explorado, em termos de espaços de exposição artística das mais variadas tendências.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 
 

 

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