Atelier
Vanguarda
A abertura de um espaço de exposições
deve sempre ser recebida com alento, pois indica a existência de
possibilidades de novos diálogos entre os artistas e o público. Numa
sociedade em que o isolamento existencial é uma ameaça muito presente,
a oportunidade de ver trabalhos e de refletir sobre eles já é motivo
de júbilo.
O
Atelier Vanguarda, localizado na Rua Cônego Eugênio Leite, 840, no
Jardim América, abriu as portas com uma exposição coletiva de 18
artistas. Com diversas origens e linguagens poéticas, eles mostraram,
de 18 de novembro a 6 de dezembro,
amostras do seu trabalho artístico.
Os destaques
são dois artistas de reconhecida competência e com o mesmo amor pelas
técnicas sobre papel: Feres Lourenço Khoury e Rubens Matuck. O
primeiro, ao trazer a público imagens de seu Livro
das horas merece destaque não só pela intensidade plástica, mas,
acima de tudo, pela delicadeza e coragem de criar pequenos livros em que
textos e imagens são articuladas num caleidoscópio que remete às
iluminuras medievais.
Matuck,
mestre da aquarela, mostra seis estudos nessa técnica em que diversos
cubos são transpassados por cores. Ele se vale daquilo que mais
diferencia essa forma plástica de ver o mundo: o poder das velaturas de
atrair o observador a praticamente penetrar em cada imagem, sendo
transportado a novas dimensões.
Sergio
Longo, em sua Dança das horas,
embora tenha um tema análogo ao de Feres Khoury, segue um caminho bem
diferente. A imagem é propositalmente desvanecida e não ocorre o jogo
com a palavra. O seu universo é da superfície da tela e da destruição
de tempo cronológico coletivo pelo psicológico individual. O resultado
cativa pela coragem e despojamento no tratamento da matéria.
Entusiasmo
semelhante, em termos de lidar com os recursos que a arte sobre tela
oferece, é o atingido por Yugo Mabe. A paixão do fazer surge com todo
vigor pela coloração utilizada e pela gestualidade como são colocados
os diversos elementos imagéticos trabalhados.
A
linguagem expressionista abstrata de Yugo encontra em Marcelo Tanaka um
interessante paralelo. As duas telas Sonhos
que ele apresenta incorporam a questão do onírico ao plástico, num
casamento feliz. As imagens são o ponto de partida para nosso sonho e o
de chegada dele.
Lucy
Pereira, com suas tela Transcendência,
convida a um outro tipo de mergulho, vivencial. O seu trabalho pictórico,
principalmente no trabalho desenvolvido em tons ocre revela uma combinação
harmoniosa e entre lirismo e o domínio da técnica pictórica.
Jorge
Branco, com um casario em que o vermelho e o amarelo predominam,
realiza um exercício de composição em que o figurativo se
torna menos importante perante a maneira de articular os elementos
arquitetônicos que compõem o universo urbano.
Luiz
Carlos Ferraciolli, com sua Construção VI, exercita a habilidade já
reconhecida. Há sempre nele a preocupação com o trato do material e
com o impacto visual de obras que, muitas vezes, como neste caso, são
melhor observadas à distância, pelo amplo poder de comunicação de
suas imagens.
Vagner
Aniceto, com sua série Metrópolis,
uma em azul e outra em marrom, também oferece a sua visão do urbano,
mas de uma maneira mais explícita, com edifícios imensos, verdadeiros
blocos a preencher a tela. Seu mundo é o da grande cidade, onde não há
espaço para respirar, mas também local de mistério, presente nas
tonalidades que utiliza, sempre prontas a cativar pela sutileza.
Paulo
Calazans, com o sugestivo título do Platônico
ao real II, trabalha textura, composição e cores de forma a
permitir duas leituras: uma, de perto, permite a observação do
trabalho pictórico propriamente dito; outra, mais afastada, gera o
interesse pelos jogos formais propostos.
Já numa
vertente mais figurativa, Vera Pimenta consegue captar o movimento dos
malabares, de quem os manipula e da atmosfera do entorno ao artista. As
cores quentes auxiliam a dar o clima da cena e , nesse sentido, o
vermelho desempenha um papel essencial. Torna-se o foco do nosso olhar e
prende a atenção.
Resultado
semelhante é alcançado por Angel Cestac. Em Tocador
de saxo, apresenta uma interessante e desafiadora composição, onde
se destaca uma máscara na parte inferior esquerda do quadro. O universo
da música pode então ser interpretado, assim como o de toda arte, como
um cosmos em que o poder de seduzir e de criar novas realidades, por
meio das mais distintas linguagens, é fundamental.
Cecília
Braun, com uma figura masculina imponente, obriga a uma reflexão sobre
a importância das formas humanas na arte contemporânea. Para ela, o
corpo merece relevância como o local em que o ser humano se concretiza,
seja em sua existência concreta, seja em sua materialidade plástica.
Norma
Amaral, em Idade da inocência,
trabalha com uma técnica próxima ao impressionismo, em que predomina a
delicadeza, com sutil trabalho plástico. Suas imagens remetem as Graças
e outras figuras alegóricas voltadas à exaltação da juventude e da
mulher.
Elmi
Scarino, A dança dos anjos,
tem uma pintura com respiração semelhante, movida pela imagem humana e
pelos elos que ligam pessoas a outras esferas. Trata-se do universo em
que o belo e o harmonioso caminham em paralelo, dispostos a cativar e
encantar o observador pelo uso da cor e das figuras.
Lirismo
semelhante, só que em uma esfera bem mais contemporânea de realização
plástica, no sentido de busca de uma ousadia visual e conceitual, é o
de Ivoty Macambira. Os pés surgem como objetos de desejo, sendo
fotografados e tendo as imagens montadas em várias posições e com
diversos calçados, obrigando um novo olhar sobre os nossos próprios
passos existenciais
No universo
da escultura, Marcos Garrot, com seus trabalhos em ferro pintado, em que
o dourado e o preto dialogam, oferece uma obra de agradável resultado
plástico e esmerado acabamento. Cada peça é cuidadosamente esboçada
e finalizada em uma estética que deixa quase nenhum espaço para o
acaso, mantendo em alta a inventividade humana.
Margarita
Farré, por sua vez, ao lidar com o alumínio pintado, dá novas conotações
à figura humana, retirando dela o máximo que o material lhe permite,
principalmente em composições estéticas às vezes bem-humoradas, como
em De pernas pro ar.
Virgínia
Sé, em seus três trabalhos, apresenta esculturas em que se vale da
resina para construir variadas formas. A exploração das
potencialidades das linhas e a pesquisa da tensão entre o alongado e o
achatado geram, a cada trabalho, a curiosidade de verificar até onde a
potencialidade da artista pode chegar.
Do
conjunto de trabalhos expostos nesta exposição inicial, fica a certeza
de que a cidade ganha um novo e significativo espaço cultural. A
escolha de Feres Lourenço Khoury e Rubens Matuck para ocupar o maior
espaço e mostrar o maior número de trabalhos já foi uma escolha
feliz, característica de um projeto que pode vir a agregar muito à
vida plástica de São Paulo e – por que não? – do Brasil, país
que ainda tem muito a ser explorado, em termos de espaços de exposição
artística das mais variadas tendências.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor,
entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América)
e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).