por Oscar D'Ambrosio


 

 


   A sutileza do vazio: os (des) encontros de Miguel e Maria Sutil

 

Toda obra de arte digna desse nome traz dentro de si numerosas discussões. Elas podem ser de várias naturezas, desde  técnicas a existenciais, mas tornam-se mais fascinantes quando se encontram e se cruzam, gerando novas possibilidades de visualização de um trabalho plástico.

É exatamente isso o que ocorre com as imagens de Miguel e Maria Sutil. Há nelas a sutileza do vazio por um progressivo processo de diluição de imagens. Os dois personagens não estão ali amplamente visíveis, mas sugeridos e, quanto mais eles não aparecem, mais se fazem presentes pela sua força.

            A origem desse trabalho está numa das facetas menos conhecidas e mais importantes da produção artística de Rubens Matuck. Trata-se da história em quadrinhos, que começou a desenvolver mais sistematicamente desde os 15 anos, que tem, como protagonista, Charles Mogadom.

Na história, à noite, há uma chamada geral – e cada família se faz presente com a explosão de um tipo próprio de fogo de artifício, no qual as cores denunciam, por um processo conhecido como piroheráldica, o estado emocional de cada família, com suas harmonias e desarmonias.

O problema é que Mogadom, ao se casar com uma senhora extraterrestre, teve dois filhos: Miguel e Maria Sutil. Separados desde jovens, eles precisam se reencontrar para que o fogo familiar se recomponha adequadamente. O mais fascinante é que os irmãos ganham vida própria nas pinturas de Rubens.

            O nome Miguel Sutil vem de Miguel Sutil de Oliveira, garimpeiro que, em 1722, descobriu, à flor da terra, ouro onde foi erguida a Vila do Bom Jesus de Cuiabá. Foi essa oposição entre a dura tarefa da sobrevivência no ato de arrancar o sustento do interior do solo e o sobrenome do personagem histórico, que conquistou Rubens.

            O mais curioso é que, somente nos anos 1980, Rubens foi alertado pelo escultor Van Acker que nessa história em quadrinhos estava a melhor e mais importante parte do seu trabalho. Afinal, ali estavam somados desenho, texto e a presença de letras para dar impacto dramático às cenas ou reforçar a narração.

            Analogamente, as pinturas de Miguel e Maria Sutil têm vida própria longe da história de Mogadom.  Há a discussão técnica que se instaura no diálogo entre a tinta a óleo e o nanquim e entre ambos e o suporte em madeira. Surge então a decisão do momento de parar, que Matuck cristaliza com a colocação do verniz.

            Enquanto as pinturas de Miguel são basicamente um jogo entre o que se vê o que se sugere, e entre o que está dito e o que pode ser vislumbrado, geralmente a partir dos rostos esmaecidos dele, Maria é tratada de corpo inteiro. Isso não significa que ela seja plenamente visível, mas sim que ela está sutilmente invisível.

            Miguel e Maria Sutil são um exercício de pintura que esconde e revela uma prática filosófica que se realiza nos vazios e cheios de cada quadro e na presença da figura e na sua ausência. Os dois não se encontram porque, incompletos, são imagens que necessitam do observador para existir enquanto objetos plásticos e vivenciais.

            Quando olhamos para o rosto de Miguel e para o corpo de Maria, vemos muito mais que pinturas e muito menos que uma representação da realidade. Está ali um pensamento, uma discussão sobre o que é a pintura, como ela se dá e como ela pode ser sutil no ato de tratar de encontros e desencontros humanos.       

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

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