por Oscar D'Ambrosio


 

 


A superação do temporal

 

            Baudelaire, em 1863, como aponta David Harvey, logo no início do capítulo 2 de seu livro Condição pós-moderna, indica que a modernidade “é o transitório, o fugidio, o contingente; é uma metade da arte, sendo a outra o eterno e o imutável” (1). Essa frase dá o tom do raciocínio que norteia aspectos conflitantes daquilo que se convenciona chamar de modernismo.

            O mundo e a arte contemporânea, nesse contexto, apresentam um panorama em que sobressaem sentimentos de fragmentação, efemeridade e mudança, dentro de um espírito em que o caos predomina, numa concepção dionisíaca marcada pela destruição como uma forma de criação.

            Técnica, velocidade e movimento fascinaram os modernistas – e alguns acabaram por adotar uma postura inclusive fascista –, num universo em que a reprodutibilidade dos livros e a invenção da fotografia são essenciais no estabelecimento de uma nova lógica da relação do homem com o mundo que passa, é claro, pela forma como a arte é concebida.

            Perante um mundo em que a máquina, a industrialização, a urbanização, os novos sistemas de transportes e comunicação, a ascensão dos mercados de massa e das modas, além da publicidade,  o modernismo deu a sua resposta e fez ainda propostas, como a de William Morris, que junta a tradição artesanal com a defesa da simplicidade do desenho.

            Após a Segunda Guerra Mundial, as numerosas vertentes artísticas continuaram a se desenvolver aprofundando conceitos ou reformulando anteriores, sempre dentro do pensamento de que, com  vitória dos EUA e da Rússia, surgiu praticamente a obrigação de uma tomada de posição política, pelo capitalismo ou pelo socialismo, geralmente  com declínio da qualidade, já que o programático em qualquer atividade tende a levar uma deterioração do pensamento criativo em si mesmo.

            O essencial nesse processo é observar como os atos de representar o mundo e de conhecê-lo se alteraram muito em pouco tempo. O fim do modernismo está associado justamente ao descrédito de que o progresso e a razão, ainda numa perspectiva iluminista, eram as melhores alternativas para o desenvolvimento humano

            Ser pós-moderno, pensamento que, para Harvey, cristaliza-se entre 1968 e 1972,  significa buscar entender como se dá essa desilusão. O pesquisador, seguindo o pensamento de Kant, para quem o juízo estético estabelece uma ponte entre a razão prática (juízo moral) e a compreensão (conhecimento científico), crê que a questão central esteja em articular esses elos num mundo em que absolutamente tudo se torna cada vez mais relativo.

            O artista moderno tinha o grande desafio de se posicionar num mundo que parecia se avizinhar ao caos. Para isso, as respostas que surgiram como propostas alternativas foram muitas, incluindo o retorno a culturas antigas, como as africanas, na pintura de Picasso e mesmo a releitura dos mitos numa concepção de espetáculo de massas , levado adiante pelo nazismo, em que a mitologia nórdica representou uma forma de reler o mundo que colocava os germânicos como vitoriosos.

            O pós-moderno, concebido como um pensamento dos anos 1960, questiona justamente a racionalidade técnico-burocrática em que a arte russa (o realismo socialista) e a americana (expressionismo abstrato) se basearam. Instaura-se nesse período a contracultura, que tem no respeito ao individualismo uma marca registrada.

            A música, a roupa, a linguagem e o estilo de vida aproximam a pessoas, mas existe o respeito ao fato de ser diferente e de não seguir os padrões da geração anterior. As universidades das principais capitais do mundo, principalmente nos EUA e na Europa, vivem, entre 1968 e 1972, um mesmo momento de contestação.

            A resistência à urbanização e ao pensamento racionalista ocidental marca a contracultura, que, por sua vez, também fracassa, já que o mundo perde o fio de prumo estabelecido, questionando inúmeros valores, mas não consegue estabelecer, como pretendiam algumas correntes, uma unidade programática ou existencial.

            Com a desilusão do modelo modernista e o fracasso prático das propostas lançadas nos ano 1960 e começo dos 1970, a pós-modernidade se instaura sob o espírito da desilusão. As certezas modernas e as revolucionárias se esvaíram e o pós-modernismo, terminado, para alguns, com a queda das Torres Gêmeas, em Nova York, voltou a se debater, em seu vazio existencial e paradigmas quebrados, com a luta entre aquilo que transita e desaparece e o que é duradouro e ultrapassa os séculos.

            Desse embate, em todas as épocas, costumam surgir obras de qualidade, que merecem ser vistos e revistos. Seja na modernidade, na pós-modernidade ou na arte contemporânea, o grande desafio dos criadores está em realizar trabalhos que consigam superar o temporal e tragam, de fato, um acréscimo para a capacidade humana de se relacionar com o mundo, maior objetivo da arte.

             

            (1) Este texto é uma reflexão sobre a leitura do capítulo 2, “Modernidade e modernismo”, do livro Condição  pós-moderna, de David Harvey. SP: Edições Loyola, 1993.

 

Oscar D’Ambrosio mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 

 

 

 

 



 

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