As roseanas
veredas de Célia Custarella
Médico e
diplomata,
o escritor mineiro João Guimarães Rosa (1908
–1967)
é um dos mais importantes exemplos nacionais de autor que consegue ser, ao
mesmo tempo, regional e universal. Embora o cenário de seus textos seja
geralmente o sertão mineiro, o seu domínio vocabular e as questões
existenciais que levanta o tornam de uma densidade que atinge leitores de
todo o planeta.
O
livro de
contos Primeiras
estórias, publicado
em 1962, reúne as
mais
importantes
qualidades do
escritor
mineiro,
principalmente o
uso da
linguagem
popular e
regional,
muito influenciados
pela
língua
falada.
Isso
sem
contar uma das
particularidades do
autor: a
invenção de
palavras e o
desenvolvimento dos
mais variados
tipos de
construções sintáticas.
Os
contos se passam no
ambiente
rural,
mas
sem a designação de
um
local
específico. Os
personagens podem
ser apresentados
como
excepcionais, no
sentido de
que,
em
cada
conto, há
geralmente
alguém
especial, seja
com
poderes
paranormais
ou considerado
santo
ou
louco.
Isso
sem
falar
em
bandidos,
ou seja,
aqueles
que vivem à
margem do
sistema.
Ao se
debruçar plasticamente
sobre
esse
universo, a
aquarelista Célia Custarella constitui
um
caderno de
artista e oferece a
sua
visão da
poética roseana instaurando
sua
própria
visão
lírica, marcada
geralmente
pela
predominância dos
tons
terrosos e dos azuis, compondo,
assim,
um
universo,
em
que o
telúrico
fala
muito
forte.
Do
conjunto de
obras transformadas
em
aquarelas
pela
artista,
três merecem
especial
atenção:
Partida do audaz navegante,
A
terceira
margem do
rio e
Famigerado. A
extrema
delicadeza, a
capacidade de
utilizar o
assunto sugerido
pelo
conto
rumo a uma
leitura
bem
dentro de
sua
técnica e o
uso do
lilás
para
transportar
para a
cor a
atmosfera do
texto,
respectivamente,
são os
aspectos a serem
destacados.
Quando Célia
penetra no
universo das
manchas, consegue
alcançar o
íntimo do
universo roseano,
caracterizado
justamente
pelo
poder
muito
mais de
sugerir
situações e
evocar
estados de
alma do
que de
declarar
verdades absolutas
sobre a
vida, a
morte
ou a
passagem do
tempo.
A
presença de
paredes destruídas,
amarelos
em diversas
nuances e a
exploração dos
vazios das
páginas do
caderno dão ao
trabalho da
artista uma
rica
dimensão, marcada
pela
capacidade de
estabelecer
mistérios
visuais
paralelos aos
literários
criados
por
Rosa,
cujo
centenário de nascimento é completado neste
ano.
A
busca de
diferentes
alternativas de
composição
para
solucionar o
desafio
técnico da
divisão das
áreas oferece ao
observador uma
ampla
gama de
respostas. À
medida
que o figurativo vai sendo destruído, ocorre
a instauração de
um
clima de
coragem
plástica,
em
que a
criação de
atmosferas vale-se,
inclusive, de
maior
variedade
cromática,
até
com a
utilização de
cores
mais
quentes
que as
habituais da
artista.
Frases como “o
sertão é do tamanho do mundo” e “viver é perigoso”, paradigmas da escrita
roseana em Grande sertão: veredas, de 1956, pontuam os contos de
Primeiras estórias. Célia Custarella, acima de tudo, conseguiu captar,
com a sensibilidade de suas imagens, mormente nas mais manchadas e
terrosas, as importantes questões que o escritor desenvolve sobre a vida e
a relação do homem com Deus, o diabo e a morte. As veredas do ser humano
são, assim, tratadas com extrema sutileza e, enfocadas numa linguagem
ímpar.
Oscar D’Ambrosio, jornalista
e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a
Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).