por Oscar D'Ambrosio


 

 


A São Paulo de Gregório Gruber

 

            Não há dúvidas da beleza arquitetônica da cidade de São Paulo. O chamado centro Velho é a prova disso, com seus edifícios, luzes e sombras propiciadas ao meio-dia e infinitas variações geradas pela iluminação noturna. Trata-se de um universo sempre pronto a ser visto por novos olhares.

            A questão, porém, é que, como bem mostra a exposição de Gregório Gruber, no IQ Gallery, em 2006, em São paulo, SP, as possibilidades de exploração do espaço urbano têm, nele uma referência obrigatória. Em boa parte, isso se deve ao fato do artista ter uma versatilidade técnica apurada, que coloca a serviço do seu olhar da cidade.

            A cidade que ele vê é a mesma pela qual passamos milhares de vezes sem nos depararmos para a harmonia das linhas e as riquezas visuais de certas nuances. O seu talento está em captar essa delicadeza com rigor e sensibilidade ao mesmo tempo, num exercício cada vez mais raro na arte contemporânea.

            O mais impressionante é que, seja no pastel, na litografia ou em outra técnica, Gregório Gruber tem, como já demonstrou em outros trabalhos, um conhecimento técnico aprimorado pela prática constante e pelo desenvolvimento da capacidade de nunca se acomodar.

            Quando São Paulo surge em seu esplendor arquitetônico, com poucas e reduzidas figuras humanas que parecem estar ali apenas para testemunhar a grandiosidade urbana, a obra de Gruber apresenta um clima desolado e impessoal que beira o metafísico, como em alguns trabalhos de De Chirico.

            Os vazios são preenchidos pelo olhar do observador. Os mais atentos podem notar as sutilezas técnicas do uso de aquarela, óleo, pastel, sangüínea, crayon ou tinta acrílica. Outros vão se deliciar especificamente com a maneira como surgem espaços grandiosos em que a mescla do mistério com a humanidade se da em cada esquina.

            A cidade de Gruber é a São Paulo que todos gostariam de vivenciar. Há pessoas na dimensão humana e, mesmo a tristeza de suas ruas vazias, ganha pela forma como ele as apresenta, uma força plástica à qual não é possível ficar indiferente. Cada detalhe é construído com o cuidado de um demiurgo a criar o seu próprio mundo.

            A São Paulo que surge em cada obra do artista santista é muito mais que um retrato figurativo de um espaço. Trata-se da construção mental e imagética de um universo de relações, em que cada linha ali existente apresenta uma função para a harmoniosa   composição do todo.

            Surge assim um município que supera cada tentativa de ser reduzido em meia dúzia de palavras ou de imagens. Está ali uma cidade grandiosa, que Gruber não se cansa de mostrar com seu potencial de buscar uma nova técnica, tamanho ou angulação. Afinal, o assunto, neste caso, pode não ser o mais importante em si mesmo, mas sim a maneira de lhe dar uma consistente visão plástica.

Nisso, o artista é um mestre, ciente do seu talento e delicado o suficiente para não transformar seu virtuosismo em frio exercício técnico, mas sim em magistral expressão de um sentimento de  pertencer à cidade, tornando-a um local que desejamos conhecer mais e melhor a cada momento, guiados pela sua sensibilidade plástica a toda prova.

 

Oscar D’Ambrosio mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 

 

 

 



 

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