por Oscar D'Ambrosio


 

 


As multidões de Carlos Scaranci

 

            Um dos temas mais apaixonantes do mundo contemporâneo é o das multidões. O assunto, presente em autores clássicos como Edgard Allan Poe, tem como grande mistério a discussão de como os grupos ganham uma personalidade própria, distinta das individualidades que os compõem.

            Em paralelo, existe a questão fundamental de como a pessoa perde a sua identidade quando se integra ao coletivo. Ser um nada que tudo pode amparado pela força do grupo contém uma dialética e uma ambigüidade que fascina a cada instante e obriga a uma reflexão constante sobre o papel do ego numa sociedade massificada.

            As pinturas a óleo, acrílica e digitais de Carlo Scaranci, sob o título Crowd, trazem imagens que geram o mergulho nesse mundo metropolitano de não ser alguém perante uma sociedade em que os 15 minutos de fama de Andy Warhol são cada vez mais buscados e rapidamente esquecidos.

            As figuras sem rosto, as imagens distorcidas ou trabalhadas com pontilhismo  apontam para uma construção visual arquitetada de modo a dar a uma reunião mundial de cúpula, uma festa, um show ou uma manifestação política a mesma dimensão de uma solidão individual disfarçada às vezes de solidariedade coletiva.

            As pessoas desaparecem e se tornam conjuntos de fantasmas movidos pelas motivações mais variadas. Desejos coletivos e movimentos de reivindicação, seja em cores ou em grisalhas, que variam do branco ao negro, constituem uma musicalidade visual que Carlos Scaranci rege.

            O processo de lidar com tintas e recursos computacionais caminham numa mesma direção: a de captar o cerne das massas e dos grupos, universos que reúnem autonomia e sempre aceitam novos participantes desde que eles sejam absorvidos por esse sentimento coletivo.

            Scaranci se debruça sobre as multidões e encontra a força primordial que elas roubam de cada pessoa. É nas massas e na sua poética caminhada por ruas de todo o mundo que ele cristaliza a construção de uma poética marcada pelo entendimento do coletivo como a supressão da individualidade e a entrada numa nova dimensão.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

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