As
Luzes de Paulo Velloso
Edith Wharton (1862-1937) alertava que
“há duas maneiras de espalhar luz: ser / A vela ou o espelho que
a reflete”. A máxima da romancista inglesa se aplica bem ao
trabalho do fotógrafo Paulo Velloso. Suas andanças pela região do
bairro da Luz, em São Paulo, ao contrário do que ingenuamente pode
parecer, não têm como assunto principal o bairro, a estação ou
ícones da região, como a Pinacoteca do Estado.
O grande
tema desenvolvido é a própria luz e as relações entre o ser
humano e o seu entorno. A região escolhida é apenas um recorte de
uma visão poética e delicada sobre como pessoas se comportam
perante tudo aquilo que as rodeia, seja um edifício, uma parede ou
outro indivíduo.
Nesse
sentido, a imagem de um trabalhador puxando um pequeno carro, do
qual obtém o seu sustento, e um cão se entreolhando funciona como
ícone de um universo sensível em que seres racionais e irracionais
podem simpatizar uns com os outros pelo simples fato de ambos
estarem vivos e serem contemporâneos, nem que seja no mero instante
em que as lentes os flagram.
Pode-se
lembrar, por exemplo, que, erguida entre 1895 e 1900, com projeto do
inglês Charles Henry Driver e material vindo da Inglaterra, a atual
Estação Luz, recentemente restaurada, foi a porta de entrada para
os estrangeiros que chegavam do porto de Santos e iam para a
Hospedaria dos Imigrantes, no Brás, onde assinavam contratos para
trabalhar nos cafezais paulistas.
No
entanto, a estação que Velloso retrata é outra: a de pessoas
humildes que vão de um lado para outro, muitas delas portadoras de
uma beleza em que a ingenuidade se mescla com a sensualidade. As
angulações e construções de cada foto revelam não apenas a
capacidade de olhar o mundo, mas de construir uma visão própria da
realidade.
O mesmo
raciocínio vale para o Jardim da Luz. Inaugurado como Jardim Botânico
em 1798, foi a primeira área de divertimento e lazer para a população
paulista. À época, foi implantado um sistema de paisagismo inglês,
mudas de plantas foram compradas no Rio de Janeiro, eram realizadas
no local quermesses e, aos domingos, no coreto, apresentava-se a
banda da Guarda Municipal.
Velloso
nos transporta ao seu próprio jardim. Pessoas em balanços parecem
voar, idosos movimentam-se semiperdidos e lances furtivos, em que
amor e sexo nem sempre caminham juntos, cristalizam-se perante
nossos olhos. Tudo isso ocorre no Jardim da Luz, mas poderia ser em
qualquer outro lugar.
O grande
assunto é a luz em si mesma. As fotos, em preto e branco, carregam
algo da filosofia barroca de que a iluminação é tudo. O local
onde está o foco ou a entrada plástica da luz é que dá vida a
diversos personagens, ora mais poéticos, ora mais bizarros, mas
sempre muito humanos.
Os muros
próximos à estação de trem exercem função análoga. O modo
como a luz bate e rebate neles permite enxergar pessoas, formas
arquitetônicas, igrejas, torres ou edifícios. São corredores de
luz, de vida, de existências que têm nas imediações da Luz uma
moldura existencial.
Árvores,
crianças brincando nos jardins, jovens desencontrados e numerosas
composições visuais em que a luz se faz presente como protagonista
apontam que a forma de
olhar é mais importante do que o assunto em si mesmo. É na maneira
de olhar o mundo que o trabalho de Paulo Velloso contém a sua força.
A imagem
em que um Hotel chamado Queluz é fotografado ultrapassa o mero jogo
verbal. Constitui uma possibilidade de filosofia imagética. Ao se
ver o conjunto de fotos de Paulo Velloso, brota uma significativa
exclamação “Que luz!”. Seja do bairro, do Jardim ou do fenômeno
visual em si mesmo, essa reação comporta uma mesma certeza: o
artista que criou as fotos é uma vela a espalhar a sua luz. As
imagens que vemos são o espelho de um mundo que ele encontrou e que
nos cabe, com admiração e humildade, olhar melhor para conhecer o
seu encanto.
Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra
a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Petivov
(Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de
São Paulo). É responsável pela página www.artcanal.com.br/oscardambrosio