por Oscar D'Ambrosio


 

 


As janelas vêem festas

 

            Lourdes de Deus e Vânia Rossi têm em comum o fato de reunirem o amor pela pintura e compartilharem um processo de aperfeiçoamento que as acompanha desde o início da carreira. Existe nelas a mesma vontade de dar às suas pinceladas um sentido cada vez maior, seja no que diz respeito ao impacto visual, seja na forma de pintar e nos assuntos abordados.

            Fascinada pelas portas e janelas e os mistérios que elas abrem e fecham, Vânia estimula cada observador a encontrar o seu próprio imaginário atrás de cada imagem que cria. A justaposição de camadas favorece justamente o desvelar de conotações e símbolos presentes em cada composição.

            Lembranças e instantes de vida se fazem presentes em cada novo trabalho, onde o esmalte brilhante, ao destacar certas áreas em negro, cria incertezas e gera interrogações sobre o próprio sentido de estar no mundo. O que está por trás de cada porta e janela precisa ser desvendado pelo olhar de cada observador.

            Para Lourdes de Deus, o que existe escondido são flores, festas populares e procissões. Cores fortes e formas bem definidas são resultado de um sucessivo processo de busca pela perfeição. Ela preenche o espaço com delicadeza, dando aos seus trabalhos, de aparente simplicidade, uma complexidade plástica muito peculiar.

As festas populares surgem em todo seu dinamismo e vigor, sendo um retrato não apenas de um momento, mas de uma visão de mundo diferenciada, marcada pelo constante diálogo entre aquilo que o mundo tem de sisudo e aquilo que se apresenta como festivo.

Para as janelas de Vânia Rossi que interrogam, existem as cores de Lourdes que respondem, num diálogo constante entre o que se esconde e o que é revelado, entre aquilo que é interdito e o que existe declarado. Os infinitos portais sugeridos oferecem frestas de cor.

As janelas se abrem e vêem festas, os esmaltados negros ganham cor, e a arte agradece a oportunidade de reunir duas artistas talentosas, sim, mas, acima de tudo, muito comprometidas com a qualidade do seu trabalho, já que uma janela só se abre para o aparente vazio se houver atrás dela uma realidade colorida plena de sentido. É o que ocorre nesta exposição.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

 



 

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