por Oscar D'Ambrosio


 

 


As caixas de Pandora de Caciporé Torres

 

            Um dos maiores desafios da escultura é encontrar artistas que tenham claro que, quando se fala em volume, é necessária uma visão tridimensional dos objetos. Isso vale também para uma escultura de parede ou um mural. Elas têm mais sentido enquanto obra quando geram no observador a necessidade de ver o trabalho de perto, de longe e de todos os ângulos possíveis e imagináveis.

A mais recente série do escultor Caciporé Torres motiva essa reflexão. São caixas nas quais ocorrem dois movimentos. De um lado, há um consciente processo de revisão de momentos anteriores, principalmente no que diz respeito às formas e materiais. Por outro, há a inovação pela entrada de um elemento até agora pouco presente no trabalho do artista: a intensidade da cor.

As estruturas de metal e volumes criados são agora colocados em caixas que funcionam como imensas molduras. Cada uma delas possui vida própria, mas também pode ser plasticamente absorvida separadamente. Seja em conjunto ou de maneira isolada, cada caixa traz experimentações as mais variadas, constituindo um jogo caleidoscópico.

A combinação do trabalho com as possibilidades de relevo das superfícies e seu casamento com cores oferece a exploração de um dos grandes méritos da escultura: a possibilidade de romper barreiras e de instaurar novos universos em que a construção visual se enriquece pelo jogo permanente de formas.

Artista que acompanha todo o processo de criação, colocando a mão na massa desde a construção da caixas até o acabamento de cada peça, Caciporé traz, nessa série, a evocação da função maior do artista: a de buscar romper os próprios limites criativos e as fronteiras dos materiais com os quais trabalha.

No presente caso, quando se pensa em caixa, logo vem à mente um dos mais célebres mitos gregos: o de Pandora. Com numerosas versões ao longo dos séculos, pode ser sintetizado como a narrativa do castigo de Zeus aos homens por eles terem se beneficiado da inteligência divina que o titã Prometeu roubou dos deuses e lhes entregou.

            Pandora, que, em grego, significa “todos os dons”, era um ser pleno em qualidades. Foi moldada em argila por Hefesto, deus das forjas, e recebeu a beleza de Afrodite, o talento musical de Apolo, o conhecimento do ato de colher de Deméter, a habilidade manual de Atená, a habilidade de não se afogar de Posídon e a personalidade de Zeus, quem também lhe presenteou com a celebra caixa.

            Dentro dela, o todo-poderoso deus grego colocou os males que se abateriam sobre os homens, como mentira, doenças, inveja, velhice, guerra e morte. Pandora ofereceu a caixa a Prometeu, que, sabiamente, como aponta seu nome, cujo significado é “aquele que vê antes”, recusou.

            Em seguida, orientada por Zeus, Pandora levou a caixa ao irmão de Prometeu, Epimeteu. Também seguindo a lógica do seu nome, “aquele que vê depois”, ele abriu a caixa, soltando os males entre a humanidade. Rapidamente, tentou fechar a tampa, conseguindo conservar apenas um elemento: o mal  que acaba com a esperança.

            Desse modo, a esperança, tradicionalmente simbolizada por dois olhinhos verdes, se mantém intacta entre nós. Ora em alta, ora em baixa, propicia momentos de reflexão e de maior ou menor densidade filosófica e existencial de acordo com o potencial, o desejo e a capacidade de cada um.

            Caciporé Torres liberta, nas suas caixas, todo tipo de emoção. Há ali imagens conflituosas, em que os elementos plásticos lutam entre si, e outras bem mais prazerosas, que aludem a seios e a outros elementos fálicos. Seja pela violência ou pela harmonia, as caixas estimulam a consciência do observador.

            Há nelas o que existe de melhor na produção artística de qualidade, ou seja, a inquietação. Cada caixa gera uma plêiade delas, seja pelos volumes, próprios do processo escultórico, ou pelas cores, que trazem uma intensidade e, às vezes, alegria plena de significados e emoções.

            As caixas de Caciporé, ao contrário da de Pandora, já vêm abertas. Não se instaura nelas a questão que moveu Prometeu e Epimeteu. Elas já estão com seus males inquietantes do ser humano à mostra. São desafios à interpretação de cada um, resgatando o que a arte tem de melhor: a capacidade de pensar.

 

Oscar D’Ambrosio, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp/São Paulo/Brasil), integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil).

 

 

 

 



 

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