por Oscar D'Ambrosio


 

 


As brechas e os elos entre arte e sociedade

 

            “Se numa certa medida a arte é produto da sociedade, numa larga medida a sociedade também se modela sobre a arte”. A frase de Roger Bastide alerta como o universo da produção, venda e consumo da arte forma uma tríade de complexos relacionamentos.

Alguns dados são muito curiosos nesses elos, como o fato de nem sempre a pessoa que tem dinheiro para comprar ter uma formação adequada para discernir, por exemplo, entre o trabalho de qualidade e aquele que apenas repete modas estrangeiras. Aliás, nas chamadas sociedades em desenvolvimento geralmente o poder aquisitivo está distante do bom gosto.

            O pensamento de Bastide encontra um interessante parâmetro de diálogo no Capítulo 7 do livro Arte moderna, de Giulio Carlo Argan (São Paulo, Companhia das Letras, 1992). Ali, ele aponta, inicialmente, que, após a Segunda Guerra, o novo centro do mundo da arte passa a ser Nova York, pois os EUA passam a ter então uma posição de hegemonia mundial, no sentido de não louvar as produções do passado europeu, convivendo com a action painting e a pop art como se fossem, de certo modo, os marcos iniciais da arte.

            Enquanto a primeira defende a força do gesto, a segunda se volta para a apropriação da cultura pop como mecanismo de expressão. A arte chamada conceitual, logo em seguida, com sua raiz metalingüística seria o extremo desse raciocínio, em que se faz arte apenas para refletir sobre o que ela é, num processo que conduz paulatinamente a um grande vazio.

            Argan considera que os EUA, com sua hegemonia no mundo artístico do pós-guerra, teriam levado a três problemáticas igualmente graves e interligadas: a eliminação da idéia de arte como algo sublime; o entendimento dela como a simples existência de um objeto, sem a discussão de sua finalidade; e a louvação do emprego de qualquer técnica, desde que permita que essa arte se insira no mundo da comunicação de massa.

            A crise da arte estaria então vinculada a uma desvalorização do próprio pensamento sobre o que significa a arte e, acima de tudo, aos elos estabelecidos, de uma forma cada vez mais profunda, entre a imagem, a cultura de massa e a sociedade industrial. O que passa a ter valor não é o objeto de arte em si mesmo, mas o valor financeiro que cada objeto tem.

            Uma expressão concreta disso pode ser encontrada nos grandes colecionadores de todo o mundo. Ao mostrarem suas obras, não se referem a elas como trabalhos artísticos, analisando seus elementos intrínsecos, como equilíbrio, cor ou luz. Eles as tratam como “tenho um Portinari, um Rembrandt”.

            Nessa visão, a assinatura é mais importante que o quadro. O mercado de arte, seguindo essa lógica, valoriza mais a assinatura do que o trabalho em si mesmo. Não importa o que é feito, mas sim quem assina. Essa valorização do artista, enquanto produtor da obra, sob uma espécie de aureola mística e mesmo mítica, remonta, como é possível lembrar, ao próprio romantismo, em que, muitas vezes, o criador é mais importante do que a sua criatura artística.

            Argan verifica então que os artistas se colocam em dois grupos: o dos “inseridos” no sistema tecnológico-industrial e o dos artistas que “não renunciam ao papel de intelectuais”. Assim como o realismo socialista russo colocava a sua arte a serviço da propaganda política, os artistas do primeiro grupo estariam voltados apenas em ter sucesso comercial. Qualquer pesquisa estaria voltada para o lucro – e, naturalmente, essa riqueza resulta em poder.

            A pesquisa estética dos artistas do segundo grupo estaria voltada, desse modo, apenas para gerar produtos belos, ou seja, facilmente consumíveis, dando ao artista visibilidade e nome no mercado. Conquistado esse objetivo, a qualidade fica em segundo plano, pois o consumidor estaria adquirindo a assinatura e não a imagem que visualiza no quadro (esta, aliás é o que menos importa).

            A conclusão desse raciocínio é que a qualquer crie da arte teria  nos artistas, não na sociedade, um de seus principais culpados. A partir do momento que boa parte deles deixa as pesquisas individuais de lado em nome do mercado, sacrificariam sua arte e se “venderiam” enquanto artistas. Se atingem sucesso enquanto oposição ao mercado, como é o caso de criadores do mundo do grafite, como osgemeos ou Zezão, seria somente enquanto tivessem uma certa “autorização” do sistema para se manterem ativos e produtivos.

            O pensamento de Argan, marcado por um profundo romantismo em relação ao artista, joga os criadores que ele valoriza, enquanto autênticos, numa marginalidade alternativa, ou seja, eles só poderiam ter qualidade se estiverem à parte do sistema, o que significa mergulhar num sofrimento sem fim.

            A conseqüência do pensamento de Argan é um círculo vicioso para o artista que deseje se manter virtuoso, ou seja, segundo ele, há dois caminhos: o da inserção no sistema e o de manutenção do papel de intelectual. Aqueles que optam pelo segundo, ao não desejarem a inserção, se marginalizam e, por conseqüência, se afastam cada vez mais do sistema que desejam combater.

            O que resta é muito pouco. Longe do sistema, o artista que preserva a sua capacidade intelectual vende seu trabalhão para quem? E, ao vender, não estaria criando seu próprio sistema, o qual precisaria também combater para manter a coerência estética? Não há saída nesse pensamento, resultado, de uma visão, a meu ver, equivocada, de que o artista precisa ser marginal ao capitalismo para ter qualidade.

            Aquilo que torna o artista melhor é a sua pintura, escultura, gravura ou capacidade técnica e de pensamento de realizar uma obra de arte, independendo da técnica utilizada. A inserção no mercado depende de numerosos fatores – muitos alheios ao próprio artista. E, se inserir, no mercado, tendo sucesso de venda e de público, não me parece uma “falha trágica” ou uma “venda” ao sistema, como Argan induz a pensar.

            Ter sucesso de venda e de público não é pecado, mas boa parte da historiografia e crítica de arte insiste nessa tese, achando que se inserir no mercado é sinônimo de uma espécie de venda da própria alma ao capitalismo. Tal visão limita a própria capacidade criadora do artista que, se ler Argan, sentirá que precisa ser marginal ao sistema, como Baudelaire, para obter reconhecimento da crítica.

            Pior ainda: Argan considera que se inserir no mercado é praticamente um mal em si mesmo, quase uma mostra de mediocridade quando creio que o pensamento inverso é mais lógico: conseguir inserir uma obra de qualidade num mercado marcado pela mesmice é que constitui o verdadeiro desafio, contribuindo para elevar o gosto comum.

            Fazendo isso, o artista não estará rebaixando a sua obra individual, mas se esforçando para elevar o padrão do gosto do mercado e da sociedade. Ansioso por novidades – algo próprio do modo de agir e pensar do capitalismo –, o sistema abre brechas. Saber aproveitá-las é uma prova de talento e de sobrevivência nos concorridos mercados globalizados, não de mediocridade, como Argan, de certo modo, nos leva a pensar.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

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