por Oscar D'Ambrosio


 

 


Artur Barrio

 

            Uma arte que não sabe mentir

 

            Entre as numerosas formas de arte, com os mais variados suportes e técnicas, o desenho parece ser um universo que não aceita a mentira. Na pintura a óleo, por exemplo, existe o retoque e a possibilidade de numerosas camadas, enquanto desenhar é como escrever e descrever a própria alma em imagens.

            Ao intitular a sua mostra na Galeria Millan, em 2008, de Desenhos, Artur Barrio não mente. O que ele apresenta justamente são retratos de uma trajetória. Cada uma de suas caixas traz um universo de referências e um resultado estético que pode levarcaminhos simplificados de interpretação.

            Um deles é ver as caixas apenas como reminiscências autobiográficas de um currículo marcado pela experimentação e por uma carreira onde sempre prezou pela individualidade e pela fidelidade ao próprio trabalho, tendo um compromisso apenas com si mesmo enquanto criador.

            Outra vertente está em ler as caixas apenas como uma coletânea de materiais, fazendo longas listas descritivas daquilo que elas guardam em seu interior, como se nesse tópico estivesse a explicação das obras. A diversidade de objetos dentro das caixas é bem mais que um catálogo. Constitui um legado.

            Isso não significa biografia ou pesquisa de materiais. Há ali um depoimento cristalizado na forma de caixa, elemento, de certo modo, sagrado, que isola seu conteúdo do mundo e o coloca numa dimensão divina que o separa de tudo que está ao seu redor.     

            Todavia, esse objeto de algum modo sagrado é, no caso de Barrio, formado pelo cotidiano e pelo profano. O que pode parecer contradição torna-se a maior das coerências, porque as caixas falam de um artista que, como bem sugere o título da presente exposição, não sabe mentir.

            Seus desenhos são uma verdade interior, uma declaração de intenções, uma maneira de viver a arte sem artifícios. Isso revela um criador que está além de reminiscências pessoais ou das matérias-primas de que se vale. Ele pensa e faz pensar – e com isso faz de seus heterodoxos desenhos autênticos libelos contra a mesmice.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

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  Exposição Desenhos
técnica mista Galeria Millan, 2008

Artur Barrio

 

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