Artistas
pintam São Paulo
Já chamada de “pátria
de heróis e berço de guerreiros” por Fagundes Varela; e de “comoção
de minha vida” por Mário de Andrade, a cidade de São Paulo tem sua
grandiosidade arquitetônica e urbanística, principalmente a de seu
chamado Centro Velho, imortalizada por artistas do passado e – também
do presente. É sobre estes últimos que vamos concentrar nosso olhar.
Os edifícios,
luzes e sombras propiciadas ao meio-dia e infinitas variações
geradas pela iluminação noturna são, por exemplo, um universo
pronto a ser visto por criadores como Gregório Gruber, que explora o
espaço urbano com versatilidade técnica apurada
a serviço de sua ótica da cidade.
A São
Paulo que ele vê é a mesma pela qual passamos milhares de vezes sem
reparar na harmonia das linhas e nas riquezas visuais de certas
nuances. O seu talento está em captar essa delicadeza com rigor e
sensibilidade ao mesmo tempo, num exercício cada vez mais raro na
arte contemporânea.
Já Márcio
Schiaz estabelece seus próprios mistérios na forma como soluciona
plasticamente suas telas em termos de composição de linhas e no
tratamento da superfície. Quando o assunto é especificamente a
Capital, São Paulo, Schiaz se vale, basicamente, de dois
métodos de pintura.
Por
um lado, registra os locais que deseja pintar em fotos, início de um
intenso trabalho no ateliê. Por outro, realiza pinturas in loco, no
calor da hora, buscando dar uma resposta mais instantânea à efervescência
de um momento. A opção de pintar ao vivo parece funcionar melhor
quando se trata de captar o movimento de feiras livres.
O artista
Avelino, por sua vez, tem em São Paulo um assunto pictórico com o
qual se enfrenta a cada novo trabalho. Assim como Schiaz, às vezes
pinta ao vivo. Em outras ocasiões, parte de fotografias que ele mesmo
tira. O desafio é conseguir transformar a sua vocação para a
pintura em resultado plástico que o satisfaça.
Os
trabalhos mais expressivos são aqueles realizados no universo dos
tons que rodeiam o ocre. Com eles, o artista revela, além de uma
maior intimidade, um processo de interiorização da própria imagem.
Parece que essa São Paulo cor de terra, regida pelo marrom, se faz
presente como um ícone metropolitano.
Selma
Machado Simão cruza, em seu trabalho plástico, duas técnicas: a
fotografia e a pintura. Estabelece-se assim uma forma híbrida, que
seduz por ter elementos de ambas, sem se completar totalmente com
nenhuma. A artista toma como base fotos antigas da cidade, havendo uma
recriação com diversas técnicas, como desenho, pintura, colagem,
serigrafia e transfers.
As fotos
antigas são o ponto de partida para uma visão moderna da cidade. Ela
ganha, nos trabalhos de Selma, em dinamismo. O impacto visual se dá,
pelo apuro técnico e pela ligação que a artista consegue
estabelecer com a cidade sob um ponto de vista afetivo.
No pólo
oposto do uso de técnicas mistas, está Marcelo Senna. Ele desenha São
Paulo com lapiseiras sobre chapas de eucatex branco envernizado.
Autodidata em desenho e pintura, o artista toma a cidade como cenário
para trabalhos de grandes dimensões, criando painéis que revelam São
Paulo sempre à distância.
Para
retratar esse rico universo de construções de cimento e de histórias
repletas de humanidade, o artista se vale de fotografias e de incontáveis
horas de passeio pela cidade. Andando de ônibus, ele busca o melhor
ângulo para transportar à cidade, que impressiona pela sua grandeza
e onipotência econômica, e comove, pelos seus tipos humanos.
Os
artistas contemporâneos aqui citados têm em comum sensibilidade,
olhar arguto e técnica em constante evolução para conseguir
observar a cidade sempre sob novos aspectos, já que o desafio da arte
está em nunca se repetir, transformando-os em busca de respostas
apuradas, que somem emoção à técnica. O assunto, no caso, o Centro
Velho, pode ser o mesmo, mas a inovação deve se fazer presente, seja
numa pincelada, numa cor ou num gesto inesperado e maravilhosamente
desbravador.
Oscar D’Ambrosio, mestre
em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação Internacional de
Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).