por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Artistas pintam São Paulo

 

            Já chamada de “pátria de heróis e berço de guerreiros” por Fagundes Varela; e de “comoção de minha vida” por Mário de Andrade, a cidade de São Paulo tem sua grandiosidade arquitetônica e urbanística, principalmente a de seu chamado Centro Velho, imortalizada por artistas do passado e – também do presente. É sobre estes últimos que vamos concentrar nosso olhar.

            Os edifícios, luzes e sombras propiciadas ao meio-dia e infinitas variações geradas pela iluminação noturna são, por exemplo, um universo pronto a ser visto por criadores como Gregório Gruber, que explora o espaço urbano com versatilidade técnica apurada  a serviço de sua ótica da cidade.

            A São Paulo que ele vê é a mesma pela qual passamos milhares de vezes sem reparar na harmonia das linhas e nas riquezas visuais de certas nuances. O seu talento está em captar essa delicadeza com rigor e sensibilidade ao mesmo tempo, num exercício cada vez mais raro na arte contemporânea.

            Já Márcio Schiaz estabelece seus próprios mistérios na forma como soluciona plasticamente suas telas em termos de composição de linhas e no tratamento da superfície. Quando o assunto é especificamente a Capital, São Paulo, Schiaz se vale, basicamente, de dois  métodos de pintura.

Por um lado, registra os locais que deseja pintar em fotos, início de um intenso trabalho no ateliê. Por outro, realiza pinturas in loco, no calor da hora, buscando dar uma resposta mais instantânea à efervescência de um momento. A opção de pintar ao vivo parece funcionar melhor quando se trata de captar o movimento de feiras livres.

            O artista Avelino, por sua vez, tem em São Paulo um assunto pictórico com o qual se enfrenta a cada novo trabalho. Assim como Schiaz, às vezes pinta ao vivo. Em outras ocasiões, parte de fotografias que ele mesmo tira. O desafio é conseguir transformar a sua vocação para a pintura em resultado plástico que o satisfaça.

            Os trabalhos mais expressivos são aqueles realizados no universo dos tons que rodeiam o ocre. Com eles, o artista revela, além de uma maior intimidade, um processo de interiorização da própria imagem. Parece que essa São Paulo cor de terra, regida pelo marrom, se faz presente como um ícone metropolitano.

            Selma Machado Simão cruza, em seu trabalho plástico, duas técnicas: a fotografia e a pintura. Estabelece-se assim uma forma híbrida, que seduz por ter elementos de ambas, sem se completar totalmente com nenhuma. A artista toma como base fotos antigas da cidade, havendo uma recriação com diversas técnicas, como desenho, pintura, colagem, serigrafia e transfers.

            As fotos antigas são o ponto de partida para uma visão moderna da cidade. Ela ganha, nos trabalhos de Selma, em dinamismo. O impacto visual se dá, pelo apuro técnico e pela ligação que a artista consegue estabelecer com a cidade sob um ponto de vista afetivo.

            No pólo oposto do uso de técnicas mistas, está Marcelo Senna. Ele desenha São Paulo com lapiseiras sobre chapas de eucatex branco envernizado. Autodidata em desenho e pintura, o artista toma a cidade como cenário para trabalhos de grandes dimensões, criando painéis que revelam São Paulo sempre à distância.

            Para retratar esse rico universo de construções de cimento e de histórias repletas de humanidade, o artista se vale de fotografias e de incontáveis horas de passeio pela cidade. Andando de ônibus, ele busca o melhor ângulo para transportar à cidade, que impressiona pela sua grandeza e onipotência econômica, e comove, pelos seus tipos humanos.

            Os artistas contemporâneos aqui citados têm em comum sensibilidade, olhar arguto e técnica em constante evolução para conseguir observar a cidade sempre sob novos aspectos, já que o desafio da arte está em nunca se repetir, transformando-os em busca de respostas apuradas, que somem emoção à técnica. O assunto, no caso, o Centro Velho, pode ser o mesmo, mas a inovação deve se fazer presente, seja numa pincelada, numa cor ou num gesto inesperado e maravilhosamente desbravador.

 

            Oscar D’Ambrosio, mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 

           

 

 

 



 

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