por Oscar D'Ambrosio


 

 


Artistas estrangeiros na cidade de São Paulo

 

            Conhecida como a cidade em que ocorreu a Semana de Arte Moderna, marco do início do modernismo no Brasil, São Paulo, pelas suas próprias características cosmopolitas, também abrigou numerosos artistas estrangeiros, principalmente oriundos da Itália, do Japão e do Leste Europeu, que deixaram, cada qual à sua maneira, marcas pela cidade. Vamos conhecer um pouco desses pintores, escultores e arquitetos, levando em conta como colaboraram para o desenvolvimento dos “ismos” que deram a São Paulo um espaço único no cenário artístico nacional.

            É preciso, primeiro, lembrar que, no início do século XX, São Paulo era a cidade mais moderna e industrializada do Brasil. Sua população cosmopolita, que não tinha vivenciado a tradição colonial e imperial do Rio de Janeiro, reunia mais condições de vinculação aos centros internacionais de cultura que, desde o início do século, viviam, na Europa, uma revolução de valores.

            A elite intelectual paulista estava, de fato, empolgada com a industrialização e o progresso já que a cidade tivera um grande desenvolvimento urbano em dez anos. A sua população, por exemplo, passara, de 240 mil habitantes, em 1910, para 500 mil em 1920.

Os sinais de industrialização eram evidentes, principalmente pela massa de imigrantes formada por uma maioria de italianos, vindos originariamente para trabalhar nas lavouras de café. Oficinas de ferreiros e funileiros se multiplicavam e sinalizavam para um grande crescimento fabril, com o aparecimento de pequenas empresas de alimentos e de tecidos. A indústria da construção civil, com a expansão urbana, também estava em plena atividade.

            Todo esse clima era propício a reações contra o conservadorismo, tanto nas artes como no próprio comportamento. A presença de imigrantes italianos e espanhóis acentua a existências de idéias socialistas e anárquicas. Estas últimas trazem consigo o pensamento futurista, movimento italiano de vanguarda cuja ideologia inflamada repudia agressivamente a tradição e exalta a cidade moderna e a tecnologia da civilização transformada pela técnica.

            Fundado em 1909, pelo poeta Marinetti, o futurismo começou como um movimento puramente literário ao qual aderiu um grupo de pintores e escultores, entre os quais Umberto Boccioni e Giacomo Balla. Dois manifestos lançados naquele ano proclamaram a base da estética futurista, exaltando as sensações dinâmicas do mundo moderno, a velocidade e a força física.

            Foi em 1912 que Mário de Andrade trouxe o Manifesto Futurista de Marinetti para São Paulo e, 14 anos depois, o próprio poeta italiano visitou a cidade e o Rio de Janeiro divulgando suas idéias, que conquistaram muitos jovens intelectuais paulistas, que gostavam de ser chamados “futuristas” embora a sua estética não se enquadrasse rigorosamente no estilo.

            Com a ascensão das culturas alemãs e italianas na cidade, houve, no início do século XX, toda uma campanha de trazer para São Paulo a efervescência cultural e intelectual artística da Europa, principalmente de Paris e Berlim. Além do futurismo, o pós-impressionismo, a pintura de Cézanne, o cubismo, as obras mais arrojadas de Van Gogh, o expressionismo e as poéticas construtivistas ainda não tinham repercussão por aqui.

            Em síntese, essas manifestações artísticas traziam novos conceitos de pintura, a transformação da relação espaço-tempo, a superação da perspectiva linear, a libertação da submissão da aparência do real e a libertação do compromisso da arte com a representação do real. Assim, os artistas se liberavam para dar vazão a suas poéticas individuais, vinculadas ou não aos “ismos” europeus.

            O marco da introdução do Brasil na arte de vanguarda foi Lasar Segall (Vilna, Lituânia, 1891 – São Paulo, SP, 1957). Embora suas mostras de arte expressionista, realizadas em 1913 em São Paulo e em Campinas,  não tenham causado grande impacto, aglutinado defensores ou polarizado opiniões, apresentou, como ele mesmo afirmou, “algumas experiências típicas da arte expressionista ao lado de obras de um modernismo mais moderado”.

            Cabe lembrar que Segall iniciou o seu aprendizado na sua cidade natal e estudou na Academia de Berlim, entre 1907 e 1909, quando foi desligado por ter participado da Frie Sezession, uma exposição de artistas que não seguiam a estética oficial. Em 1910, transferiu-se para Dresden, freqüentando a Academia de Belas-Artes local na qualidade de aluno instrutor. Nesse mesmo ano, realizou a sua primeira mostra individual, com pinturas fortemente marcadas pelo impressionismo de Liebermann.

Aos 20 anos, Segall começou a se afastar dessa influência e a se aproximar do expressionismo. Sempre em busca de novos caminhos, esteve em 1912 nos Países Baixos e, em 1913, veio para o Brasil, realizando as mencionadas exposições seminais de arte moderna no País. Retorna à Alemanha e, em 1914, como cidadão russo que era, foi preso num campo de concentração.

            A Alemanha vencida na Primeira Guerra (1914-18), velhos leitores do Talmude, livro sagrado dos judeus, camponeses, mendigos, indigentes, crianças, evocações da terra natal, retratos de parentes e auto-retratos eram as suas principais temáticas, tratadas com um desenho incisivo e anguloso, cores fortes e cruas e corpos deformados, evocando dor e sofrimento.

            Em 1923, Segall decidiu voltar ao Brasil, radicando-se definitivamente em São Paulo e, no ano seguinte, efetuou nova mostra individual, realizou conferência sobre arte na Vila Kyrial e executa a decoração para o Baile Futurista do Automóvel Clube e para o Pavilhão Modernista de Olívia Guedes Penteado. Casou-se com sua ex-aluna, ainda na Europa, de desenho e pintura, a tradutora Jenny Klabin São Paulo, SP, 1901 – id., 1967).

O mais interessante é que Segall, paulatinamente, começou a introduzir em suas obras cores e temáticas brasileiras, como mulatas com filhos brancos no colo, marinheiros, prostitutas, favelas e bananeiras, trabalhos que foram expostos, na segunda metade dos anos 1920, na Alemanha e, em 1928, no Rio de Janeiro.

            Depois de uma exposição em Paris, em 1932, Segall fundou, em São Paulo, com outros artistas, a Sociedade Pró-Arte Moderna, da qual foi a alma e diretor até 1935. Obras como Navio de imigrantes e Guerra, entre outras, mostram seqüências pictóricas dramáticas. Sua consagração veio com uma grande exposição realizada em 1943 no Museu Nacional de Belas-Artes no Rio de janeiro.

            Tipicamente expressionista, com uma técnica e um temperamento europeus, Lasar Segall pode ser, sob diversos aspectos, considerado um pintor brasileiro, não só por que aqui viveu entre 1923 e 1928 e de 1932 até a morte, em 1957, e por ter se naturalizado, mas principalmente porque incluiu, em boa parte de seus trabalhos, gente brasileira, mormente desamparados e oprimidos em suas obras de cunho social. Prova disso é que, em 1967, dez anos após a sua morte, a casa onde morava , na Vila Mariana, foi transformada no Museu Lasar Segall.

            Se Segall, como pintor, gravador, escultor e desenhista, é o primeiro ícone do modernismo, Anita Malfatti (São Paulo, 1896- id., 1964), embora paulistana teve grande influência dos mestres europeus em seu trabalho. Após ter estudado inicialmente com a mãe, pintora amadora, foi para a Alemanha, aperfeiçoar-se na Academia de Belas-Artes de Berlim, onde teve professores célebres como Louis Corinth.

            Excursionou ao sul da Alemanha, para visitar uma exposição de impressionistas e pós-impressionistas e seguiu para Paris, retornando ao Brasil em 1914, quando realizou a primeira exposição individual em São Paulo. Pouco depois, novo destino: Nova York, onde teve aulas com Juan Gris, Marcel Duchamp, Isadora Duncan, Leon Bakst, Gorjik e Diaghilev, tomando contato com o cubismo.

             Em 1917, de volta a São Paulo, preparou a celebre exposição de 53 telas que recebeu a feroz critica de Monteiro Lobato “Paranóia ou Mistificação?”. Se, por um lado, a violência do artigo do escritor paulista lhe valeu a solidariedade de jovens artistas e pintores, por outro, foi determinante para que ela perdesse a autoconfiança e parasse de desenvolver a própria linguagem pictórica.

            As telas de Malfatti revelam profunda ligação com o expressionismo alemão, marcando uma conduta pictórica que já existia na Europa desde 1905, caracterizada pela libertação do mundo visível, uso de cores não naturais, fortes e contrastantes, além de expressões de angústia e uso de linhas diagonais que criavam ângulos agressivos. Com trabalhos como esses, não só Anita participou da I Bienal de São Paulo, em 1951, como recebeu uma sala especial, com 45 obras, na VII Bienal, em 1963, com apresentação do crítico Paulo Mendes de Almeida.

            Ao lado de Segall e Malfatti, Victor Brecheret (São Paulo, SP, 1894 – id., 1955) forma a tríade do início da arte moderna em São Paulo e no Brasil.  Iniciou seus estudos no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo em 1912 e os tios, confiando em seu talento, proporcionaram-lhe todas as suas economias para que ele estudasse escultura na Europa, onde foi aluno de Arturo Dazzi, em Roma.

O esforço trouxe resultados rápidos. Em 1916, com apenas 22 anos, Brecheret foi premiado, em Paris, na Exposição Internacional de Artes, com a obra Despertar. Ao longo desses anos, sofreu profunda influência de importantes escultores europeus, como o iugoslavo Mestrovic e os franceses Bourdelle e Rodin, ao funeral de quem fez questão de comparecer, em 1917.

Em 1919, Brecheret montou o seu ateliê nos salões vazios do Palácio das Indústrias, chamando a atenção dos modernistas. Obras de sua autoria participaram da Semana de Arte Moderna, embora Brecheret estivesse, em 1922, em Paris, como bolsista do Governo de São Paulo. Sua obra-prima, que mescla a técnica européia com uma temática nacional, é o Monumento às bandeiras (1936-1953), grupo de 40 figuras instalado no Parque do Ibirapuera.

            Realizada entre 11 e 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal em São Paulo, a Semana de Arte Moderna foi um marco. Di Cavalcanti, em seu livro de memórias Viagem de minha vida – Testamento da Alvorada, de 1955, afirma que ele foi o idealizador do evento, tendo como modelo a Semana de Deauville na França e “outras semanas de elegâncias européias”.

O fato é que se os recitais de música e poesia foram recebidos com apupos, a exposição de artes plásticas, que teve catálogo com capa do próprio Di Cavalcanti, não gerou reações tão violentas. Entre os expositores, com oito trabalhos, não se pode esquecer John Graz (Suíça, 1895 – São Paulo, SP, 1980).

Ele realizou a sua formação artística em Genebra, Paris e Munique e, no início da carreira, sofreu influência do compatriota Ferdinand Hodles. Veio para o Brasil em 1920 e impressionou os artistas e escritores de vanguarda, tornando-se um dos pioneiros do design ao lado da esposa, a pintora e tapeceira Regina Gomide (Itapetininga, SP, 1902 – São Paulo, SP, 1973). Fez decoração de interiores, na qual introduziu temas brasileiros, e realizou uma produção de móveis que sintetizou as principais tendências da arte européia como a Art déco.

            Os desdobramentos ocorridos após 1920 foram certamente mais importantes do que a Semana em si mesma. Ao longo da década, houve uma avalanche de manifestos: dois de Oswald de Andrade (Poesia pau-Brasil, de 1924, e o Antropofágico, de 1928), o de arquitetura funcionalista, de Gregori Warchavnik, de 1925,  e o do Grupo Anta (Nhengaçu Verde Amarelo, de 1929, entre muitos outros).

Figura central nesse momento foi a pintora Tarsila do Amaral (Capivari, 1886 – São Paulo, SP, 1973), que recebeu grande influência da arte européia para formar o seu estilo. Ela realizou, em São Paulo, estágio no ateliê do pintor alemão Georg Fischer Elpons e, em 1920, foi para Paris, onde freqüentou a Academia Julian e o ateliê de Émile Renard, retratista de moda que introduziu Tarsila nas tendências modernas.

            Em 1922, Tarsila participou de uma exposição em Paris e, de volta a São Paulo, ligou-se aos intelectuais do grupo Klaxon, como Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia, com quem fundou o Grupo dos Cinco. Volta a Paris em 1925, tendo aulas com André Lothe, Fernand Lèger e Albert Gleizes. Conheceu ainda Picasso, De Chirico, Brancusi, Manuel de Falla, Stravinsky, André Breton, Blaise Cendrars e John dos Passos.

            Foi em 1924, em viagem para as Minas Gerais com Oswald e Cendrars que descobriu o Brasil, retratando-o sob influência cubista. A flora tropical, os caboclos, os negros e as cidadezinhas do interior surgem em suas telas em tons azuis e róseos que ela mesma chamou de “caipiras”.

            Outro artista do período que tem formação européia e a utiliza para retratar temas brasileiros é Osvaldo Goeldi (Rio de Janeiro, 1895 – id., 1961). Filho do cientista suíço Emílio Augusto Goeldi, que viera ao Brasil a convite de D. Pedro II, seguiu para Berna com a família aos seis anos de idade e, em 1915,entrou para  escola politécnica de Zurique.

Dois anos depois, com a morte do pai, dedicou-se à pintura, tendo realizado uma exposição individual de desenho com influência do expressionista Alfred Kubin. Em 1919, voltou ao Rio de Janeiro e, dois anos mais tarde, organizou uma exposição no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo que lhe valeu o apreço dos modernistas.

Em 1924, iniciou-se nas técnicas de gravura com Ricardo Bampi, em São Paulo, e ilustrou numerosas obras literárias. Pioneiro do expressionismo no Brasil, produziu xilogravuras marcadas por uma atmosfera noturna e visionária. Premiado no Brasil e no exterior, foi considerado o melhor gravador nacional da I Bienal de 1951, ultrapassando, portanto, o expressionismo europeu e as influências diretas de Kubin, Gauguin e Munch, principalmente em suas imagens muito pessoais de vagabundos e cães.

            Outro caso de artista brasileiro que trouxe para o País marcada influência européia foi Antonio Gonçalves Gomide (Itapetininga, SP, 1895 – Ubatuba, SP, 1967). Ele se transferiu com a família para a Suíça em 1913. Estudou na Escola de Belas Artes de Genebra, freqüentou aulas de Gillard e Ferdinand Hodler e viajou pela Península Ibérica. Em Paris, ligou-se a Picasso e aos cubistas.

Em Tolouse, França, em 1924, aprendeu com Marcel Renoir, a técnica do afresco e foi um dos primeiros a praticá-la no Brasil. Fixou-se em São Paulo em 1925 e dois anos depois, decorou a residência de Couto de Barros com o afresco Trabalhos e costumes selvagens. Realizou ainda cartões para vitrais do edifício do Parque das Industrias na Água Branca e relevos para o Mosteiro de São Bento

            Ainda nos anos 1920, o arquiteto russo-brasileiro Gregori Warchavnik (1896-1972)  merece destaque. Nascido em Odessa, Rússia, é considerado o primeiro arquiteto modernista da América Latina. Diplomado pela Universidade de Odessa, cursou, em seguida, o Instituto Superior de Belas-Artes de Roma. Dirigiu a construção do Teatro Savóia, em Florença, e veio trabalhar no Brasil em 1923.

            Dois anos depois, publicou o primeiro artigo de arquitetura moderna do País, descrevendo a casa como um bem de consumo qualquer. Construiu em São Paulo a primeira residência modernista do Brasil e da América Latina, em 1927. Projetou ainda, entre outros, as sedes de diversos clubes de São Paulo, como o Paulistano, o E. C. Pinheiros, o Tietê e a Hebraica.

            Na década de 1930, nasceram em São Paulo diversos movimentos e tendências artísticas vinculadas direta ou indiretamente ao modernismo de 1922. Em 23 de novembro de 1932. um grupo de artistas e intelectuais reunia-se na casa de Warchavchik para fundar a Sociedade pró-Arte Moderna de São Paulo (SPAM), com a participação de Paulo Rossi Ossir, Lasar Segall, John Graz, Vittorio Gobbis, Wasth Rodrigues, Antônio Gomide, Regina Graz Gomide, Anita Malfatti e Tarsila do Amaral.

            Para angariar fundos, o grupo organizou, no Carnaval de 1933, um grande baile intitulado “Carnaval na cidade de SPAM”, em recinto decorado por artistas sob a direção de Segall. Criou-se um Hino Spamtriótico, com musica de Camargo Guarnieri, moeda própria (spamote, dividido em spamins) e um jornal, A vida de Spam, dirigido por Mário de Andrade, Antônio de Alcântara Machado e Sérgio Milliet.

            Com a quantia angariada, abriu-se ao público a Primeira Exposição de Arte Moderna da SPAM que apresentou, além dos artistas associados, pela primeira vez no Brasil, obras de Picasso, Léger, Brancusi, Dufy, Juan Gris e De Chirico, entre outros. Como muitos desses artistas eram conhecidos apenas por reproduções, a exposição pode ser considerada uma das mais importantes já promovidas por particulares no País.

            No Carnaval de 1934, a SPAM promoveu novo baile, ainda  sob supervisão de Segall. O tema foi “Expedição às matas virgens da Spamolândia” A repercussão, porém, já foi menor e, com a saída de Segall e Warchavchik, o grupo se dissolveu. No entanto, embora com vida curta, ele foi importante para a divulgação da arte moderna européia no Brasil.

            Em 24 de novembro de 1932, surgia o Clube dos Artistas Modernos – CAM, fundado por Flávio de Carvalho, Di Cavalcanti, Carlos Prado e Antônio Gomide. O grupo também organizou importantes exposições, tendo como um de seus principais méritos a valorização da produção artística realizada no País por crianças e por doentes mentais.

            Entre 1935 e 1944, floresceu em São Paulo o Grupo Santa Helena. Ele se formou com a instalação gradual de ateliês de artistas no Palacete Santa Helena, na Praça da Sé. O local se tornou ponto de encontro para sessões de modelo vivo, troca de idéias sobre arte, discussão de trabalhos e de soluções técnicas adotadas.   

            Formado por imigrantes ou descendentes de imigrantes italianos e espanhóis, o Grupo Santa Helena tinha como principais integrantes Francisco Rebolo Gonzáles (São Paulo, SP, 1903 – id. 1980), Mário Zanini (São Paulo, SP, 1907 – id., 1971), o italiano Fúlvio Pennachi (Villa Collemandina, Toscana, 1905 – São Paulo, 1992), Aldo Bonadei (São Paulo, SP, 1906 – id. 1974), Alfredo Volpi (Lucca, 1896 – São Paulo, SP, 1988), Humberto Rosa (Santa Cruz das Posses, SP, 1908 – São Paulo, SP, 1948), Clóvis Graciano (Araras SP, 1907 – São Paulo, SP, 1988), Manuel Martins (São Paulo, SP, 1911 – id., 1979) e Alfredo Rullo Rizzotti (Serrana, SP, 1909 – São Paulo, SP, 1972).

Como pontos em comum, os integrantes do Grupo Santa Helena tinham o repúdio à arte acadêmica. A maioria deles era autodidata e seguia os conselhos do pintor, desenhista e arquiteto Paulo Cláudio Rossi Osir (São Paulo, SP, 1890 – id., 1959). Formado na Europa,  juntamente com Volpi e Zanini, ele fundou, na década de 1940, a Azulejos Osirarte, empresa dedicada à cerâmica artística e responsável, por exemplo, pela execução dos azulejos de Portinari para o conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte, e para o edifício do Ministério da Educação e Cultura, no Rio de Janeiro.

            O Grupo Osiarte teve importante contribuição para os rumos da pintura da modernidade paulista, principalmente ao ter a iniciativa de desenvolver uma produção própria, na qual Volpi e Zanini criaram projetos para  espaços residenciais da classe média. No entanto, a manutenção da produção é dispendiosa e as atividades duram somente até 1959, com obras e exposições realizadas em São Paulo, no Rio de Janeiro e na Argentina.

            Osir, ao lado de Vittorio Gobbis, dava conselhos sobre valores cromáticos e outros recursos técnicos, dentro da tradição da grande pintura italiana, retomando, por exemplo, Giotto. Aos domingos, os integrantes do Grupo saiam pelos arredores de São Paulo para pintar, ao ar livre, paisagens e cenas dos bairros de Aclimação e Casa Verde e cidades próximas, como Mogi das Cruzes e Itanhaém.

Proletários, os integrantes do Santa Helena exerciam profissões braçais. Volpi, Rebolo e Zanini eram pintores de parede; Rizzotti, torneiro; Bonadei, bordador; Pennacchi, açougueiro; Graciano, ex-ferroviário e ex-ferreiro; e Manuel Martins, aprendiz de ourives. Com esse perfil, realizaram obras em que mesclam a espontaneidade de um certo autodidatismo com o desejo de aproximar o seu trabalha das camadas mais populares.  

            Paralelamente ao Grupo Santa Helena, foi criada, em 25 de maio de 1937, no Esplanada Hotel, em São Paulo, o primeiro Salão de Maio. A iniciativa foi do pintor, escultor e crítico de arte Quirino da Silva, que o organizou com a colaboração de Geraldo Ferraz, Paulo Ribeiro de Magalhães, Flávio de Carvalho e Madeleine Roux. O evento foi repetido por mais duas vezes, mas perdeu a sua força inicial, na tentativa de mostrar ao público novos pintores.

            Um dos maiores expositores do Salão de Maio foi Ernesto de Fiori (1884-1945). Nascido em Roma, principiou os seus estudos em Munique, com Otto Griner e se dedicou inicialmente à pintura, adotando um estilo influenciado pelo suíço Ferdinand Hodler. Em 1911, começou a estudar escultura e a realizar as primeiras obras, sob influência de Malliol e Degas.

            Em 1914, transferiu-se para Berlim e, depois, da Primeira Guerra Mundial, transformou-se em um dos escultores mais prestigiados da capital alemã. Com a ascensão de Hitler, porém, abandonou a Alemanha, dirigindo-se para o Brasil. Morou algum tempo no Rio de Janeiro e, depois, radicou-se em São Paulo, onde moravam sua mãe e seu irmão mais velho.

            Em 1936, de Fiori abre a sua primeira exposição no Brasil. Também contribui com importantes idéias artísticas, como o artigo “A escultura e seus obstáculos, publicado no jornal da colônia italiana paulistana, o Fanfulla. Nesse texto, afirma que o artista não deve descer ao gosto dos mecenas ou aceitar encomendas, pois isso exigiriado artista um estilo que não lhe é espontâneo”.

            Antifascista e antinazista, aborda o tema em artigos publicados em O Estado de São Paulo. Realiza ainda exposições em 1939, 1941 e 1944, falecendo, em São Paulo, em 1945, sendo que, no ano seguinte, é organizada uma exposição em sua homenagem, que destaca as suas esculturas e pinturas, muitas delas inspiradas nas atrocidades da Segunda Guerra Mundial. Em 1975, o MAC-USP realiza uma retrospectiva que resgata parte de sua obra.

            Os já mencionados Paulo Rossi Osir e Vittorio Gobbis, além de apoiar o Grupo Santa Helena, foram os principais incentivadores da Família Artística Paulista, um novo agrupamento que surge em 1937, reunindo artistas do Santa Helena, como Rebolo, Volpi e Pennacchi), Anita Malfatti e mais jovens, como Armando Balloni.

O nome foi retirado por Osir de um grupo similar de Milão e seus fundamentos estéticos estavam nas restrições ao uso de termos como “vanguarda” e “moderno”. Nesse sentido, contesta a postura “modernista” dos Salões de Maio e exalta a perenidade da arte, numa postura menos combativa à tradição e mais voltada ao interesse pelo aperfeiçoamento técnico e pelo estudo constante para atingir uma técnica cada vez mais aprimorada.

            Paralelamente ao Grupo Santa Helena, em que os italianos e seus descendentes predominavam, existiu, em São Paulo, o Grupo Seibi, cuja sigla significa Grupo de Artistas Plásticos de São Paulo. Ativo entre 1935 a 1945, reuniu a colônia japonesa da cidade e teve uma existência quase desconhecida, devido à discriminação contra os japoneses na Segunda Guerra e à barreira da língua.

Ao contrario do Santa Helena, o Seibi nunca teve sede ou um local comum de trabalho nem mesmo uma convivência regular entre os seus membros. As reuniões eram mensais e ocorriam em locais diferentes. O núcleo inicial contava, entre outros, com Tomoo Handa (Utsunomiya, 1906), Walter Sigheto Tanaka (Kumameto, 1910 – São Paulo, SP, 1970) e Yoshya Takaoka (Tóquio, 1909 – São Paulo, SP, 1978). Após uma primeira exposição no Clube Japonês, em 1938, alguns membros do grupo, muitos ex-trabalhadores de lavouras de café, começaram a se aproximar dos círculos modernistas.

            A marca registrada desses artistas é a de uma pintura que estabelecia o diálogo entre Oriente e Ocidente, com conexões entre as tonalidades luminosas e a precisão do traço oriental com o pós-impressionismo, a arte de Cézanne e de Van Gogh e os fauvistas Matisse e Vlaminck. Acima de tudo, os pintores japoneses alertavam que pintar não era copiar a natureza, mas atingir uma elaboração sensível e cósmica da realidade.

            Dissolvido em  1943, com a Segunda Guerra Mundial, o Grupo Seibi ressurge em 1947, com uma proposta de incentivo à vida artística de São Paulo e atua até 1970, desaparecendo definitivamente em 1972. Nesse retorno, porém, teve a oportunidade de acolher novos valores, como Manabu Mabe (Kumanoto, 1924 – São Paulo, SP, 1997), Tikashi Fukushima (Fukushima, 1920) e Tomie Ohtake (Kioto, 1913), que começa a pintar em 1951.

            Toda essa movimentação resultou, em 1947, na exposição “19 pintores”. Os novos valores tiveram então a oportunidade de expor ao lado dos “modernos”. O evento contou com conferências de Sergio Milliet, Lourival Gomes e Luís Martins, enquanto o júri foi composto por figuras de renome, como Anita Malfatti, Lasar Segall e Di Cavalcanti. Surgiram aí nomes como Luís Sacilotto (Santo André, 1924), pioneiro da arte concreta no Brasil, e Odetto Guersoni (Jaboticabal, SP, 1924), criador da plastigrafia, exploração original dos recursos plásticos do gesso.

            Ainda nos anos 1940, os artistas japoneses e seus descendentes se destacam com a criação de dois grupos. Um deles, o Jacaré, é articulado por Yoshia Takaoka, em 1948, com a preocupação estética de valorizar o papel do ser humano e suas emoções na pintura. O resultado são imagens de grande riqueza cromática com desenhos em que a forma do corpo se dilui. Um dos artistas formados pelo grupo é justamente Manabu Mabe.

            Nesse mesmo ano, em torno da loja de molduras de Takashi Fukushima, no antigo Largo Guanabara, no Paraíso, surgiu o Grupo Guanabara. Realizou cinco exposições coletivas e se dissolveu em 1959, marcando o término dos grupos paulistas de pintura vinculados, direta ou indiretamente à saga dos modernistas de 1922.

Um artista que vivenciou bem esse período foi Tanaka Shiró, conhecido como Flávio Shiró. Nascido em Sapporo, em 1928, veio para o Brasil em 1932 e freqüentou o Grupo Santa Helena, o Grupo Seibi, o Grupo dos 19 e o Quinze, que durou de 1947 a 1949. Viveu também em Paris, desenvolvendo desde a arte abstrata até uma figuração que beira o fantástico, num percurso muito pessoal. Ao final de década de 1960, participa esporadicamente do grupo neo-surrealista Austral, com traços que o caracterizam como o mais ocidental dos pintores de origem oriental radicados em São Paulo.

Vários artistas do Grupo Seibi, no momento em que o Estado Novo de Vargas cerceava as atividades de reunião dos japoneses durante a Segunda Guerra, passaram para o Santa Helena em busca de caminhos para atingir a própria liberdade de expressão e um maior diálogo com outras tendências artísticas.

            Ao longo dos anos 1950, a cidade de São Paulo se caracteriza pelo intenso intercambio internacional. As principais tendências européias são rebatizadas ou alteradas. Isso ocorre, em grande parte, pela criação da Bienal de São Paulo. A mostra, organizada pela primeira vez em 1951, foi um projeto de Francisco Matarazzo Sobrinho (1898-1977) no sentido de romper o isolamento cultural em que se encontrava o Brasil.

            Foi estabelecida assim um profícuo diálogo com os principais centros artísticos do mundo. Durante o período em que esteve ligada ao Museu de Arte Moderna, de 1951 a 1962, foram promovidas sete exposições que se caracterizam pela apresentação da produção artística mais recente, em salas nacionais, e pela presença  de grandes salas especiais, retrospectivas, salas históricas e salas museográficas.

            Em 1962, criou-se a Fundação Bienal de São Paulo, voltada exclusivamente à realização do evento, firmando-se a tendência de discutir questões referentes às tendências artísticas contemporâneas e à promoção do intercâmbio cultural. Desse modo, obras de artistas do mundo inteiro chegaram ao Brasil, enquanto criações de nossos artistas começaram a estar presentes com maior freqüência nos grandes centros internacionais.

            É importante mencionar nesse processo o papel do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Criado em 1948, foi responsável pela instituição da Bienal, três anos depois, reestruturado em 1963 e, em 1969, inaugurou a sua atual sede na marquise do Parque Ibirapuera.

            Fundado em 1947 por Assis Chateaubriand, o Museu de Arte de São Paulo funcionou até 1968 no edifício dos Diários Associados, quando foi transferido para o prédio especialmente construído para esse fim, projetado por Lina Bo Bardi. Seu acervo, um dos mais valiosos da América Latina, inclui Ticiano, Bosch, Rembrandt, Goya, Degas, Turner, Van Gogh e Picasso, além de Portinari, Almeida Junior e Visconti, entre muitos outros. 

            Outro local importante para o diálogo entre artistas, público e crítica é o Museu de Arte Contemporânea. Criado em 1963 com as coleções de Francisco Matarazzo Sobrinho e do Museu de Arte Moderna, ocupa o último andar do Pavilhão da Bienal, projetado por Oscar Niemayer e tem no acervo obras de artistas de renome, como Malfatti, Segall, Di Cavalcanti, Chagall, Léger e Picasso.

            O MASP, o MAM e, principalmente a I Bienal Internacional foram os principais pólos de influência da arte abstrata. Esses locais seguiram uma política de desenvolvimento cultural inspirada no modelo norte-americano  de contar com o apoio do empresariado e tiveram grande influência estrangeira.

Basta lembrar que o italiano Pietro Maria Bardi foi o primeiro a dirigir o MASP e o belga Leon Dégand exerceu idêntica função no MAM. Ambos, além da origem européia, tinham em comum a permanente atualização com as manifestações, como a arte abstrata, que ocorriam no chamado Velho Continente.

            A arte concreta chegou ao Brasil na década de 1940, com as exposições do artista suíço-alemão Max Bill, do argentino Tomaz Maldonado e as conferências do crítico Romero Brest, que traziam ecos do movimento concreto na Argentina, em palestras realizadas no recém-fundado MASP, em 1950.

            A representação suíça de artistas concretos na I Bienal de São Paulo e o fato de Max Bill ter recebido, na ocasião, o Grande Prêmio Internacional de escultura são determinantes para que a idéia da arte concreta ganhe força. Um ano após a I Bienal, em 1952, surge o Manifesto Ruptura e a fundação do Grupo Paulista de Arte Concreta. Dois anos depois, artistas cariocas, em moldes semelhantes, formaram o Grupo Frente.

            O Grupo Ruptura contou com artistas como Lothar Charoux, Kazmer Fejer, Leopoldo Haar e Anatol Wladislaw propunham a renovação dos valores essenciais das artes visuais, levando em conta as novas relações apontadas pela ciência e pelos meios de comunicação entre espaço-tempo, movimento e matéria. Negavam, portanto, a intuição e acreditavam que a arte necessitava de um conhecimento prévio para ser apreendida pelo espectador.

            Os paulistas constituem uma vanguarda aguerrida. Fundam a revista Noigrande e, liderados por Waldemar Cordeiro, tentam colocar em prática os ideais do marxista italiano Antonio Gramsci, para quem os intelectuais e artistas tinham um importante papel na revolução da sociedade industrial, pois seus produtos culturais deveriam se integrar ao povo, ao sistema de produção industrial e à cultura de massa.

            Nesse sentido, Cordeiro, já em 1949, tinha participado da exposição “Do Figurativismo ao Abstracionismo”, que inaugurara o Museu de Arte Moderna de São Paulo, representando o abstracionismo brasileiro ao lado de Cícero Dias e do romeno Samson Flexor.          

            De fato, a arte abstrata, que se firmou na Europa e nos EUA logo após o término da Segunda Guerra Mundial (1945), difundiu-se no Brasil, nessa mesma época, por ações desenvolvidas pelo MAM, com destaque para Antônio Bandeira e Samson Flexor, não figurativistas. A partir da Bienal de São Paulo, o crítico Mário Pedrosa realizou palestras, baseadas nos fundamentos da psicologia da visão, que levaram numerosos artistas a praticar a arte abstrata.

            Antônio Bandeira (Fortaleza, CE, 1922 – Paris, França, 1967), autodidata, mudou-se para Paris em meados anos 1940, como bolsista do governo local, e travou contato com pintores como Camille Bryen e Wools, sendo um dos primeiros brasileiros a aderir  ao abstracionismo. De volta ao Brasil, em 1950, realizou murais e exposições, sendo premiado na II Bienal de São Paulo, de 1953.

            O pintor e muralista Samson Flexor (Sareka, Romênia, 1907- São Paulo, SP, 1971) é outro nome seminal. Cursa pintura em Bruxelas e se muda para Paris, em 1924, estudando com Lucien Simon. Membro da Resistência francesa, é forçado a fugir da França com a ascensão do nazismo e, em 1946, expõe na Galeria Prestes Maia, em São Paulo.

Dois anos depois, radica-se em São Paulo, onde fundou o Atelier Abstração, voltado justamente para o abstracionismo geométrico. Após a mencionada permanência em Paris onde manteve contato com os cubistas, ensinou, em seu atelier, desenho e pintura, formando alunos como Wega Néri (1912) e Yolanda Mohalyi, voltadas ao abstracionismo lírico, além de Jacques Douchez (1921), Norberto Nicola (1930), Leopoldo Raimo (1912) e Alberto Teixeira (1925).

            O Ateliê Abstração foi fundamental na divulgação da arte abstrata. Pioneiro do gênero no Brasil e na América do Sul, Flexor, motivado pelo crítico e diretor do MAM Leon Dégand, durante os anos 1950, caminhou para uma crescente complexidade quanto à ordenação geométrica, estruturando o espaço por meio de grafismos diagonais e curvas elípticas, sendo que, a partir de 1957, suas pinceladas se tornaram mais impulsivas rumo a um abstracionismo cada vez mais  lírico e gestual.

            Uma discípula estrangeira de grande repercussão foi a pintora e desenhista de origem húngara Yolanda Mohalyi (Kolozsvar, Transilvânia, 1909 – São Paulo, SP, 1978). Formada em Belas-Artes em Budapeste, radica-se em São Paulo em 1931. Inicialmente figurativa e expressionista, com forte influência de Segall, parte para a abstração nos anos 1950, graças ao contato com Flexor, utilizando manchas de grande vigor plástico, intensa luminosidade e fundos densos.

            Uma importante aluna de Mohalyi foi Gisela Eichbaum (Manheim, Alemanha, 1920 – São Paulo, SP, 1996). Desenhista, descende de uma família de músicos e vive em São Paulo desde 1935. Estudou também com Flexor e Karl Plattner, integrou o Atelier Abstração, além da Escola de Arte Moderna de Nova York, e recebeu o prêmio de Melhor Desenhista, em 1983, da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA).

            A pintora inglesa Sheila Branningan (1907-1992) também presta grande contribuição para a arte paulistana do final da década de 1950. Reside em São Paulo desde 1957 e traz para o Brasil ampla experiência, tendo morado em Paris e trabalhado nos ateliês do cubista Lhote, um do mestres de Tarsila do Amaral, e Goetz. Sua linguagem informal é diferenciada. Mescla o expressionismo com um particular lirismo, usando tonalidades claras, grandes manchas escuras, grafismos e brancos no fundo da tela.

            A década apresenta numerosos debates com a questão do que significa arte e o valor da chamada arte concreta. Em dezembro de 1956, realizou-se em São Paulo, no MAM, a I Exposição Nacional de Arte Concreta e, em 1959, mais um passo é dado em sincronia com as tendências européias, com a presença do Informalismo na V Bienal de São Paulo, tendência que estimula a corrente não-geométrica que, desde o final dos anos 1940, acompanhava a evolução da arte abstrata brasileira, na qual se destacam valores da colônia japonesa, como Manabu Mabe, Tikashi Fukushima, e Kazuo Wakabashi.

            O impacto das Bienais foi decisivo para a expansão da não-figuração na pintura. Inicialmente, pela presença de obras abstratas e geométricas e concretas e, na V Bienal, de 1959, com a manifestação do tachismo ou da pintura informal. A poética o subjetivismo da natureza e a visualidade cósmica orientais se expressam claramente na obra de Manabu Mabe, que sai das lavouras de café e mostra seu talento a partir de 1946, junto a Takaoka, Tamaki e Kaminagai.

            Nos anos 1960, quando a Pop Art norte-americana ganha força no mundo das artes, criadores como Antônio Dias, Antonio Henrique Amaral, Rubens Gerchsman e Waldemar Cordeiro a absorvem. Tomam temas e ícones da arte popular brasileira, da América Latina e do então chamado Terceiro Mundo  e aplicam tratamentos e técnicas vindas dos EUA.

            Defendem, portanto, uma arte de interação, que induza a participação do público. Existe entre esses jovens artistas a consciência da necessidade de agir de forma didática e de colocar a arte a serviço de mudanças na sociedade. Isso é feito, por exemplo, com happenings e outras manifestações que colocam problemáticas do cotidiano no centro da arte. É que fazem criadores como Waldemar Cordeiro, Geraldo de Barros e Maurício Nogueira Lima.

            Na década de 1970, a arte chamada conceitual repudia as linguagens tradicionais da pintura e da escultura. Ocorre a revitalização dos ready-mades e o uso artístico de novas tecnologias, como o off-set e o xerox, ambas de fácil reprodutibilidade. A arte postal, que permite amplo intercâmbio é uma forte tendência e essa movimentação resulta na Primeira Exposição Internacional da Arte Eônica ou da Arte com o Computador, organizada por Waldemar Cordeiro, em 1971, que já apontava para a presença de instalações, que ilustram o pensamento dos seus criadores, e para o êxodo de artistas brasileiros para a Europa e os EUA em busca de contato com novas tecnologias.

Nos anos 1980, o videotexto e a holografia são tendências fortes. Paralelamente, há uma retomada da pintura enquanto técnica tradicional, com artistas como Carlos Fajardo (1941), Wesley Duke Lee e Ivald Granato (1949), presentes na XVI Bienal de São Paulo, de 1981, e Luiz Áquila (1943) e Jorge Guinle Filho (1947), na Bienal seguinte.

            Ainda na Bienal de 1983, a vinda de grandes nomes da pintura da transvanguarda italiana, como Sandro Chia, e de neo-expressionistas alemães, como Markus Lüpertz e Anton Peck, influenciou artistas brasileiros como Manfredo de Souzaneto (1947), que realiza pesquisas com madeira, tirando da própria terra centenas de pigmentos-cor diferenciados, contrariando a lógica do construtivismo, que acreditava que isso seria possível apenas por meio da fria e racional técnica.

            Na Bienal de São Paulo de 1985, chegam à cidade tendências como a Transvanguarda, os Novos Selvagens, Pattern e New Image, que dialogam com o Grupo Paulista Casa 7, sediado em uma vila no bairro de Cerqueira César. Eram jovens, como Nuno Ramos (1960), Fábio Miguez, Carlito Carvalhosa, Rodrigo de Andrade e Paulo Monteiro (1961) que se reuniam, desde 1982, para discutir arte, pesquisar novas técnicas e materiais, sendo lançados pelo MAC três anos depois.

            Da vinda de Lasar Segall, com a introdução das artes ditas modernas no Brasil, ao Grupo Paulista Casa 7, o Brasil tem uma ampla tradição de dialogo com a Europa no século XX. Se o pintor nascido na Lituânia teve atuação importante nos primeiros anos do modernismo, trazendo o expressionismo ao país, os jovens artistas plásticos paulistas da década de 1980 não só absorvem as tendências internacionais como exportam a sua arte.

Enquanto Segall incorporou cores e temáticas brasileiras a sua obra, jovens artistas contemporâneos não só vem participando com freqüência de salões e bienais internacionais, principalmente na Europa e nos EUA, mas também praticam uma saudável antropofagia, deglutindo tendências internacionais e devolvendo-as, com sucesso, retrabalhadas, ao concorrido mercado da arte internacional.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA – Seção Brasil).

 

 

 



 

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