Arthur
Luiz Piza
Densos tramados
Um conjunto de fios
passados no sentido transversal de um tear constitui uma trama no
sentido mais literal. É exatamente esse o efeito conseguido pelo
artista plástico Arthur Luiz Piza com o uso de arame galvanizado e
zinco pintado com tinta acrílica. O resultado, apresentado no
Gabinete de Arte Raquel Arnaud, em São Paulo, de 10 de março a 20 de
abril, impressiona pelo efeito visual e pela riqueza de possibilidades
que gera.
Uma trama
é um enredo, uma intriga, uma tela de relações entre histórias e
pensamentos. O trabalho de Piza permite leituras e estimula a reflexão
pelo diálogo entre superfícies sobrepostas de arama, numa proliferação
de camadas que cria um apelo visual marcado pelo desejo do observador
de desvendar as velaturas visuais apresentadas.
Curiosamente,
as tramas do artista têm uma semelhança com a aquarela no sentido de
que exigem uma leitura próxima de desvendamento da técnica
utilizada. Se as transparências são o segredo da aquarela, a utilização
do arame e do zinco, em variadas cores e tonalidades, estabelece
estruturas que se integram para atingir um resultado somente possível
pela pesquisa com materiais e estruturas.
As tramas
criadas pelo artista são um procedimento repleto de ardis. Cada
deslocamento e maneira de colocar o material possui a capacidade de
iniciar um rico diálogo entre distintos componentes. O efeito agradável
aos olhos é adquirido com a enganosa simplicidade que acompanha
justamente os trabalhos artísticos mais consistentes.
Há ainda
na exposição uma série de desenhos com colagens sobre papel. Neles,
a interação entre o fundo e as estruturas geométricas aglutinadas
propicia os mais variados ajustes e estabelece contatos de formas,
contratos visuais e trocas poéticas. As formas de articulam para
proporcionar flexíveis padrões estéticos de significativo impacto
visual.
O principal mérito das tramas de Paz está justamente na
liberdade que convida a uma negação de toda rigidez. Os efeitos de
luz do trabalho geram não só riqueza cromática, mas um trabalho
volumétrico diferenciado, onipresentes nas obras de todas as proporções.
A discussão eu ele estabelece não passa pelo tamanho, mas pela
concepção de uma reflexão ilimitada sobre o espaço.
Existe nas
densas tramas do pensamento de Arthur Luiz Piza uma vitalidade
expressiva que impressiona desde o primeiro momento. As combinações
de cor e volume que utiliza não só evocam a potência artística das
tramas originais dos teares, mas colocam essa arte tradicional sob uma
nova perspectiva, a do arame e zinco pintados.
Surgem
assim possibilidades da chamada pós-modernidade, em seus melhores
momentos, como a obra de Piza, de reinventar o que se conhece e propor
a criação de novas instâncias plásticas, em que a sutileza e o
lirismo conseguem surgir a partir do uso dos metais e das cores,
comprovando que a habilidade na escolha e utilização dos materiais
ainda é o grande mérito dos artistas que ousam desafiar o tempo e a
chamada realidade em cada ato de criação.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra
a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio
Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do
pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial
do Estado de São Paulo).