por Oscar D'Ambrosio


 

 
 


Expressões da arte primitivista

 

Oscar D’Ambrosio*

 

Figuras desproporcionais, cores vibrantes e quentes, como vermelho, amarelo e laranja, freqüente ausência de profundidade e criatividade espontânea – ou seja, ausência da preocupação de seguir padrões – são as características mais marcantes dos artistas naïfs (“ingênuo”, em francês), mais conhecidos no Brasil como primitivistas, pintores e escultores não-intelectualizados que apresentam, em seus trabalhos, justamente aquilo que muitas vezes falta à chamada arte acadêmica: simplicidade e espontaneidade individual.

Em linhas gerais, pode-se considerar artista primitivista aquele que se caracteriza por ter a si mesmo como único padrão. Sem referências culturais que limitem a sua criatividade e sem dominar um conhecimento teórico e dogmático sobre a sua atividade, ele é um autodidata que produz as suas telas livremente.

Surgem assim artistas imersos em jornadas únicas. Cada um deles não continua uma tradição nem a rompe, pois simplesmente não estudou as vertentes anteriores, não se preocupando com as normas impostas pelas academias e críticos de arte. Seu objetivo é representar uma imagem ou pensamento sem levar em conta qualquer tipo de barreira conceitual ou técnica. O resultado, portanto, dependerá de sua sensibilidade, talento e capacidade de ser, acima de tudo, fiel a si mesmo.

Sem modelos pré-concebidos, os primitivistas (não confundir com os primitivos desenhos das cavernas da Pré-História) enfocam os temas mais variados, predominando cenas da vida cotidiana (rurais ou urbanas), geralmente com minuciosas descrições e precioso detalhismo.

O primeiro a receber a denominação de artista naïf foi o pintor francês Henri Rousseau, na segunda metade do século XIX. O autor do batismo foi o escritor Alfred Jarry, que se fascinou com a obra daquele alfandegário autodidata, capaz de criar imagens plenas de poesia como A cigana adormecida.

Rousseau (1844-1910), valorizado por intelectuais de vanguarda franceses, como o poeta Guillaume Apollinaire e os pintores Robert Delaunay e Pablo Picasso, influenciou os surrealistas. A partir dele, o termo naïf foi usado para designar justamente os artistas que não cursaram Escolas de Belas Artes e não se filiam a nenhum dos movimentos consagrados da história da arte, como impressionismo ou expressionismo.

A denominação foi consagrada pela crítica e naïfs podem ser encontrados em todo o mundo, principalmente em países do leste Europeu, como Iugoslávia, Hungria e Eslováquia, Haiti, França, EUA e Brasil. Esses artistas têm em comum, portanto, o autodidatismo, as técnicas adquiridas de modo empírico, a espontaneidade, a liberdade de expressão e a ausência de aspectos formais acadêmicos, como composição e perspectiva, além de desrespeito às cores reais.

No Brasil, os pintores primitivistas ganharam espaço a partir do final da década de 1930, com artistas como Heitor dos Prazeres, Cardosinho e Silvia. Fica logo evidente, ao ver os trabalhos desses pintores, que eles não tomam nada emprestado da inspiração vanguardista parisiense, mas refletem uma realidade nacional.

Extremamente rica, variada, autêntica e, geralmente, otimista e alegre, a arte primitivista reflete muitas vezes a estereotipada imagem nacional de um País tropical e generoso. Pela diversidade entre as regiões e os povos que compõem a cultura nacional, a arte primitivista brasileira ganha um panorama diversificado e se destaca no cenário mundial.

Uma referência obrigatória é Heitor dos Prazeres (1898-1966). Parceiro de Noel Rosa nos célebres versos, pela primeira vez ouvidos em 1936, “Um pierrô apaixonado,/que vivia só cantando,/ por causa de uma colombina,/acabou chorando, acabou chorando”, da célebre música Pierrô apaixonado, também foi um pintor inspirado.

Filho de pai marceneiro que tocava na banda da Polícia Militar, Heitor começou a trabalhar como polidor de móveis, estudou até a quarta série do primário e foi preso, por dois meses, aos 13 anos, por vadiagem. Trabalhou como funcionário público federal e tornou-se compositor popular de sambas, interpretados por mestres do gênero, como Francisco Alves.

Sem abandonar, porém, o samba, Heitor do Prazeres começou a pintar, como autodidata, em 1937, com o objetivo de “enfeitar as paredes”. Ganhou notoriedade ao participar da primeira Bienal Internacional de São Paulo, em 1951, sendo premiado por um júri que incluía o célebre crítico Herbert Read, um dos nomes mais respeitados da historiografia da arte mundial.

Participou ainda das Bienais paulistas de 1953 e 1961, além de realizar mostras coletivas em quase todas as capitais sul-americanas, Paris, Moscou, outras cidades européias e até no Senegal. Suas principais temáticas eram justamente cenas de morro, sambistas, pastoras e outras cenas tipicamente cariocas.

A principal característica pictórica de Heitor dos Prazeres é a capacidade de revelar minúcias e detalhes de uma realidade que ele retrata com perfeição por conhecer muito bem: o universo do samba. Três características logo se destacam nos mais variados trabalhos do pintor: a importância que dá á figura humana, os rostos colocados de perfil, como ocorre na arte egípcia, e a forte sugestão de movimento.

Quanto a esse terceiro fator, convém salientar que homens e mulheres são geralmente retratados quase na ponta dos pés, como se dançassem ou caminhassem com velocidade. Esse fator gera imagens de grande dinamismo, em que aparecem instrumentos musicais ou pessoas com corpos contorcidos em movimentos muitas vezes sensuais.

Cabe salientar que a arte de Heitor dos Prazeres não trata de preconceitos sociais ou raciais. Também evita trazer à tona fatos da realidade que indiquem sinais de tristeza. A atmosfera dos seus quadros é de júbilo. Grupos de pessoas participam de uma mesma atividade em combinações de movimentos harmônicos e coordenados, dignos de um músico com nome assegurado no cancioneiro popular, mas que também tem um papel muito importante na arte primitivista nacional.

Após 1951, outros artistas primitivistas, como Grauben, Elisa Martins da Silveira, José Antonio da Silva e Waldomiro de Deus estiveram presentes. No exterior, a pintora Iracema Arditi foi uma das maiores responsáveis pela divulgação da pintura primitivista, principalmente pelas várias exposições que organizou na França.

Um caso muito especial é José Bernardo Jr., o citado Cardosinho (1861-1947), que, admirado por Portinari e com uma obra no Museu de Arte Moderna de Nova York (Moma) e outra na Tate Gallery, de Londres, começou a pintar aos 70 anos, chegando a produzir cerca de 600 quadros, na maioria, fantasias beirando o surreal, e algumas imagens copiadas de cartões-postais, mas com um estilo pictórico bem pessoal.

Chico da Silva (1910-1985), descendente de índios, menção honrosa na Bienal de Veneza, em 1966; e Maria Auxiliadora (1933-1974), doméstica e passadeira descoberta pelo crítico alemão Ronald Werne na Praça da República; são outros nomes obrigatórios da arte primitivista nacional.

Lia Mittarakis (1934-1998), que ao ter um de seus quadros como capa da Revista Time dedicada à Eco-1992, conferência mundial do meio ambiente realizada no Rio de Janeiro, foi a primeira brasileira a ter uma obra reproduzida nessa publicação; Elza O. S., célebre por pintar jovens vestidas de noiva, sonho pessoal que nunca realizou; além de Rosina Becker do Valle Pereira (1914-2000), cuja inspiração residia no folclore brasileiro, são outros nomes de destaque no panorama primitivista nacional.

Antonio Poteiro, oleiro de profissão e ceramista de talento, merece especial destaque. Nascido em Santa Cristina, província de Braga, Portugal, em 1925 – e batizado Antonio Baptista de Souza –, veio com a família para o Brasil com um ano de idade, fixando-se primeiro em São Paulo e depois em Minas Gerais.

Em 1955, o artista passou a residir em Goiânia, dedicando-se à atividade de oleiro, herdada do pai. Devido aos potes que fazia, tornou-se conhecido como Antonio Poteiro, nome que adotou artisticamente. Logo trocou a cerâmica utilitária por potes de grandes dimensões que contavam trechos da Bíblia ou sonhos fantásticos, muitas vezes próximos do surrealismo.

Poteiro chegou às telas estimulado pelos pintores Siron Franco e Cleber Gouveia. Surgiu assim uma arte marcada pelo dinamismo. Suas telas, que geralmente enfocam cirandas, cavalhadas, cenas de carnaval, jogos de futebol, pessoas em volta de fogueiras ou reisados, caracterizam-se por uma movimentação intensa, num efeito obtido pela representação de aglomerações humanas e pelo uso de cores intensas, como amarelo e verde.

Os sonhos, passagens da Bíblia e histórias ouvidas ou vistas na rua são o ponto de partida da arte de Poteiro – que alguns críticos não consideram ser primitivista por estar pouco ligada à produção espontânea e revelar uma grande consciência do processo de criação como expressão de idéias. Sob diversos aspectos, de fato, sua arte é racionalmente elaborada, tanto em termos de forma como de conteúdo.

A criatividade do artista é visível no ritmo das linhas, ora circulares, ora horizontais, mas sempre na fronteira entre um comovente lirismo e um certo deboche da condição humana. Essa horizontalidade e circularidade são oriundas da atividade do artista enquanto oleiro. Suas imagens são, de fato, narrativas com desenhos repletos de marcas imprevisíveis dentro de uma ótica artesiana.

A dinâmica peculiar é harmonizada, no entanto, por uma concepção metafísica da arte que valoriza cada peça, seja um pote ou um quadro, como um instante demiúrgico. Figuras religiosas, lendas, imagens de folclore e mesmo certos momentos de maior misticismo telúrico revelam uma fabulação sempre rica e um potencial de criação e inovação praticamente sem limites.

A arte que surge é muitas vezes rude em seu acabamento, mas, ao mesmo tempo, de intensa delicadeza, pois o artista reverencia cada trabalho com suas poderosas mãos de mágico criador e ilusionista de materiais diversos, desde o barro às tintas, não escolhendo matéria-prima para expressar uma única visão de mundo, sem mestres ou seguidores – característica que o insere na vertente primitivista.

O maior nome da arte primitivista brasileira ainda é José Antônio da Silva (1909-1996), mestre em retratar trabalhadores agrícolas, carros de boi, festas, jogos e procissões. Nascido em Sales de Oliveira, próximo a São José do Rio Preto, SP, filho de trabalhadores rurais, ele freqüentou a escola por poucos meses e ganhou a vida como lavrador durante muitos anos em diversas fazendas paulistas, exercendo ainda outras atividades, como benzedor, folião de reis e fiscal de eleições.

Nos anos 1930, já pintava em tábuas de caixão com tinta de madeira, principalmente cenas sacras. Na década seguinte, abandonou o campo e se mudou para a região urbana de São José do Rio Preto, SP. Em 1946, expôs seus primeiros quadros num salão de arte da Casa da Cultura local.

O crítico Paulo Mendes de Almeida, que integrava o júri da exposição, foi enfático em reconhecer o talento do novo artista, e Silva foi anunciado vencedor. Quando o artista se apresentou, porém, como seu jeito matuto, foi recolocado em quarto lugar, com uma pintura chamada de “caipira” por levar para as telas a sua vivência no campo.

Silva participou da primeira Bienal Internacional de São Paulo, em 1951, e de várias outras, tendo inclusive recebido o Prêmio de Aquisição, sob os auspícios do Museu de Arte Moderna de Nova York. Em 1966, recebeu inclusive uma sala especial na XXVII Bienal de Veneza, sendo aclamado pela sua espontaneidade e pelo seu talento em retratar a vida do interior paulista.

Ao longo de seu percurso, seja nas imagens pintadas sobre flanela, em suas produções sobre tela, naquelas marcadas por um pontilhismo peculiar e pelos últimos trabalhos, definidos por uma distinção maior entre figura e fundo, Silva gravou um LP de músicas de sua autoria e escreveu três romances – em que mistura fatos biográficos com episódios imaginários; um deles, Maria Clara, prefaciado pelo crítico literário Antonio Candido – todos ilustrados por ele, além de fundar, em São José do Rio Preto, o Museu de Arte Contemporânea.

Pintor, desenhista, escritor e cantor do rico repertório folclórico do interior paulista, Silva, ex-lavrador e semi-analfabeto tornou-se, com seus registros sobre a vida rural brasileira, o paradigma dos artistas primitivistas nacionais. Além do seu talento nato, algumas atitudes colaboraram para isso. Em 1970, por exemplo, ao julgar baixa uma proposta de aquisição de alguns de seus quadros por uma galeria do Rio de Janeiro, destruiu mais de 250 telas com uma faca. Três anos depois, comprou os quadros de sua mulher, a estreante Dona Rosinha, e os rasgou, apoiado em sua declaração (“Nesta casa basta um artista”).

Magoado por ter sido excluído da IV Bienal de São Paulo, em 1957, sob alegação de que usava pontilhismo, requinte técnico considerado proibido aos primitivistas, Silva pintou Enforcamento. A tela, recriada dez anos depois, mostra a comissão de cinco críticos que o rejeitou pendurada em um patíbulo e, na parte inferior, as almas deles, com cabeças de burro, ardendo no inferno. A imagem é violenta e precisa em sua contestação do status quo do mundo das artes.

Pintado em 1971, Cristo da Maceno comprova o talento de Silva. O quadro surgiu a partir de um fato real. A água acumulada pelas chuvas passou a pingar dos braços de uma imagem de Cristo de 8 m de altura na Vila Maceno, em São José do Rio Preto, ganhando a fama de milagrosa e atraindo centenas de fiéis.

Silva não revela compaixão pela crendice popular ao compor seu quadro. Utiliza arbitrariamente as cores (o Cristo é pintado de vermelho, por exemplo) e retrata os cidadãos que se abrigam sob os braços da imagem com tarjas negras nos rostos, símbolo de uma fé cega. O vendedor de pipocas é a exceção, pois vê naquele momento de fé desmedida uma ocasião para ganhar muito dinheiro rapidamente.

O labor na lavoura, o lazer no interior (violeiros, futebol no arraial), a religião (figuras de santos e procissões) e costumes do interior (festas populares e familiares) são os principais temas de Silva. Foram desenvolvidos em quatro fases: telas de colorido escuro (1946/48), de matizes mais claros (1948/55), de ampla luminosidade (1955/68) e, finalmente, um período híbrido (a partir de 1968).

O primitivismo clássico, o impressionismo e surrealismo se confundem nos quadros de Silva. Estilisticamente, o pontilhismo também comparece e frases escritas nas telas ou mesmo a própria assinatura do pintor auxiliam a atingir o equilíbrio em diversas composições.

Um pintor primitivista em constante transformação é o baiano Waldomiro de Deus. Nascido em Itajibá, BA, em 1944, vai, ainda menino, num pau-de-arara, para São Paulo. Trabalhando como jardineiro na casa de um imigrante italiano, realizou as suas primeiras obras, guaches sobre cartolina.

Passou então a pintar à noite e a dormir de dia. Demitido, levou seus desenhos para o Viaduto do Chá, sendo descoberto pelo compositor Teodoro Nogueira. A partir daí, a carreira de Waldomiro, incentivada pelo crítico de arte Mário Schemberg, começou a crescer, incluindo a participação, em 1967, na IX Bienal de São Paulo.

Nesse período, o artista torna-se pinbahippie e freqüenta a movimentada rua Augusta dos anos 60, viajando em seguida à Europa, onde realiza exposições coletivas e individuais na França e Itália, além de Israel, país no qual tem uma experiência mística que o leva a acreditar em Deus.

Atualmente, divide o seu tempo entre as suas casas em Goiânia, GO, onde se tornou líder religioso, e em Osasco, SP, onde habitou, por muitos anos, numa residência em que usava um caixão para dormir. Nos dois locais, produz obras que são adquiridas por colecionadores de todo o mundo e que também podem ser vistas na Pinacoteca do Estado de São Paulo e no Museu de Arte Contemporânea da USP.

Folclore, crítica social, religião, peixes, preocupação com a política e personagens muitas vezes com os pés fora do chão, são alguns de seus temas preferidos, retratados com cores fortes e ausência de perspectiva que cria a impressão de que as suas figuras pairam, geralmente sem proporção dentro de uma lógica cartesiana, mas em disposições que encantam desde o primeiro quadro.

As cores, seus temas, simbologia, personalidade e religiosidade se entrelaçam e se confundem. Ele tem no cotidiano, como em notícias que vê pela televisão, sua grande matéria-prima, mas também pinta o que não vê, como planetas ainda não conhecidos pela ciência ou astronautas brasileiros na lua, como fez no final dos anos 1960.

O artista começou retratando o folclore e passou por foguetes, críticas sociais, planetas, peixes e flores. Há também imagens sensuais e erotismo, assim como cenas de pureza e encantamento de namorados. Tudo é motivo para exibir uma técnica que aprendeu sozinho, sem nunca ter pisado numa escola de qualquer espécie.

Waldomiro ganhou repercussão nacional ao pintar uma Nossa Senhora vestindo minissaia. Isso fez com que fosse perseguido pelas alas mais radicais da Igreja Católica no final dos anos 1960. No final do século XX, realizou diversas telas em que simbolizava a travessia do milênio, pintando sempre corpos e rostos morenos rumo a um utópico Brasil socialmente harmônico que anuncia para 2050.

Uma tela que ilustra bem o universo pictórico de Waldomiro de Deus é Descobrimento do Brasil, pintado em 1977 e pertencente ao acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Fica evidente nesse trabalho a sua predileção por pintar corpos morenos, mesmo que sejam o dos s portugueses chegando ao Brasil.

A tela mostra ainda a presença de numerosos pássaros tropicais, intensamente coloridos, que seriam, posteriormente, enfocados em numerosos quadros separadamente. O que gera maior impacto, no entanto, é a pouca importância dada aos descobridores lusos. Eles aparecem apenas na parte superior direita do quadro, em menos de 75% da tela.

A paixão pela natureza, a preocupação em mostrar como era a vida dos índios que habitavam o Brasil em 1500 são observados numa composição idílica, em que os índios aparecem livremente ocupando todo o quadro. Ao contrário da maioria das telas que tratam do tema – que costuma exaltar a épica chegada dos colonizadores – Waldomiro de Deus mostra os habitantes locais numa vida de aparente harmonia, praticamente ignorando a chegada dos portugueses em suas embarcações.

As cores vivas e a imaginação fértil, expressas na tela com uma técnica aparentemente rudimentar, apontam para os elos entre a arte primitivista e o inconsciente coletivo. Mesmo assim, quando os artistas primitivistas alcançam reconhecimento, como Silva, Poteiro ou Waldomiro de Deus, há uma natural renovação e certa influência da arte erudita. Sabedoria e sonho se misturam em obras difíceis de definir sob uma única denominação artística ou estilística.

A constante preocupação estética do artista primitivista é o seu grande diferencial. Regido pelo seu gosto individual, dá vazão ao seu mundo interior. Quanto mais pratica, seu estilo pessoal e visionário, desde que não perca a originalidade, tende a apresentar um resultado estético mais depurado.

Autodidata, o artista primitivista encontra a sua expressão estética na forma como o seu interior se liberta de quaisquer tipo de amarras à arte acadêmica, seja nos sambistas de Heitor dos Prazeres, nas alegóricas figuras populares de Antonio Poteiro, nas cenas rurais de José Antônio da Silva ou nas imagens oníricas de Waldomiro de Deus. Em todos esses casos, predomina um lírico individualismo não-domesticado, característica principal dos artistas primitivistas de qualidade.

 

BIBLIOGRAFIA

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ARDIES, J. A arte naïf no Brasil. Textos de Geraldo Edson de Andrade. São Paulo: Empresa das Artes, 1998.

D’AMBROSIO, O. Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus. São Paulo: Editora Unesp, 1999.

KLINTOWITZ, J. Arte ingênua brasileira. São Paulo: Banco Cidade, 1985.

MIMESSI, J. N. Pintura primitiva (naïve): resultados de uma pesquisa. Assis: Edição do Autor, 1991.

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RODMAN, S. Genius in the Backlands: Popular Artists of Brazil. Old Greenwich: Devin- Adair, 1977.

SANT’ANNA, R. Silva: quadros e livros: um artista caipira. São Paulo: Editora da UNESP, 1993.

SCHENBERG, M. Pensamento em arte. São Paulo, Nova Stella, 1988.

* Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).

 

 

 

 

 

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