Arte
como investimento
Qualquer forma de arte digna
desse nome trata-se de uma atividade
eminentemente cultural em que o ser humano expressa a sua
relação com o universo, seja por meio de figuras, formas,
palavras, sons, gestos e outros signos criados e estruturados de
modo a produzir beleza, prazer ou qualquer outro tipo de emoção
oriunda de um impacto estético.
Na
avaliação de uma obra de arte, dois elementos são essenciais e
complementares. Existe o componente técnico, que abrange o
relacionamento do artista com os seus meios (a tela, os pincéis e
a tinta, no caso da pintura), e o simbólico, voltado para a trama
complexa de relações entre a arte, o sujeito e a sociedade.
Conceber
a arte como investimento significaria, em termos puramente econômicos,
realizar uma aplicação de recursos em empreendimentos ou
produtos que renderão lucro. Quando se pensa em arte, porém,
essa frieza de dados numéricos precisa ser vista sob nova
perspectiva.
A arte
também é investimento no sentido de obter um prazer estético
renovado a cada observação atenta do trabalho que se possui.
Quando se pensa em investir em arte, não se trata apenas de ter
um quadro ou escultura em casa e verificar como o trabalho
valoriza no mercado ao longo do tempo, mas de atestar
quanto e como a posse de um trabalho plástico dignifica o seu
possuidor.
Ingressar
no mercado de arte levando em conta apenas a lógica quantitativa
e numérica redundará em fracasso. Embora as informações sobre
valores sejam fundamentais, não podem substituir a relação
afetiva entre o comprador e a pintura. Eles precisam dialogar numa
esfera que vá além do dinheiro e que passe pela da
sensibilidade, do gosto e da afetividade.
Assim,
barato e caro perdem o sentido, sendo apenas duas facetas de um
universo que conjuga o que o mercado dita com aquilo que o coração
sente. Nessa balança entre a frieza numérica e a emotividade
humana, apenas há um grande vencedor: aquele que se deleita em
ter uma obra de arte que julga significativa, considerando-a (por
que não?) um investimento, mas também um motivo de prazer estético.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo
Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov
(Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor
naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do
Estado de São Paulo).