Arte
em pesquisa
O texto “Pesquisa
de história da arte na cibercultura”, de Daisy Piccinini,
é um importante ponto de partida para refletir sobre “a articulação
dialética entre o pesquisador e o objeto a ser pesquisado” (página
76).
Afinal, sempre existe o risco de o pesquisador se deixar envolver em
demasia pela subjetividade e prejudicar seu desempenho profissional.
As questões levantadas pelo texto me levam a refletir sobre a
função e a prática do crítico de arte não só por ser uma reflexão
sobre o seu cotidiano profissional, mas por obrigar a repensar os
limites entre as atividades do artista e do pesquisador de arte, sem
excluir, é claro, aqueles que somam as duas atividades.
Se, por um
lado, a produção artística em si mesma não é uma ciência, a análise
da obra artística pode ser considerada como tal, pois tem um certo método.
Ao se falar em ciência, porém, não se pode pensar em algo único. Há,
no mínimo, três vertentes: a empírico-analítica, a histórico-hermenêutica
e a dialética. Vejamos o que elas significam e como se relacionam com
o trabalho do crítico de arte.
O sociólogo
Auguste Comte, por exemplo, numa ótica evolucionista, vê a ciência
como um estágio avançado do ser humano, após este ter passado pelos
estágios mitológico e teológico. O seu conceito positivista, de que
a ciência trabalha com verdades absolutas, no entanto, teve um sério
abalo no século XX, com a teoria da relatividade e a física quântica,
que mostraram como as chamadas ciências exatas não são tão exatas
assim. Pode-se exemplificar com o princípio da incerteza de
Heisemberg, que mostrou a impossibilidade de determinar a localização
exata de uma partícula subatômica.
Se na análise
empírico-analítica positivista, o foco da análise da ciência é o
objeto analisado, com uma busca absoluta da objetividade, como ocorre
nas ciências naturais, principalmente em pesquisas em laboratório;
na análise histórico-hermenêutica, o sujeito, ou seja, o cientista
ganha o primeiro plano, sendo aquele que busca compreender, a sua
maneira, o objeto analisado.
Os dois
caminhos levam a exageros. No primeiro caso, alguns tendem a achar que
o objeto analisado, em si mesmo, explica tudo; no segundo, ocorre o
oposto, ou seja, relativiza-se qualquer tentativa ou concretização
de estudo ou de compreensão de significados.
Desses
dois enfoques, surge um terceiro, de grande valia, o dialético, que
acredita na interação entre sujeito e objeto como caminho para a análise
de alguma realidade, seja ela social, econômica ou artística. Da
influência mútua entre o objeto pesquisado e quem o analisa surge a
possibilidade de uma profícua crítica de arte.
Ao se
estudar o papel do crítico de arte, portanto, são possíveis essas
três dimensões. Há aquele que analisa fria e tecnicamente a obra de
arte, utilizando critérios técnicos como se estivesse diante de uma
planta ou animal a ser dissecado. Há ainda aquele que adora critérios
meramente subjetivos, deixando de lado qualquer abordagem lógico-científica;
e, finalmente, existe a possibilidade de aliar a observação empírico-analítica
ao conhecimento histórico-hermenêutico, encontrando as contradições
essenciais e secundárias presentes na obra de arte.
Essas
contradições geralmente estão ligadas ao conflito maior de um
artista: a distância entre o que ele vê no mundo e o que ele
gostaria de ver. Dessa diferença, surge a arte. Cabe ao crítico
identificar o conflito em suas mais variadas formas e verificar como
ele se expressa plasticamente, seja por meio de formas, linhas, cores
ou outros recursos plásticos.
Acima de
tudo, o crítico, ao se debruçar sobre um objeto artístico, nessa
proposta dialética, deve estar apto a gerar um novo conhecimento, ou
seja, criticar o que foi feito e o que já se falou sobre o objeto estético
em questão, trazendo a sua contribuição para a reflexão. Quando
isso ocorre, o crítico cumpre de fato o seu papel perante a
sociedade.
É na ponte entre a objetividade e o subjetivismo, entre o documental
e o relativo, e entre o realismo e o idealismo, que Piccinini vê a
pesquisa em arte, no século XXI como um elo entre a diacronia e a
sincronia. Haveria nela a descrição do objeto analisado e a
interpretação daquilo que se vê.
Montar
conceitos, desmontá-los e remontá-los constitui um exercício
constante de verificação de como o todo está contido nas partes,
ainda mais numa sociedade globalizada em que o tempo se acelera cada
vez mais, cabendo ao pesquisador desenvolver a capacidade de religar
conhecimentos em sucessivos processos de observar o que vê e chegar a
conclusões sempre prontas a serem questionadas.
Notar os
detalhes como possibilidades de desenvolver um raciocínio marcado
pela transdisciplinaridade, em que “o saber, a sensibilidade e a
educação” (página 81) se articulem constitui um desafio, que se
multiplica perante a necessidade de entender melhor como as novas
tecnologias podem agir sobre a informação e, especificamente, sobre
a arte.
Nesse
contexto, o esforço realizado pelo Museu de Arte Contemporânea da
USP para manter o seu acervo acessível via Internet espelha os passos
da pesquisa e da crítica de arte contemporânea, numa busca de dar
cada vez mais acesso e visibilidade às coleções públicas
nacionais.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP,
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA – Seção
Brasil)