por Oscar D'Ambrosio


 

 


Arte em pesquisa

 

            O texto “Pesquisa de história da arte na cibercultura”, de Daisy Piccinini[1], é um importante ponto de partida para refletir sobre “a articulação dialética entre o pesquisador e o objeto a ser pesquisado” (página 76)[2]. Afinal, sempre existe o risco de o pesquisador se deixar envolver em demasia pela subjetividade e prejudicar seu desempenho profissional.

            As questões levantadas pelo texto me levam a refletir sobre a função e a prática do crítico de arte não só por ser uma reflexão sobre o seu cotidiano profissional, mas por obrigar a repensar os limites entre as atividades do artista e do pesquisador de arte, sem excluir, é claro, aqueles que somam as duas atividades.

            Se, por um lado, a produção artística em si mesma não é uma ciência, a análise da obra artística pode ser considerada como tal, pois tem um certo método. Ao se falar em ciência, porém, não se pode pensar em algo único. Há, no mínimo, três vertentes: a empírico-analítica, a histórico-hermenêutica e a dialética. Vejamos o que elas significam e como se relacionam com o trabalho do crítico de arte.

            O sociólogo Auguste Comte, por exemplo, numa ótica evolucionista, vê a ciência como um estágio avançado do ser humano, após este ter passado pelos estágios mitológico e teológico. O seu conceito positivista, de que a ciência trabalha com verdades absolutas, no entanto, teve um sério abalo no século XX, com a teoria da relatividade e a física quântica, que mostraram como as chamadas ciências exatas não são tão exatas assim. Pode-se exemplificar com o princípio da incerteza de Heisemberg, que mostrou a impossibilidade de determinar a localização exata de uma partícula subatômica.

            Se na análise empírico-analítica positivista, o foco da análise da ciência é o objeto analisado, com uma busca absoluta da objetividade, como ocorre nas ciências naturais, principalmente em pesquisas em laboratório; na análise histórico-hermenêutica, o sujeito, ou seja, o cientista ganha o primeiro plano, sendo aquele que busca compreender, a sua maneira, o objeto analisado.

            Os dois caminhos levam a exageros. No primeiro caso, alguns tendem a achar que o objeto analisado, em si mesmo, explica tudo; no segundo, ocorre o oposto, ou seja, relativiza-se qualquer tentativa ou concretização de estudo ou de compreensão de significados.

            Desses dois enfoques, surge um terceiro, de grande valia, o dialético, que acredita na interação entre sujeito e objeto como caminho para a análise de alguma realidade, seja ela social, econômica ou artística. Da influência mútua entre o objeto pesquisado e quem o analisa surge a possibilidade de uma profícua crítica de arte.

            Ao se estudar o papel do crítico de arte, portanto, são possíveis essas três dimensões. Há aquele que analisa fria e tecnicamente a obra de arte, utilizando critérios técnicos como se estivesse diante de uma planta ou animal a ser dissecado. Há ainda aquele que adora critérios meramente subjetivos, deixando de lado qualquer abordagem lógico-científica; e, finalmente, existe a possibilidade de aliar a observação empírico-analítica ao conhecimento histórico-hermenêutico, encontrando as contradições essenciais e secundárias presentes na obra de arte.

            Essas contradições geralmente estão ligadas ao conflito maior de um artista: a distância entre o que ele vê no mundo e o que ele gostaria de ver. Dessa diferença, surge a arte. Cabe ao crítico identificar o conflito em suas mais variadas formas e verificar como ele se expressa plasticamente, seja por meio de formas, linhas, cores ou outros recursos plásticos.

            Acima de tudo, o crítico, ao se debruçar sobre um objeto artístico, nessa proposta dialética, deve estar apto a gerar um novo conhecimento, ou seja, criticar o que foi feito e o que já se falou sobre o objeto estético em questão, trazendo a sua contribuição para a reflexão. Quando isso ocorre, o crítico cumpre de fato o seu papel perante a sociedade.

              É na ponte entre a objetividade e o subjetivismo, entre o documental e o relativo, e entre o realismo e o idealismo, que Piccinini vê a pesquisa em arte, no século XXI como um elo entre a diacronia e a sincronia. Haveria nela a descrição do objeto analisado e a interpretação daquilo que se vê.

            Montar conceitos, desmontá-los e remontá-los constitui um exercício constante de verificação de como o todo está contido nas partes, ainda mais numa sociedade globalizada em que o tempo se acelera cada vez mais, cabendo ao pesquisador desenvolver a capacidade de religar conhecimentos em sucessivos processos de observar o que vê e chegar a conclusões sempre prontas a serem questionadas.

            Notar os detalhes como possibilidades de desenvolver um raciocínio marcado pela transdisciplinaridade, em que “o saber, a sensibilidade e a educação” (página 81) se articulem constitui um desafio, que se multiplica perante a necessidade de entender melhor como as novas tecnologias podem agir sobre a informação e, especificamente, sobre a arte.

            Nesse contexto, o esforço realizado pelo Museu de Arte Contemporânea da USP para manter o seu acervo acessível via Internet espelha os passos da pesquisa e da crítica de arte contemporânea, numa busca de dar cada vez mais acesso e visibilidade às coleções públicas nacionais.

 

                [1] Daisy Piccinini. In: Arte em pesquisa: especificidades: curadoria; história, teoria e crítica da arte; questões do corpo e da cena; restauro e conservação de materiais. Maria Beatriz de Medeiros (organização). Volume 1. Brasília, ANPAP, Pós-graduação em Arte, Universidade de Brasília, 2004. páginas 76 a 83.

2 Todas as referências entre parênteses são do texto citado na nota anterior

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA – Seção Brasil)

 
 



 

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