por Oscar D'Ambrosio


 

 


Arquitetura e arte

 

“A arquitetura hoje não é, como se pensava tradicionalmente, para proteger das intempéries, mas sim para proteger uns dos outros”. Essa afirmação polêmica do arquiteto israelense Eyal Wiezman é um excelente caminho para acompanhar as discussões que ocorreram durante “Arquitetura”, Seminário realizado de 31 de março a 1° de abril de 2006 dentro da programação que antecede a 27ª Bienal de São Paulo.

Com organização e mediação do co-curador do evento, escritor e editor Adriano Pedrosa, seis palestrantes discutiram os elos entre arquitetura e arte dentro do tema da Bienal “Como viver junto”, que engloba, como apontou a curadora geral Lisette Lagnado, discussões sobre comportamento e qualidade de vida do homem em relação ao meio em que vive.

Curadora de arte contemporânea no Tate Modern, a inglesa Jessica Morgan apontou como diversos artistas retomam a arquitetura das cidades de modo a realizar uma espécie de revisão daquilo que encontram na esfera urbana, tratando o ambiente citadino como ruína histórica, projeção do que possa vir a ser encontrado no futuro ou restos de uma civilização a ser melhor entendida e compreendida posteriormente.

O diálogo entre escultura, arquitetura e instalação foi visto como de grande contemporaneidade. Wiezman leva esse raciocínio às últimas conseqüências ao analisar a guerra nas cidades, como ocorre na Palestina,   como uma forma de expressão da conversa entre a arquitetura e a política.

Ele mostrou como, na Batalha de Nablos, em 2002, soldados israelenses atravessavam as paredes das casas para vencer as linhas inimigas, sem sair para o confronto nas ruas. Perfurando as casas dos moradores civis, os soldados não eram detectados. O militar ignora o que já existe em nome de seu objetivo, geralmente assassinar um inimigo num local pré-determinado.

O objetivo não é conquistar espaços, mas matar pessoas em endereços certos. Esse conceito de “morte encomendada” só se torna possível com o estudo de arquitetura. As unidades israelenses se tornaram intelectualizadas para entender o funcionamento de uma cidade e para desenvolver mecanismos muito eficientes de comunicação.

Esses soldados filósofos, que lêem muito mais do que a média da população, tornaram-se quase lendas urbanas. Seu universo não é o das portas e janelas, mas o dos buracos nas paredes. Eles estabelecem praticamente uma nova linguagem, na qual incluem a filosofia ao estéril universo militar. O paradoxo é essa bagagem intelectual promove operações puramente agressivas, em que a política não se insere.

A destruição de pessoas e de cidades, invadindo casas, que se tornam locais de passagem de soldados, gera uma relação das mais curiosas, pois os militares passam a agir como guerrilheiros, numa inversão de papéis. Para tornar ainda mais fascinante esse processo, os buracos deixados pela passagem dos soldados cria praticamente uma cidade paralela à existente antes da ação dos militares israelenses.

Beatriz Colomina, professora de arquitetura da Universidade de Princeton, onde foi diretora-fundadora do Programa de Mídia e Modernidade, por sua vez, enfocou a obra do norte-americano Dan Graham, que estará representado na 27ª Bienal de São Paulo. Lembrou, por exemplo, do projeto-maquete Alteration to a Suburban House, de 1978, um questionamento da arquitetura dos subúrbios dos EUA do pós-guerra, onde a instalação de janelas panorâmicas revela que o que antes era privado se torna vitrine do “sonho americano”. Colomina apontou a lucidez crítica e criativa de Graham, que atenta, na arquitetura dos EUA, para a mitificação das conquistas formalistas e tecnológicas baseadas na arquitetura racionalista moderna.

            A artista brasileira Ana Maria Tavares, por sua vez, refletiu sobre a sua obra desde o final dos anos 1990. Ela trabalhou com artefatos tecnológicos, a arquitetura de grandes centros urbanos, como superfícies e solos espelhados, catracas de metrô, escadas, bancos e música ambiente de aeroportos, um não-lugar por excelência.

A preocupação da artista é verificar a experiência do sujeito nesses projetos modernos. Enxerga os “corpos anestesiados” perante diversas experiências de deslocamento. A alternativa de suspender “para ver melhor” significaria justamente uma forma de restabelecer olhares mais conscientes e, portanto, menos ingênuos do mundo.

O arquiteto Guilherme Wisnik apontou que, assim como Ana Maria Tavares, Matta Clark (1943-1978, filho do artista chileno Roberto Matta, é referencia do surrealismo na América Latina) e Rem Koolhas, nas décadas de 1960 e 1970, foram artistas que releram criticamente a arquitetura.

Esses desencontros são vistos por Wisnik como “possíveis positivos”. Enquanto a arte européia tem nos encontros entre diversas artes paradigmas  de criação vistos como modelares, como é o caso de Michelangelo, hommo universalis, e o compositor Richard Wagner, com sua obra de arte total, o outro lado da moeda está nos citados Matta Clark e Koolhas.

Esses artistas, entre outros, para Wisnik, denunciam o retórico discurso arquitetônico que apresenta lógicas de pesos e equilíbrios dentro de uma “ordem construída”, cristalizada em percepções. Matta Clark, por exemplo, realiza projetos estudados que recuperam o conceito de “corte” das plantas dos edifícios em esboços prévios.

Depois, com uma serra elétrica, intervém no objeto construído com cortes verticais, em espiral ou circulares em telhados e muros dos edifícios, abrindo a própria massa de concreto. As fotografias que documentam essas experiências revelam espaços em demolição e perspectivas desconcertantes de cortes em forma de cone que atravessam distintos andares. Essa atitude lança um olhar irônico sobre a arquitetura e propicia ao fruidor novas maneiras de ver e pensar o espaço e a matéria.

Arquiteta e artista eslovena, Marjetica Potrc, estabelece um discurso semelhante sobre a transição urbana e arquitetônica dos países da ex-Iugoslávia. Nesse sentido, realizou pesquisas e projetos em Istambul, Caracas e, atualmente, no Estado do Acre (Brasil), buscando alternativas, a partir da arte, para apresentar soluções a problemas pós-modernos como superpopulação, formação de ilhas marginais sem acesso a serviços básicos e ausência de planificação social por parte de Estados com poder fragmentado.

Assim, o modernismo viveria um colapso em cidades paralelas e improvisadas em seu crescimento e celebração do indivíduo, com superposição de estéticas estabelecidas em função das necessidades e prioridades de cada cidadão. Ao analisar as estratégias originais de sobrevivência e habitação de cada local, Marjetica destaca as contradições das formulações ideais da arquitetura funcionalista moderna.

Artistas e arquitetos se encontram na prática e reflexão de tópicos como criatividade, utopia, história e negociações político-econômicas. Nesse aspecto, o Seminário permitiu refletir sobre as estratégias contemporâneas dos artistas que, ao lidar com a arquitetura, assumem diferentes papéis no cenário atual. Eles podem ser teóricos, ensaístas ou projetistas de pequenas reformas que, se introduzidas na prática ou pensadas, com maior ou menor senso prático, podem ser esperançosas alternativas para o grande tema da Bienal: “Como viver juntos”.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

            Mariana Serbent, aluna de licenciatura e bacharelado em História das Artes Visuais na Universidade Nacional de Cuyo (Mendoza, Argentina), é bolsista do Programa de Iniciação Científica da Faculdade de Artes e Design da UNCuyo e estagiária do Museu Universitário de Arte (UNCuyo). Atualmente, é aluna de intercâmbio no Instituto de Artes da Unesp, campus de São Paulo.

 
 

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