A. Rosalino
A retomada de tradições
Folclore é uma
palavra muito usada, mas pouco conhecida em seu mais profundo
sentido, que engloba um saber autêntico expresso em festas,
mitos, lendas, crendices, costumes, danças, superstições e
diversas manifestações artísticas populares, como a pintura
primitivista, gênero do qual A. Rosalino é um significativo
expoente.
Os quadros do
artista têm como principal tema a vida cotidiana do interior
do Brasil,
o folclore e tradições
populares, que incluem variadas festas e folguedos. O projeto artístico
do pintor é justamente registrar essas imagens como uma espécie
de diário vivo de uma cultura ameaçada de extinção pela
televisão, pela modernidade e pelo mundo cada vez mais
globalizado.
Nascido em Belo
Horizonte, em 12 de março de 1972, Alexandre Rosalino Silva,
que assina suas telas
como A. Rosalino, mudou-se, ainda menino, com a família, para São
Roque, SP, cidade em que ele morou, estudou e conheceu o modo de
vida de imigrantes italianos e japoneses. Esse diálogo com o
passado teria estimulado o seu interesse pela busca das tradições
de sua família, que mescla elementos urbanos e rurais.
A grande fonte inicial
do artista foi o pai. Os primeiros desenhos de Rosalino buscaram
justamente colocar no papel as histórias que ouvia dele sobre os
antepassados da família, como a participação na tradicional
festa do congado. A idéia inicial do pintor de transmitir esse
legado aos filhos se ampliou, levando à criação de uma obra artística
hoje reconhecida por críticos como como Lélia Coelho Frota,
Mari’Stela Tristão e Morgam da Motta.
Basicamente um
autodidata, Rosalino realizou alguns cursos na Escola Livre de
Artes da Casa do Artista e do Artesão em São Roque, SP, com
professores como a também autodidata Anésia; Gertrudes, graduada
pela Faculdade de Belas Artes da USP; e José Luís Torres,
pintor, desenhista e artista plástico. Amadurece assim o projeto
artístico de mostrar as tradições dos avôs para que elas sejam
conhecidas pelas novas gerações.
Em 1992, Rosalino
retorna a Belo Horizonte para cuidar do pai, que sofria de uma
doença terminal, e fica mais próximo de um de seus primeiros
incentivadores, o primo, amigo e pintor Lindorico. Essa mescla de
influência se amplia com uma viagem realizada à Bahia, momento
em que fica fascinado pelo Pelourinho e sente o desejo irrefreável
de levar aquelas cores e pessoas para as telas.
O cotidiano do
interior mineiro é a grande fonte de informações de A.
Rosalino. Núbia Magalhães e Edmílson Pereira, pesquisadores da
área de cultura popular da Universidade Federal de Juiz de Fora,
MG, logo reconheceram esse talento de tomar cenas vinculadas à
tradição e transformá-las em imagens poéticas.
A primeira coletiva
ocorreu na Casa do Artista e do Artesão, em São Roque, SP, em
1989; e primeira individual, na Galeria da Caixa Econômica
Federal de Belo Horizonte, em 1996. Hoje seus trabalhos podem ser
encontrados com colecionadores da Grécia, Alemanha, Argentina,
Inglaterra, França, EUA, Itália e Espanha, e em três
importantes museus do Rio de Janeiro, o Museu Internacional de
Arte Naïf, o Museu Nacional de Belas Artes e o da Funarte.
Ao contrário de
alguns artistas primitivistas, que se isolam em seu mundo
criativo, A. Rosalino está sempre em busca de novos desafios.
Desenhista publicitário, formado em joalheria e web designer,
estuda idiomas e busca conhecer obras de outros artistas, num
constante processo de reflexão sobre o papel da arte e sobre a
capacidade de seu trabalho colaborar para a preservação da memória
popular.
Cenas de celebração
religiosa, lazer e trabalho são os principais temas do artista,
que mergulha no passado do interior mineiro, retirando dele cenas
de ritos afro-brasileiros ou católicos, além de imagens de
feiras populares. O resultado do conjunto da obra é justamente um
recorte pictórico de temática bem brasileira.
Em suas viagens
pelo sertão nordestino e pelo interior da Bahia e norte de
Minas
Gerais, A. Rosalino
aprendeu a conhecer a alma de um povo. Quadros como Arraiá do Piá
ou Arraiá de Belo Horizonte ilustram justamente a forma como o
artista enxerga as festas populares. Cores e alegria brotam
espontaneamente, mostrando que aquilo que há de mais rico num
povo é a sua capacidade de conservar suas tradições.
Quadros como Fé,
Feira, Ladeira ou Seleção enfocam, respectivamente, festividades
religiosas, feiras populares, o universo da capoeira e futebol, em
cenas de forte apelo popular e repletos de tradições muitas
vezes esquecidas. A. Rosalino as traz à tona com um traço bem
definido, delicadeza, simplicidade e algumas cenas noturnas de
grande plasticidade, principalmente as de festas que ocorrem no
interior.
Estudar o folclore de
um país significa conhecer melhor o que um povo diz, faz e sente.
As telas de temas populares com estilo primitivista de A. Rosalino
oferecem, portanto, um amplo campo sócio-cultural para conhecer e
compreender a identidade cultural e social de um povo,
transmitindo normas e valores ao longo dos séculos.
Ao exaltar festas e
folguedos, A Rosalino apresenta significativas imagens que
resgatam o passado. Utiliza a sua sensibilidade e talento para
eternizar cenas populares, permitindo que brasileiros de
diferentes regiões convivam mais com a diversidade e que
estrangeiros conheçam melhor as nossas tradições.
Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).