A
reconstrução na arte
Quando
muitos falam que a história está no fim, que não existe progresso
possível e que não há mais narrativa nas obras de arte, o termo
Reconstrução é utilizado das mais diversas maneiras, muitas vezes
incongruentes. Para discutir essa questão, dentro dos seminários
internacionais que antecedem a 27ª Bienal de São Paulo, a co-curadora
Cristina Freire organizou e mediou três mesas de debates entre 9 e 10
de junho de 2006.
Professor de
Ética e Filosofia da Universidade de São Paulo (SP), Renato Janine
Ribeiro começou sua fala apontando que a atual civilização se
caracteriza pela destruição e desconstrução, ou seja, a competência
é avaliada pela capacidade de realizar descartes, num universo mental
em que a conquista é menos importante do que a exclusão. Isso funciona
tanto na economia, com questões como produtividade e desemprego, como
na arte.
Nesse
contexto, seria necessário, para Ribeiro, estabelecer uma nova ética
da separação, pois, nessa idéia, de que o importante é deixar de
lado aquilo que parece não servir mais, as mudanças ocorrem geralmente
sem respeito pela memória e se tornam progressivamente onipresentes.
O passado
começa então perigosamente a perder valor, sendo aniquilado. Segundo o
filósofo, é necessário evitar vazios éticos, que surgiriam com
ausência de um denso pensamento sobre a separação, capaz de
gerar a construção de uma história que não desrespeite o passado.
Em seguida,
o arquiteto libanês Tony Chakar refletiu sobre a ocupação do espaço
em Beirute. Lembrou que o país passou por uma guerra civil de vinte
anos (1975-1995). Nesse universo, a reflexão sobre a construção e
destruição do espaço é cotidiana.
Para
ilustrar como ela funciona na prática, evocou a reunião de 1,5 milhão
de pessoas, em 14 de março de 2005, na Praça dos Mártires, em revolta
contra o assassinato de um general libanês. O ato tornou-se uma
manifestação que exigia a saída dos sírios do país.
A Praça foi
ocupada por parte da população, principalmente por jovens estudantes
universitários durante 80 dias. Os alunos ficaram no local, morando
dentro de tendas. Todas azuis do lado de fora, por dentro elas
expressavam inúmeras diferenças, já que o Líbano reúne 18 religiões
diferentes e uma mescla de origens árabes, fenícias, e sírias.
Enquanto
a atividade frenética da multidão expressava essas tendências
controversas, em 9 de maio daquele mesmo ano, nova aglomeração na Praça
teve uma característica diferente, a unanimidade, pois a multidão
reunida compareceu para homenagear um outro general que fora
anteriormente banido pelos sírios. Sua aparição, atrás de um vidro
à prova de balas e rígido como um manequim numa vitrine, segundo
Chakar, inibia qualquer ímpeto de espontaneidade
O
arquiteto comentou todo o processo de construção e desconstrução da
praça, enfatizando como, historicamente, a arquitetura local, voltada
sempre para a serra e nunca para o mar, torna-se uma metáfora de um país
que escolheu ficar olhando para si mesmo em vez de se abrir para o
mundo. Até hoje, embora muitas coisas tenham mudado após o término da
Guerra Civil, numerosas casas ainda estão com as janelas direcionadas
para as elevações das colinas.
O psicólogo
social João Frayze-Pereira, da USP, dia 10 de junho, verificou que boa
parte da arte produzida nas últimas décadas está associada a
manifestações traumáticas ou de violência. São numerosos fenômenos,
como body art, happenings
ou performances, provocados,
por exemplo, por cortes auto-impostos, em ações que levam o criador a
momentos de autêntico sofrimento.
O artista se
despersonaliza para sentir dor em nome de uma idéia ou de um conceito.
De acordo com Frayze-Pereira, a grande questão que esse tipo de ação
estética gera é a da recepção dessas obras. O espectador levaria
para casa ressonâncias daquilo que viu. Isso o faria refletir sobre o
mundo, tornando-o muito mais um detetive do que um voyeur.
O
objetivo desses trabalhos, para ele, não seria pensar diretamente o
mundo, mas representá-lo de uma maneira que levasse à reflexão. O
fruidor da arte contemporânea, portanto, seria bem mais reativo ao que
vê. Pouco contemplativo, tenderia a dois movimentos: ação silenciosa
ou repúdio.
A
utilização do próprio corpo como suporte artístico, de fato, geraria
mal-estar no espectador e um pensamento e uma ação contra a alienação.
Tal raciocínio vê a arte contemporânea, em suas vertentes mais
renovadoras, como uma abertura para novos materiais e estilos.
Frayze-Pereira
exemplificou, entre outros artistas, com a italiana Gina Pane. Ela corta
o corpo com lâminas ou o cobre com vermes, em ações que mesclam
sofrimento com experiências talvez transcendentes de sublimação.
Nesse mesmo universo da arte carnal, há ainda aqueles que realizam
transformações cirúrgicas, dentro do lema “Abaixo o sofrimento.
Viva a morfina”.
O
psicólogo social detecta, em síntese, que a arte habita entre duas
pulsões: uma de vida, marcada pela busca de uma síntese produtiva; e
outra de morte, caracterizada por um raciocínio disjuntivo. Esta
segunda corre o sério risco de atingir um perigoso estágio em que o próprio
pensamento seja destruído, dentro da visão de que criar é destruir,
sendo, portanto, a aniquilação da vida um caminho estético válido.
Ao
encerrar sua palestra, o docente da USP enfatizou que a arte tem o poder
de fazer o ser humano ver aquilo que lhe pode escapar num primeiro
momento. Nesse aspecto, uma atitude silenciosa perante um trabalho mais
agressivo possui a capacidade de levar à reflexão sobre os
questionamentos que um artista deseja propor. É o que ocorre quando se
contemplam trabalhos em que a visão do corpo ferido ou torturado pode
ser bem perturbadora.
O curador
russo Viktor Misiano, por sua vez, relatou a experiência vivenciada em
seu país nos anos 1980/90, quando termos como construção, desconstrução
e reconstrução não eram termos abstratos, mas a realidade concreta de
uma nação. Nesse período, a URSS deixou de existir e a Rússia
renasceu. Houve, portanto, uma negação do próprio país em si mesmo.
Na Europa
Ocidental, essa agitação política gerou numerosos movimentos de
artistas que propunham ações fora dos espaços tradicionais de exposição,
como museus ou galerias. Houve uma fuga das instituições
cristalizadas. Já na Europa Oriental, ocorreu a substituição das
claudicantes existentes por algo que Misiano identifica como Comunidades
Confidenciais.
O espaço
coletivo substitui o público, ou seja, os vínculos passaram a ser
realizados horizontalmente, nutridos por relações de sentimentos e
amizade. A dificuldade de “Como viver junto”, tema da próxima
Bienal, se expressava nas complexas tentativas de conciliar diferentes
visões de mundo.
Para
Misiano, os empecilhos foram mais do que saudáveis, pois qualquer idéia
de democracia exige a manifestação aberta de conflitos de interesses e
ideológicos. Haveria então a criação de meios para discussões em um
fim estabelecido. Hoje, ele considera que ocorre o oposto, pois uma
satisfação aparente com o superficial êxito das estruturas sociais
capitalistas levaria a debates em torno de um fim, mas sem ampla riqueza
de meios de expressão.
Hoje,
embora existam diversos meios, como chats, jornais e outras
publicações alternativas, estaria se perdendo de vista o fim desses
debates ou seja, manter a coerência da resignação alegre que começa
a marcar algumas sociedades. Em nome de um fim, o sucesso, ligado ao
entretenimento e ao dinheiro que o produto gera, na mentalidade
capitalista, a qualidade, que deveria ser a finalidade em si mesma da
arte, começa a ficar em segundo plano.
No último
dia do evento promovido pela Bienal, o professor de história da arte
contemporânea Jean-Marc Poinsot, teceu diversas reflexões sobre o
trabalho do criador francês Daniel Buren. Retomou uma mostra dele no
Guggenheim, em Nova York, em 1970, que teve um trabalho recusado pelo
curador por criar dificuldades e prejuízos para visibilidade das obras
dos outros artistas da exposição.
A
discussão foi muito produtiva por trazer à tona que uma experiência
visual não é algo puro, mas, talvez, tenha limites quando acaba
interferindo, numa mostra coletiva, com os trabalhos de outros
criadores. Isso obriga a repensar como se dão as relações nas
apresentações coletivas e no respeito que os artistas devem (ou não?)
ter entre si. Também coloca em xeque as relações do criador com um
curador e com a própria instituição onde vai mostrar aquilo que
produz.
Para
finalizar, a artista mexicana Minerva Cuevas apresentou suas dúvidas se
a sua prática criativa estava mais próxima da realizada por uma
artista ou por uma ativista política. Ela contou suas interferências
urbanas, como a distribuição de cartazes “Nada com excesso. Tudo com
medida”, em Cuba.
Também
contou como funcionou significativamente a simples ação de decorar
carrinhos bate-bate num parque de diversões com marcas de grandes
empresas petrolíferas, numa alegoria de como elas disputam o poder,
literalmente, com agressividade.
A criação
de Minerva que concilia boa parte de suas realizações é a Mejor
Vida Corp., organização que já distribuiu mais de 3 mil
credenciais de estudantes, que participam de diversas atividades no
sentido de conseguir reduções de preços em supermercados e outras ações
promovedoras de justiça social.
A
idéia chegou a sofrer censura institucional (algo diferente de uma
retaliação política, sexual ou econômica), pois Minerva colocou no
fictício escritório da empresa, em uma instalação, o símbolo de um
banco espanhol, um porquinho. Dentro de um contexto crítico, os
dirigentes do banco perceberam que a vinculação ao projeto não era
adequada aos seus interesses e retiraram o objeto.
Outra
intervenção curiosa e eficaz foi a presença de atores vestidos como
Ronald McDonald em lojas da rede pelo mundo. Eles convidavam as pessoas
a comer os produtos da empresa, mas alertando para o número de produtos
químicos presente nas folhas de alface, denunciando a violação dos
direitos trabalhistas que a companhia faz dos empregados ou ainda
criticando as exageradas verbas com publicidade gastas empresa.
Uma criação
de conteúdo mais diretamente político ocorreu no Chipre, na Nicósia,
cidade dividida entre turcos e gregos. Ali, Minerva teve a ousadia de
realizar algo aparentemente simples, mas inédito, juntou pedaços dos
mapas das partes da cidade divididas entre as duas facções para criar
uma cartografia urbana até então inédita na modernidade.
No
próprio México, lançou a campanha “Para que inferno se temos a pátria”
e promoveu um encontro, no bairro de Lavapies, na Cidade do México,
entre aproximadamente 50 músicos de rua, de todas as nacionalidades,
que tocaram juntos, sem ensaio e com impressionante resultado
harmonioso, por aproximadamente 30 minutos.
Certamente
essa experiência de Minerva Cuevas ilustra bem o conceito de reconstrução.
Seja ética, arquitetônica, psicológica, conceitual ou artística, ela
aponta para uma necessidade vital: a da arte se renovar constantemente,
buscando, em cada novo ato, criar seus próprios paradigmas. Isso não
significa necessariamente derrubar os anteriores, mas, pelo menos,
questiona-los por uma ótica crítica e instigante.
Oscar D’Ambrosio, jornalista, é
mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus
de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de
Arte (AICA-Seção Brasil).