por Oscar D'Ambrosio


 

 


Aranhas na Arte


A imensa Aranha de bronze da artista plástica Louise Bourgeois, que está no Museu de Arte Moderna (MAM), no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, com suas dimensões descomunais de 338 x 688 x 633 cm, contrasta com qualquer aracnídeo que possa ser encontrado pelas alamedas repletas de humanos ansiosos por ar puro e saúde. Com um pouco de sorte, é possível até observá-la, em sua enorme vitrina, enquanto um jovem de boné invertido ouve o libidinoso e bem-humorado Rock das "Aranha", na voz de Raul Seixas.
Os cinéfilos de plantão, ao vê-la, lembrarão ainda do filme Aracnofobia (1990), dirigido por Frank Marshall e co-produzido por Steven Spielberg, um clássico do "terrir" (terror + riso), com destaque para o excelente ator John Goodman como um hilário exterminador de aracnídeos. O filme até recebeu o Prêmio Saturn, considerado o Oscar de filmes de ficção científica e horror. No entanto, as tarântulas da Amazônia, os aracnídeos da Nova Zelândia e as aranhas eletrônicas projetadas por David Sosalla usadas no filme nem chegam perto da criação de Bourgeois.
Donos de uma galeria de tapeçarias, os pais de Louise a receberam como presente de Papai Noel em 1911, em Paris, cidade onde a futura artista viveu até 1938, quando se casou com um americano e cruzou o Atlântico. Sempre preocupada com a temática feminina, ela iniciou uma bem-sucedida carreira de artista plástica, realizando diversas esculturas e instalações em que sexualidade e sensualidade se entrelaçam, como os fios de uma teia.
No gigantesco aracnídeo, sentidos símbólicos diferentes se sobrepõem e confundem. A teia, embora inexistente na escultura, evoca numerosos significados, principalmente seu papel demiúrgico. Na Micronésia, por exemplo, a aranha é reverenciada como deus, enquanto, na África ocidental, lhe é atribuído o surgimento do sol, da lua e das estrelas; a modelagem do primeiro homem; e, pela entrega dos cereais e da enxada à sua criação, o papel do herói civilizatório.
Sem teia, a aranha de Bourgeois perde seu caráter de símbolo do centro do mundo, conotação que recebe na Índia, onde é vista como Maia, a eterna tecedora do véu das ilusões. O fio reporta ainda à linha da vida, tecida, esticada e cortada pelas Moiras gregas. Para a psicanálise, as linhas que tece também se relacionam com o hímen feminino, enquanto o aracnídeo em si evoca a vagina.
Sexualidade e prazer por um lado, morte pelo outro. No Vietnã, por exemplo, considera-se a aranha a alma que se separa de um corpo adormecido. Matá-la é provocar a morte de quem está dormindo. Os indígenas muiscas da Colômbia a vêem como a própria alma ou como um ser psicopompo, que transporta as almas condenadas, e os astecas a identificam com o próprio deus infernal.
Nesse contexto simbólico, a enorme aranha de Bourgeois indicia a transformação ininterrupta da existência. Mesmo sem fio, remete, pelo seu tamanho descomunal e patas contorcidas, à mitologia grega. Nesta, Atenas, deusa da razão superior, filha da cabeça de Zeus, era a mestre e patrona da tecelagem, enquanto a jovem mortal lídia Aracné, no entanto, também perita nessa arte, a desafiou.
Colocam-se frente a frente. Atenas teceu os doze seres divinos do Monte Olimpo e, nas quatro pontas, os castigos que sofreram os mortais que ousaram desafiá-los. Aracné, por seu turno, percebeu a ameaça contida na imagem da tapeçaria divina e respondeu tecendo os de amores dos deuses pelos mortais.
Sentindo-se ofendida pela ironia, a filha de Zeus golpeou Aracné. Sabendo que não tinha saída perante a ira da deusa, a jovem decidiu enfocar-se. Atenas, porém, poupa-lhe a vida e a transforma em aranha. A teia simboliza assim a derrota de uma mortal ao rivalizar com um deus.
A ambição demiúrgica, como ocorre com Prometeu, Sísifo ou Tântalo, é exemplarmente punida, seja tendo o fígado comido por um abutre, pelo desespero de carregar pedras eternamente ou pela agonia de não conseguir beber água ou comer, embora os alimentos pareçam incrivelmente próximos.
Assim como o fim de uma vida indicia o nascimento de uma nova e aqueles que permanecem vivos aprendem a conviver com a ausência da pessoa querida, as fas(c)es da lua tecem os destinos da humanidade em sua trajetória pelo céu. Por essa mutabilidade, no Peru, utilizava-se a aranha em adivinhações. Ela era colocada num pote, considerando-se de mau augúrio se, ao ser destampado o recipiente, alguma pata do aracnídeo estivesse esticada.
Com suas oito patas dobradas, a aranha de Bourgeois intriga. Fêmea fatal pronta a devorar, ícone demiúrgico lunar ou ser do mundo dos infernos, evoca a feminilidade, integra-se ao ambiente do Parque do Ibirapuera e desafia. Sairá a caminhar, liderando uma procissão composta pelos milhares de aracnídeos do parque? E se o fizer? Qual será o seu destino?

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

 

 

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