por Oscar D'Ambrosio


   

Aquarelas no Parque Burle Marx

 

            A linguagem da aquarela tem seus mistérios próprios. Exige delicadeza e apresenta uma mínima margem de erro. Ela convida ao excesso, mas o descuido pode levar a uma folha de papel perdida. Ao mesmo tempo, há nela um exercício de contenção, pois comporta o minimalismo da transparência.

            O projeto Aquarela no Parque Burle Marx mesclou artistas de amplo currículo com iniciantes para divulgar uma técnica bem menos conhecida do que merece. Na exposição no Banco HSBC, no bairro de Perdizes, em São Paulo, de 2 a 31 de agosto, a experiência de Regina Komatsu surge ao lado dos primeiros trabalhos de Carmen Abranches Casanova.

            Rainha dos verdes, Regina apresenta ricos trabalhos cromáticos nas imagens em que parte do Pergolado do Parque. Embora essa cor predomine, tons delicados de azul, rosa e amarelo surgem nos fundos, dando às obras um interessante dinamismo, obtido pelo equilíbrio, nunca pelo excesso.

            Essa busca do ponto adequado é ainda mais evidente nas aquarelas das trilhas. Ao mostrar aquela chamada de A, a presença de um bambu atravessado é que torna o resultado preciso. Ele surge como algo estranho ao caminho, mas, por isso mesmo, termina sendo um elemento que o completa.

            Nos trabalhos sobre a trilha B, um tronco e uma árvore caída têm o mesmo efeito. Atrapalham o andar na trilha, mas dão à obra plástica um dado de originalidade e até funcionam como uma metáfora das dificuldades do caminhar, seja numa trilha, seja na vida.

            Flores vermelhas, azuis e lilás dão às imagens construídas a partir da casa de taipa do Parque um sentido renovado. O mesmo ocorre com a escada que ganha destaque em Parque Burle Marx II. É nos pequenos elementos, nos detalhes precisamente elaborados que as aquarelas de Regina obtêm seu elemento diferenciador.

            As obras expostas de Carmen Abranches Casanova seguem os passos da mestre. Ela realizou as suas primeiras aquarelas, em 15/04, 16/04, 14/05, 18/06 e em julho. Respectivamente, fez imagens de bromélias, uma figueira, essa mesma árvore com o pergolado do Parque, uma ilustração botânica e um trabalho sob influência de Cézanne.

            O percurso de Carmen indica um estudo de cor, uma pesquisa para dominar o espaço da folha de papel em branco, o enfrentamento com a noção de verticalidade, a busca da imitação do real como desafio e um maior formalismo inspirado na forma como o pintor francês concebia a cor, o espaço, a linha e as manchas.

            Carmen parece encontrar o seu caminho, nesses primeiros trabalhos, nos exercícios de verticalidade, nos quais uma certa fidelidade ao real mistura-se, gradualmente, ao diálogo com uma maior estruturação técnica, à percepção da importância da linha e à utilização de manchas coloridas como resposta estética ao desafio da técnica da aquarela.

            Regina Komatsu e Carmen Abranches Casanova praticam um feliz diálogo entre a experiência e o vigor de quem dá os passos iniciais numa nova técnica. A maior beneficiada é a aquarela, pois garante a sua continuidade com praticantes qualificados e apaixonados por uma arte difícil em sua simplicidade e sedutora em sua prática cotidiana.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

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