Apologia
das vacas
No artigo “A
arte de mugir e ruminar a lição de Duchamp”, publicado sábado,
dia 17 de setembro de 2005, Antônio Gonçalves Filho apresentou
numerosos argumentos contra o evento Cow Parade. Embora
alguns sejam pertinentes, gostaria de enfatizar que o evento tem,
também diversos pontos positivos deixados de lado no texto.
O
principal é que a Cow Parade é, de fato, uma forma de
aproximar a arte do grande público. Em um país como o nosso,
onde a cultura está longe de ser uma prioridade, tal fato não
pode ser minimizado. A presença das vacas no espaço urbano, em
suas mais variadas manifestações, é, sim, uma forma de as
pessoas se perguntarem se aquilo é arte e, mais ainda, para que
serve o ato de trabalhar criativamente um objeto.
Creio,
ao contrário de Gonçalves Filho, que a grande questão da Cow
Parade não são
as vacas em si mesmas, mas a qualidade artística de cada trabalho
feito a partir de um tema determinado – a vaca. Não é o caso
neste texto de citar as vacas mais interessantes, mas de verificar
que, como em toda exposição de arte, há obras melhores, mais
criativas e melhor executadas do que outras.
Há
vacas resolvidas plasticamente com inteligência e de maneira
instigante e outras são banais e gratuitas. Essa é a discussão
relevante. O evento é uma grande oportunidade, justamente para
refletir sobre o que torna trabalhos melhores do que outros, seja
pela maneira de articular idéias, cores ou conceitos.
Condenar
a Cow Parade parece precipitado. É claro que algumas das
vacas podiam ter sido distribuídas para melhores artistas e que a
questão do patrocínio interfere decisivamente em muitos
resultados. Tais problemas, porém, não podem ser tomados como
referenciais definitivos para ser contrário ao desfile citadino
das vacas.
Há
galerias de São Paulo que apresentam trabalhos medíocres e
muitos pintores e escultores de duvidosa qualidade que contam com
bons patrocínios. Analogamente, há vacas que cativam e outras
que mal serão lembradas. O mal que Gonçalves detectou na Cow
Parade, portanto, espalha-se pela arte como um todo.
Direcionar essa ira contra as vaquinhas que divertem crianças,
interrogam adultos e interessam alguns críticos de arte não me
parece ser a melhor opção.
Deixemos
as vacas interagir com a cidade em paz! O próprio público se
encarrega de apontar aquelas que não passam de jogo daquelas que
merecem olhar mais atento. Subestimar os moradores e turistas
paulistanos, chamando-os de “ingênuos
cidadãos” ou “incautos” revela um certo passadismo e quase
um preconceito: o de que pessoas comuns não sabem diferenciar
casuísmos de arte.
Elas
sabem sim, dede que tenham a oportunidade. Comparar as mais de 80
vacas espalhadas pela cidade é uma excelente oportunidade de cada
um exercer seu livre arbítrio. Ao encontrar cada vaca, cada
pessoa utiliza seu senso crítico, sendo capaz, talvez, de
leituras surpreendentes, que nunca passariam pela cabeça de
jornalistas e críticos de arte. Liberdade às vacas e ao poder de
escolha de cada observador!
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo
Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov
(Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor
naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do
Estado de São Paulo).