por Oscar D'Ambrosio


 

 


A poética das mãos de José Cordeiro


A fé é um assunto fascinante tanto pelos seus aspectos motivadores na esfera individual como pelo poder coletivo de mobilizar pessoas em torno de ideais semelhantes. O desejo de cada um e o dos grupos parecem se encontrar de uma maneira quase mágica, difícil de ser apreendida por interpretações meramente racionais.

É esse tipo de questão que surge a partir das imagens do fotógrafo José Cordeiro sobre a devoção de romeiros em Aparecida do Norte, SP. Um conjunto delas chama a atenção pela presença das mãos em distintos momentos de louvor. Elas surgem tocando os pés de Jesus, em posição de oração ou erguidas clamando pelo divino.

Há nelas o mesmo movimento da vela, outro elemento relevante no conjunto de fotos. Ambos funcionam como uma espécie de xamânica chama com a dupla função de acender no interior de cada um a fé e de propagá-la por meio da oração, do canto e da presença física em locais de concentração de milhares de fiéis, como Aparecida.

Tocar a parede que guarda a imagem da Virgem constitui uma outra maneira de se aproximar do sagrado, assim como rezar o terço, caminhar em romarias ou ir de ônibus até Aparecida. Essas diversas instâncias, devidamente registradas por José Cordeiro, constituem um conjunto em que a fé atinge a instância de um conhecer que está além do ver para mergulhar num saber impregnado pelo existir.

As mãos, nesse contexto, ultrapassam seu poder de segurar objetos para se tornar autênticos ícones de um caminho rumo ao sagrado. Por seu intermédio, o divino parece estar mais próximo. A sala dos ex-votos de Aparecida, por exemplo, ganha a dimensão épica de uma jornada medieval por manifestações de agradecimento as mais variadas, num encontro de tradições populares, arte e curiosidades regido pela fé.

As fotos de José Cordeiro lançam sobre o universo religioso da Basílica a visão de alguém que vê na crença num ser superior uma dimensão humana. Por isso as mãos são emblemáticas. Ao se elevarem aos céus, despertam o desejo de completude que pode ocorrer tanto pelo sentimento de devoção à imagem religiosa ou à fotográfica como forma de elevação da mente e do espírito.



Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).


 

 



 

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