por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

 

A poética dos alfinetes

 

            Quando muitos olham para um alfinete vêem apenas uma pequena haste metálica, com cabeça em uma das extremidades e com uma ponta na outra. No entanto, a visão do artista, que surge, muitas vezes, da capacidade de lançar novos olhares sobre os objetos de uso comum, propicia a transformação de alfinetes – ou do conjunto deles – em algo novo.

            Esse é o jogo instaurado pelo artista plástico Odyn Icla Arierom, em Verdades provisórias, exposto, em dezembro de 2005, no Museu de Arte Contemporânea da USP, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. O nome do criador, na verdade o anagrama de Alcindo Moreira Filho, aponta justamente para a capacidade de se tomar objetos e palavras e dar-lhes novos significados.

            Assim como um mesmo nome contém dezenas de outros dentro dele se soubermos a melhor forma de combinar os elementos ali presentes, os alfinetes, com diversas técnicas, inclusive com o uso de ímã, ganham diversas formas e constituições de acordo com a visão proposta pelo artista e, principalmente, pelo público que se depara e dialoga com a obra.

            É curioso que a palavra alfinete provenha do árabe (hal-hilal), língua de um povo cuja cultura está muito ligada às cores e ao brilho, pois o efeito dos alfinetes aglomerados em quantidades consideráveis propiciam justamente novas conotações a partir dos jogos visuais possíveis não apenas com formas, mas também com luminosidades.

            Acumulador por natureza, como já mostrou em trabalhos com toneladas de café e milhares de botões, o Odin que existe dentro do Alcindo, com suas provisórias verdades de justaposição de alfinetes, está apenas no início de um novo processo construtivo de significados lingüísticos, plásticos e visuais que se intercruzam com infinito potencial.

            É trabalho para uma vida. Nada mais coerente, aliás, pois Odin é o deus supremo da mitologia  germânica, ligado ao ensino, à poesia, à sabedoria e à mágica. Do corpo do gigante Imir, criou o mundo; de um freixo, o homem; e de um olmo, a mulher. Assim, o Odyn brasileiro cria não estruturas figurativas, mas construções visuais que geram impacto estético e despertam o lúdico em cada observador.

            O alfinete, embora pequeno e quase imperceptível, também é nome de jóia. Isso ocorre quando a sua cabeça é ornada, inclusive com algumas pedras preciosas incrustadas. Esse lembrete aponta para outra possibilidade da pesquisa estética de Odyn, pois um conjunto de alfinetes pode justamente formar um alfinete no sentido de algo precioso e raro.

            Há ainda o alfinete de segurança, pequena haste que se encurva em mola e cuja ponta é protegida por uma peça que a encobre. Esse significado remete a novas formas de ver o alfinete, pois, além de “alfinetar”, ou seja, causar uma dor, geralmente aguda e rápida, o objeto contém a idéia de proteção.

            Esse conceito pode ser extrapolado para noção ambivalente de gerar dor e preveni-la. Algumas das formas já apontadas por Odyn nesta exposição trabalham, de maneira pouco ou nada explícita, com essa idéia, pois o ato de ver o alfinete evoca a idéia da ponta que causa dor, mas, ao mesmo tempo, ele pode proteger de um ataque, esse usado como defesa.

            Tais ambivalências visuais e estéticas podem ser levadas ao nível do discurso. “Ganhar para os alfinetes”, por exemplo, indica que se ganha muito pouco. No entanto, a junção desses objetos, como faz Odyn, confere ao objeto uma força sublime e até assustadora. Quem ousaria enfrentar uma floresta de “delicados” alfinetes prontos a nos espetar?

            Os vassalos portugueses conheceram, na época da monarquia, a expressão “alfinetes da rainha”, que se referia a um tributo cobrado aos lusos. Uma associação como esta pode apontar, sem dúvida, para um mergulho ainda maior do artista nas potencialidades dos alfinetes como elementos estéticos, pelo seu potencial visual como objeto e pelas numerosas novas idéias que ele porta.

            O risco do artista é o de “meter agulhas por alfinetes”, ou seja, lançar mão de quaisquer meios para atingir o fim desejado. O risco existiria num artista iniciante ou inexperiente com os materiais, que definitivamente não é o caso de Odyn, incapaz de sacrificar a estética pelo discurso ou o trabalho de pesquisa com o material pelo trocadilho fácil.

            Claro está neste momento que o alfinete surge numa relação ora complementar, ora oposta, com a agulha, pois esta, com sua estrutura de uma pequena haste de aço temperado e polida, é aguçada numa das extremidades e perfurada na outra, por onde passa a linha de coser. Agulha e alfinete podem então construir, em pares, trios, conjuntos, instalações ou vídeos novas relações até hoje insuspeitas.

            Em termos das estruturas visuais criadas por Odyn, muitas vezes apontam para espécies de vasos de flores. A oposição entre o potencial do alfinete de gerar dor e o da planta de demonstrar beleza revela-se apenas aparente quando se verifica que pelo menos  três plantas (a ornamental Centranthus ruber, da família das valerianáceas; a Erythrae centaurium, da família das gencianáceas; e a Silene armeria, da família das carofiláceas) têm a denominação popular de “alfinete”.

            Somente as analogias possíveis entre os mencionadas elementos da natureza e os alfinetes utilizados no ato de costura são elementos para reflexão no universo de provisórias verdades estabelecido por Odyn Icla Arierom, um artista que, no próprio nome, traz a capacidade de criar, e, na prática de sua poética dos alfinetes indica numerosos caminhos para desferir alfinetadas à nossa inteligência cada vez mais necessitada de desafios que nos retirem do lugar-comum.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

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