por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

A pintura de André Albuquerque em questão

           

            É curioso observar os caminhos percorridos pela arte contemporânea. Não me refiro apenas à produção, mas também à forma como as obras são interpretadas e como o conjunto criação/execução é lido pela sociedade, abrangendo um espectro que inclui desde as crianças até os professores delas.

            A pintura de André Albuquerque nos ajuda a pensar nessas questões. Quando ele apresenta corpos e rostos com a sua técnica, marcada geralmente pelo uso de diversas camadas, numa forma de desconstrução de referenciais concretos, gerando impactos visuais no observador, ele obriga a refletir sobre a própria arte.

            Se pintores como Van Gogh, em termos mundiais, e Leonílson, nas nossas fronteiras, são, às vezes, muito mais lembrados pelas suas biografias atormentadas do que pela maneira como resolviam seus questionamentos sobre a tela, o trabalho de André Albuquerque constitui uma quase resistência ao psicologismo.

            Seus corpos e rostos não podem ser vistos apenas como partes de uma anatomia. Eles são matéria de pintura. Uma testa ou um nariz não se atêm ao referencial concreto, mas funcionam como um universo imaginário em que todo tipo de ação com as tintas é possível.

            André Albuquerque não se coloca como anatomista, mas como pintor. Isso significa que é um criador e, portanto, tem total liberdade de reinterpretar o mundo. O assunto é o que menos interessa perante a habilidade de oferecer a sua visão. Sua psicologia ou eventual simbologia das telas não pode ser deixada de lado, mas parece estranho priorizar esses elementos sem que o olhar se detenha sobre o que ele faz enquanto pintor.

Isso significa observar atentamente as telas que são expostas e verificar como os pincéis trataram a tinta para chegar a soluções cromáticas e de composição. Por tudo isso, observar um quadro exige a mesma arte de ler um livro. Se uma leitura dinâmica não consegue captar, por exemplo, as nuances de um Guimarães Rosa, a contemplação apressada de um quadro impede que se perceba as suas características intrínsecas.

            A consecução da figura principal e do fundo, por exemplo, são pontos de partida para aproveitar cada quadro de uma exposição. Muito mais do que fazer comparações entre aquilo que se vê na tela e o que está no mundo que consideramos real, o quadro em si mesmo precisa “falar” com o público e ser “lido” enquanto obra autônoma, sem biografismos, simbolismos ou psicologismos simplificadores.

            Ler um trabalho plástico é uma arte que exige tempo. André Albuquerque constrói seu tempo com suas obras. Desfaz a figura que se espera pela construção do próprio mundo, onde cada pincelada, relevo, irregularidade e camada escancaram um processo criativo de busca permanente de respostas para uma infinita pergunta: qual é a questão central a motivar toda a pintura?

Deixar de respondê-la é passo essencial para continuar produzindo, num círculo virtuoso em que oferecer respostas pode ser a morte do processo de confecção de um mundo paralelo ao cotidiano, mas grudado a ele pela necessidade do artista de ofertar em cada experiência estética uma nova visão da realidade.

 

Oscar D’Ambrosio, mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 

 

 

 



 

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