por Oscar D'Ambrosio


 

 


A orelha de Van Gogh como rito iniciático

 

Homenagem aos 70 anos de Moacyr Scliar

 

Esta homenagem aos 70 anos do escritor Moacyr Scliar oferece três partes que se integram. A primeira faz uma paráfrase do conto estudado com breves comentários; a segunda busca apontar para alguns elementos simbólicos importantes do texto; e a terceira discorre sobre trabalhos plásticos desenvolvidos por artistas que entraram em contato com o conto do escritor gaúcho neste ano.

 

1. O conto

A passagem da infância para a idade adulta e a luta do artista para, com sua criatividade, conquistar o seu espaço na sociedade, são dois dos principais temas da história da arte. Está presente desde as narrativas míticas primordiais até diversos contos contemporâneos, nos quais, assim como na pintura, a palavra de ordem está no “menos é mais”, ou seja, na capacidade de cada um ser conciso e profundo ao tratar os mais variados assuntos.

O conto A orelha de Van Gogh¸ de Moacyr Scliar, enfoca justamente a saída da infância num episódio lúdico e associado à criatividade, mas não por isso menos denso. O texto, narrado pelo filho, começa com ele contando como estava “como de costume, á beira da ruína”. É justamente esse sentimento de estar próximo a alguma coisa, geralmente a uma transformação, que comanda a narrativa.

Endividado, o pai do narrador, boa alma que “vendia fiado e não cobrava nunca”, tinha na imaginação, assim como todo artista, a sua grande arma. Isso fazia com que ele não fugisse ou cometesse suicídio. A criatividade era a sua forma de responder às situações difíceis.

Assim como todo artista pesquisa, ele também descobriu que o credor tinha uma paixão pelo pintor holandês Van Gogh. O maior mito da história da arte, muitas vezes mais adorado por ter dado fim à própria vida e por ter vendido apenas um quadro em vida, sendo reconhecido postumamente do que pela qualidade inerente de seus quadros, era o ídolo do homem que ameaçava o protagonista.

Nova busca de algo que pudesse interessar ao credor, dentro do tema Van Gogh, levou o pai a ter uma idéia que julgou absolutamente brilhante. Vender ao homem a orelha que supostamente o artista holandês teria cortado para enviar a sua amada. Embora a história fale do lóbulo e não do órgão da audição inteiro, isso não interessava.

O fato era que a idéia criativa fora lançada. A criança vê o plano com pouquíssimas possibilidades de dar certo, mas alimenta a ilusão do pai. O necrotério é o local de onde consegue, graças a um amigo, a orelha de um morto. Depois, foi só colocá-la num vidro com o rótulo Van Gogh – orelha.

Ao levar a orelha ao credor, os piores temores do filho se confirmaram. A tentativa não deu certo. A grande questão do pai passou a ser a discussão sobre qual das orelhas Van Gogh teria cortado: se a direita ou a esquerda. Nessa pergunta aparentemente banal se resumia aquela tentativa que terminara em desilusão.

Tanto o pai com o filho não sabiam qual das orelhas havia sido cortada e muito menos pararam para pensar qual haviam colocado no vidro para levar ao credor. Tal fato levara ao fracasso da jornada e deixa pai e filho igualmente tristes e frustrados pela chance perdida de solucionar os problemas financeiros com uma idéia aparentemente criativa.

O menino narrador encerra o conto lembrando que uma orelha se assemelha a um labirinto e que “neste labirinto eu estava perdido. E nunca mais sairia dele”. Cristaliza-se assim a passagem da inocência para a idade adulta. O mundo da criatividade, ilusões e sonhos é brutalmente encerrado pelo fracasso da estratégia paterna.

A realidade supera o sonho; e a luta cotidiana começa a surgir como um imenso labirinto com o qual é preciso conviver para poder sobreviver num universo adverso, no qual vitórias e derrotas são facetas de uma mesma moeda, de um jogo no qual o resultado pode depender de saber qual é a orelha que teria sido cortada por um artista num momento de destemperança.

 

2. Símbolos

Sem pensar em esgotar o tema, o conto de Scliar tem como base pelo menos três pontos essenciais: a orelha, o labirinto, e a perda da inocência. Eles se relacionam entre si e apontam para a riqueza da breve narrativa para entender melhor a introdução da vida adulta e a própria saga do artista que coloca sua criatividade a toda prova continuamente em busca da aceitação coletiva. 

A orelha, por exemplo, está associada à compreensão e à comunicação. Ela é o órgão que nos ajuda a ter um maior entrosamento com o mundo. Estar privado dela significa um prejuízo na relação com as pessoas e objetos ao redor. É o que ocorre com Van Gogh e, em igual escala, com pai e filho do conto.

Eles não souberam ouvir os ensinamentos de Van Gogh e pagaram caro por isso. Tentaram se aproveitar de uma situação e fracassaram terrivelmente. Não souberam ouvir o som da vida e procuraram dar um passo criativo maior que as próprias pernas. Sem estabelecer uma verossimilhança, obrigação do artista quando mergulha no universo do realismo fantástico, foram rejeitados pelo público, no caso, o credor.

Quanto ao labirinto, entrecruzamento de caminhos repleto de impasses, evoca, é claro, o célebre episódio do ameaçador minotauro, do qual Teseu apenas se salvou graças ao fio que recebeu de Ariadne, símbolo de como somente o fio da consciência e do amor pode vencer a força bruta e o inconsciente representados pela fera devoradora de homens e mulheres, nascida do amor proibido entre uma mortal e um animal belíssimo.

    O labirinto, como bem aponta em diversos de seus contos o escritor argentino Jorge Luis Borges, é o grande recurso simbólico para levar o homem ao interior de si mesmo. Percorrer caminhos complexos e chegar ao centro deles significa a vitória da maturidade.

Trata-se do amadurecimento do próprio eu perante o desconhecido. Há nesse processo o prazer de verificar que as dificuldades, medos e ameaças podem ficar  para trás perante um gradual autoconhecimento, possível pela certeza que as dificuldades foram ultrapassadas numa busca pela luz interior, que pode ser representada por um fio, uma luz ou uma espada.

O importante é constatar como a entrada na vida adulta pode ser metaforizada justamente pela imersão nesse labirinto, já que antes tudo parece possível. Mergulhar no labirinto está ligado com a busca da compreensão que a orelha simboliza. Para sair dele mais forte, torna-se essencial deixar a infância para trás, mas sem abandoná-la totalmente, pois é nos melhores momentos do passado que se encontra o vigor necessário para enfrentar a vida adulta, com seus inevitáveis sofrimentos e alegrias. 

 

3. Universo plástico

Seis artistas plásticos aceitaram o desafio de, a partir do conto A orelha de Van Gogh, conceber um trabalho livremente inspirado no texto. Cada um optou por um caminho, numa combinação de técnicas e respostas das mais variadas, principalmente no que diz respeito ao ponto central do conto que mais lhes chamou a atenção.

Adriana Zudin, por exemplo, concentrou seu olhar plástico sobre a venda mencionada pelo narrador no início do conto. Com uma técnica mais realista, mais impressionista e quase mergulhando na abstração, retratou a sua visão do negócio do pai. As arcadas, a falsa perspectiva e as cores criam uma atmosfera de um negócio do interior, prestes a ser perdido perante a incapacidade financeira de pagar as dívidas.

Carlo Cury foca a orelha propriamente dita. Com um toco expressionista, desconstrói o órgão humano e estabelece movimentos visuais e gráficos de ilusão e fantasia. Sua orelha não é mais a real, de um corpo mas a simbólica, com a capacidade de evocar outros sentidos, como o da criatividade, da imersão no labirinto e o da fragmentação à qual todos estamos mergulhados até o último fio de cabelo.

Evandro Angerami coloca a orelha como uma ilha num imenso horizonte. Ali está o labirinto a flutuar, como local a ser atingido ou a ser admirado com solene respeito. Rodeada de névoas é um espaço quase mítico, lendário, lá presente para ser visto e, ao mesmo tempo, parece todo ouvir, numa posição privilegiada das mazelas e diversões humanas.

Maurício Parra tornou seu trabalho uma carta ao escritor Moacyr Scliar. Nela, manda a orelha de Van Gogh.  Ele a teria cortado por estar cansado de “ouvir merda sobre seu trabalho” e por estar repleto de dores, oriundas dos críticos, dos galeristas, pela falta de dinheiro e pela somatização física dessa condição. Assim, a orelha se torna o receptáculo de um mundo hostil sob diversos aspectos ao verdadeiro artista.

Catharine Gati fez duas pequenas séries sobre o tema. Numa delas, debruçou-se especificamente sobre a orelha, concebendo-a como a sede do labirinto mencionado no conto. São quatro experimentações ricas em nuances, mesclando, às vezes, o uso de palavras. Na outra, com duas obras, o labirinto, a orelha, o próprio Van Gogh e o frasco são dispostos cercados por incertezas, representadas por pontos de interrogação. 

Sandra Scaffide dá a sua visão plástica com duas criações, um em preto e branco e outra em tons de marrom, que se complementam. A criança é colocada dentro da orelha, guardada numa espécie de útero. Uma lágrima aponta justamente para a perda da inocência e o início de uma jornada em que saber ouvir será fundamental para superar os enigmas propostos pelos labirintos da vida adulta.

O conjunto visual aponta como o conto de Moacyr Scliar consegue atingir esferas fundamentais da sensibilidade. Ao utilizar uma fábula humana sobre a perda da inocência, mostra que seu refinado humor e habilidade já conhecida no trato com as palavras pode ganhar não só dimensões simbólicas, mas também inesperadas visões plásticas de ampla riqueza analítica e vivencial.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

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