por Oscar D'Ambrosio


 

 


Anna Donadio

 

            A coragem de arriscar

           

A mescla de técnicas sempre é fascinante. Proporciona novas oportunidades de desenvolvimento de linguagens e envolve todo um processo de combinações plásticas que pode trazer bons resultados. Nesse contexto, o trabalho de Anna Donadio desperta interesse justamente pela forma como utiliza duas técnicas paralelas.

Intitulada “Balé de corpos”, a exposição realizada na Area Artis, em São Paulo, SP, em setembro de 2006, se dá pelo uso justamente de dois processos. De um lado, se vale da fotografia como ponto de partida para construir as imagens. De outro, a pintura com encáustica leva a um processo de desconstrução desse mundo e a um trabalho em que as cores têm um papel essencial. 

            Enquanto a fotografia, cujo nome provém do grego,  significando “escrita da luz”, foi, inicialmente, entendida como registro fiel da realidade, passando a ter seu potencial transformador explorado pouco a pouco, a encáustica (do grego egkaustiké, que significa “queimado”) trata-se de uma técnica de pintura, na qual o artista mistura cores em uma cera aquecida e derretida.

A cera é aplicada na superfície a ser pintada e, como é de secagem rápida, é possível usar uma lâmpada ou outra fonte de calor sob o suporte da pintura para amaciar a tinta de cera, permitindo que o pintor obtenha vários efeitos de cor e textura. Muito usada desde o século V a.C. até o século IX., foi utilizada, por exemplo, em retratos de múmias.

Anna Donadio alcança resultados mais intensos quando realiza sua pesquisa de cor com tons mais suaves. Pelo processo técnico de construção visual utilizado, as sutilezas e véus oferecem melhores condições de observação de um trabalho plástico voltado justamente para a pesquisa e para um sucessivo desmanchar a ilusão de realidade que a fotografia comporta para atingir um clima onírico, mas onde a forma de corpos ainda se faz presente.

O desmanche dessa referência concreta é uma possibilidade plástica a ser aprofundada. Um dos poderes da encáustica está exatamente no seu processo de atingir resultados plásticos surpreendentes de acordo com a capacidade de cada artista de desvendar a possibilidade do material.

O movimento de corpos femininos captado por Anna Donadio encanta pela investigação cromática e pela coragem de propor um balé de movimento em cada obra. Quanto maior a delicadeza de trabalho produzido, mais a riqueza das mescla das técnicas utilizadas se sobressai como resposta da criadora perante um mundo, ameaçadoramente acomodado sob alguns aspectos, em que ter a coragem de arriscar constitui um mérito inegável.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 

 
 

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 Exposição Balé de Corpos 

fotografia e encáustica 2006

Anna Donadio

 

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