Anna
Donadio
A coragem de arriscar
A
mescla de técnicas sempre é fascinante. Proporciona novas
oportunidades de desenvolvimento de linguagens e envolve todo um
processo de combinações plásticas que pode trazer bons resultados.
Nesse contexto, o trabalho de Anna Donadio desperta interesse
justamente pela forma como utiliza duas técnicas paralelas.
Intitulada
“Balé de corpos”, a exposição realizada na Area Artis, em São
Paulo, SP, em setembro de 2006, se dá pelo uso justamente de dois
processos. De um lado, se vale da fotografia como ponto de partida
para construir as imagens. De outro, a pintura com encáustica leva a
um processo de desconstrução desse mundo e a um trabalho em que as
cores têm um papel essencial.
Enquanto a fotografia, cujo nome provém
do grego, significando
“escrita da luz”, foi, inicialmente, entendida como registro fiel
da realidade, passando a ter seu potencial transformador explorado
pouco a pouco, a encáustica (do grego egkaustiké,
que significa “queimado”) trata-se de uma técnica de pintura, na
qual o artista mistura cores em uma cera aquecida e derretida.
A
cera é aplicada na superfície a ser pintada e, como é de secagem rápida,
é possível usar uma lâmpada ou outra fonte de calor sob o suporte
da pintura para amaciar a tinta de cera, permitindo que o pintor
obtenha vários efeitos de cor e textura. Muito usada desde o século
V a.C. até o século IX., foi utilizada, por exemplo, em retratos de
múmias.
Anna
Donadio alcança resultados mais intensos quando realiza sua pesquisa
de cor com tons mais suaves. Pelo processo técnico de construção
visual utilizado, as sutilezas e véus oferecem melhores condições
de observação de um trabalho plástico voltado justamente para a
pesquisa e para um sucessivo desmanchar a ilusão de realidade que a
fotografia comporta para atingir um clima onírico, mas onde a forma
de corpos ainda se faz presente.
O
desmanche dessa referência concreta é uma possibilidade plástica a
ser aprofundada. Um dos poderes da encáustica está exatamente no seu
processo de atingir resultados plásticos surpreendentes de acordo com
a capacidade de cada artista de desvendar a possibilidade do material.
O
movimento de corpos femininos captado por Anna Donadio encanta pela
investigação cromática e pela coragem de propor um balé de
movimento em cada obra. Quanto maior a delicadeza de trabalho
produzido, mais a riqueza das mescla das técnicas utilizadas se
sobressai como resposta da criadora perante um mundo, ameaçadoramente
acomodado sob alguns aspectos, em que ter a coragem de arriscar
constitui um mérito inegável.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra
a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção
Brasil).