por Oscar D'Ambrosio


 

 


Angerami: muito mais que marinhas

 

Quando se observa o trabalho do artista plástico Evandro Angerami, tem-se a primeira impressão de que se está perante um conjunto de marinhas. Trata-se apenas de uma visão apressada. O que se encontra ali é pintura. E ela não está só. Vem repleta de expressividade, lirismo e espiritualidade.

Não se trata de uma experiência mística no sentido de propiciar o acesso a um portal que leva a outro mundo, mas sim no aspecto de constituir um exercício plástico infinito, uma pesquisa para toda a vida em busca das respostas que suportes, tintas e materiais darão às perguntas do artista.

Prestes a embarcar para realizar uma pós-graduação no EUA, Angerami oferece o que tem de melhor. Suas paisagens foram enriquecidas, em 2007, pelo uso cada vez mais consciente dos brancos. Seja nos trabalhos in loco, em locais como Praia Grande, SP, ou Salvador, BA, realizados no ateliê ou iniciados ao vivo e desenvolvidos posteriormente na Capital.

O artista começou conhecendo o céu, passou depois para as nuances do mar e se debruça, nos trabalhos mais recentes, na areia, em suas texturas, planos e movimentos. O resultado revela um pesquisador nato, que descobriu no ato de pintar ao vivo uma forma de aprimorar a técnica e de namorar o objeto sob sua visão.

Por mergulhar intensamente nas marinhas, Angerami consegue imagens que perdem o caráter local. Tornam-se universais não por poderem estar em qualquer lugar, mas por serem fruto de uma percepção que as coloca dentro de cada um de nós. Assim, deixam de ser marinhas e passam a ser fenômenos pictóricos de pinceladas, relevos, volumes e texturas de um artista que enfrenta tanto a chuva para pintar na praia como o preciosismo técnico do ateliê na escolha dos materiais.

Angerami parte do conhecimento do ver e do pintar para o fazer. Trata-se de uma ação progressiva em que esses três fatores vão se intercalando e cruzando em nome de uma prática artística consciente e perturbadora. As marinhas não são só marinhas. São expressões da natureza universal e local. Incorporam o gesto do artista inserido em seu espaço-tempo e apontam para pesquisas futuras com desdobramentos ainda incertos, mas certamente instigantes.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

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