por Oscar D'Ambrosio


 

 


André Louzas

 

Universo de reflexões

 

            “Disse Deus: ‘Haja luz’; e houve luz”. Essa frase bíblica, presente em Gênese, 1,3, devia ser o lema de todo fotógrafo. Afinal, o que seria dos devotos dessa arte sem a existência da luz e da cor, com nuances e variações infinitas que criam amálgamas de significados?

            Apresentado pelo fotógrafo e jornalista André Louzas em sua dissertação de mestrado em multimeios Cidade – floresta de índices, no Instituto de Arte da Universidade de Campinas (Unicamp), o conjunto de 30 fotos aqui enfocado tem a cidade de São Paulo como eixo central, constituindo-se justamente um ato de devoção à imagem e à luz.

Orientado pelo docente Roberto Berton de Ângelo, o trabalho foi exibido na Galeria de Arte Unicamp/ Instituto de Artes, entre os meses de fevereiro e março de 2004 e oferece uma visão sensível de variações imagéticas, muitas vezes inusitadas, mas sempre marcadas pela capacidade de captar o detalhe.  

            A arte fotográfica de Louzas se vale da reflexão, entendo-se o termo em seus dois sentidos principais. Por um lado, ela se vale ludicamente daquilo que a física considera os desvios que as ondas de luz sofrem em sua trajetória ao incidirem sobre uma superfície. Por outro, estimula o pensamento do espectador quanto ao que significa morar numa grande cidade como São Paulo.

            Nesse sentido, uma das principais imagens de Louzas é da Avenida Paulista marcada pelos reflexos dos transeuntes na entrada de uma estação de metrô. Saída de um filme de Godard, principalmente da estética delicada e plena de sombras de Alphaville, oferece uma visão complexa da mais caótica e fascinante das avenidas paulistana.

Imagens como uma estátua viva frente a um painel pichado e a escuridão da entrada das escadarias do metrô contrastando com a luminosidade da avenida mostram como São Paulo apresenta dissonâncias de um concerto barroco, entendo-se este como um todo harmônico em que os opostos se atraem, namoram e se separam às vezes de maneira brusca.

O jogo proposto por Louzas encontra talvez a sua mais expressiva realização estética na foto de um pipoqueiro no Parque do Carmo. Trata-se de um autêntico labirinto imagético que deixa o espectador tonto, pela riqueza e variedade de informações, e, por isso, fascina desde o primeiro instante.

            Contudo, certamente não é nessa busca de índices, reflexos e signos que está o melhor da poética visual do fotógrafo. É nos instantes de maior introspecção e delicadeza que aflora um rico universo de sutilezas e emoções poéticas que cativam mais pela sensibilidade do que pelo rigor técnico.

            Estão nesse rol de fotografias com alto efeito transformador em quem as vê as imagens de poéticas árvores e seus jogos de luz, assim como a tênue fumaça saindo de uma churrasqueira evocam a passagem do tempo e as certezas de que o ser humano, esteja ou não consciente disso, convive com duas forças impossíveis de serem esquecidas: o poder esmagador da natureza, seja em sua beleza ou em suas facetas mais violentas, e a própria efemeridade. 

Não por coincidência, é no bairro do Paraíso que foi feita a foto de uma poça de água que reflete uma construção civil. Será o local sagrado apenas um reflexo de uma realidade ainda a conhecer ou apenas a deformação imagética e onírica de algo que já existe e não temos capacidade de reconhecer?

Mais do que um mero jogo de palavras, essa indagação traz à tona questões de cunho existencial e social que surgem das imagens de Louzas. É impossível ficar inerte, por exemplo, ao contemplar a foto de um sem-rua tapado por um cobertor colorido embaixo do Viaduto conhecido como Minhocão.

A riqueza de cores da imagem e a alegria que, de certo modo, ela transmite é abafada pela denúncia enunciada. Todavia, o resultado estético é de tal modo poderoso, que a passividade não é sequer uma possibilidade. A foto incita ao movimento e ao posicionamento, se não for social, ao menos estético. 

            E beleza é o que não falta nas imagens do Parque do Ibirapuera. O universo de rappers e skatistas embaixo da marquise ganha força, assim como a sublime idéia de transformar as pétalas de flores sobre um pára-brisa em imagem misteriosa e quase surrealista.

            Luzes, sombras, bicicletas e os vidros da célebre Oca, numa imagem que parece saída de um filme de ficção científica, graças às linhas arquitetônicas do edifício e à forma como ele foi tratado imageticamente pelo fotógrafo, apontam para uma conclusão: São Paulo, ao contrário do que muitos pensam é, sim, uma bela cidade.

O desafio é saber revela-la por palavras e lentes. Louzas se vale bem destas últimas. Um exemplo claro está no resultado do trabalho desenvolvido no Memorial da América Latina. O local é visto como centro de pesquisa intelectual e como um universo de rara riqueza urbanística, onde as paredes podem ser objeto de sombras fantasmagóricas e perturbadoras.   

            Pichações no bairro do Cambuci e imagens de solidão do presídio do Carandiru derrubado, um mundo de violência repleto de histórias que ali passaram e se perderam, têm em comum a sensação de que eterno retorno pode não existir. Sem registros fotográficos sensíveis, as impressões nas paredes desses dois locais desaparecem – e quem garante que voltarão a ocorrer? E se isso acontecer, não há dúvida que a manifestação será bem diferente.

            Em contraste a essas imagens mais densas, as realizadas no Parque da Aclimação, como uma bola colorida que reflete o céu e uma garça junto a um lago atestam a já mencionada poeticidade de Louzas. Trazem, no entanto, um acréscimo. Surge nelas uma esperança.

            A imensidão do céu na bola colorida, logo associada ao mundo infantil, une-se à fragilidade da ave, pois parece incrível que suas patas, aparentemente dois gravetos, sustentem o seu peso. Se o fotógrafo, portanto, tinha em mente, ao longo do seu trabalho, a questão dos reflexos, encontrou nestas duas fotos algo mais: recuperou a capacidade humana de pensar sobre si mesmo, fator que, aliás, nos diferencia dos outros seres vivos.

            Nessa mesma linha, podem ser inseridas as imagens do Horto Florestal. As árvores e as argolas do parque infantil, em sua verticalidade, remetem ao lúdico, mas também ao esforço de atletas de ginasta olímpica nessa modalidade esportiva. Esse é o talento de Louzas: criar uma dinâmica tensa mesmo nas imagens aparentemente mais ingênuas.

Algo semelhante ocorre na imagem pueril do trenzinho que percorre pelo Horto caminhos imensos para as crianças. A jornada que hoje parece longa para elas logo será parte de um passado, pois o virar das folhas do calendário leva à expansão de fronteiras rumo a um futuro pleno de sonhos. 

            E se falamos em tensões, a maior é a da pomba parada próxima ao já mencionado Viaduto conhecido como Minhocão. Lá está ela, estacionada, num dos locais de maior movimento da cidade. Mais uma indagação surge do trabalho de Louzas: quem não deveria estar na foto: a ave ou a via urbana?           Qual delas torna-se inadequada e estimula o conflito?  

            Esse questionamento ressurge na poluição visual do Brooklin Paulista. Por mais condenável que ela possa parecer, a imagem de Louzas revela encanto estético. Será que São Paulo tem tanto poder que consegue transformar o aparentemente feio em fascinação lingüística? Mérito do fotógrafo ou ato falho de todo aquele que ama a cidade em que mora?   

            No ato I de Trabalhos de amor perdidos, Shakespeare escreveu que “A luz, buscando a luz, desvia a luz da luz”. Analogamente, André Louzas, neste conjunto de imagens, buscando os índices, desviou-os, indicando caminhos que estão além da semiótica e da academia.

            O nome André, que vem do latim Andréas, significando “viril ou varonil”, indica justamente o que a sua obra de fotógrafo revela: um trabalho robusto, pensado, mas sensível; racional, mas pleno de delicadeza; fiel às normas universitárias, mas pleno de sentimento.

            Edith Wharton, em Vesálio em Zante, afirma que “Há duas maneiras de espalhar luz: ser/ A vela ou o espelho que a reflete”. André Louzas cria com o poder iluminador de uma vela e reflete sobre o que vê com uma mente alerta que mescla poesia e filosofia. Assim suas, fotos lançam um olhar muito próprio sobre São Paulo, numa declaração de amor que a universidade aprova e que os observadores, encantados, agradecem.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho e Contando a arte de Maroubo (Editora Noovha América) e  Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

 

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