André
Albuquerque
A
aparente arte de pintar retratos
Quem
observa as pinturas de André Albuquerque pode achar que ele
pinta retratos deformados de cunho expressionista e que a sua
arte se aproxima da de Francis Bacon. Embora esses comentários
sejam, em parte identificáveis, eles escondem o verdadeiro
motivo e tema dos quadros do artista.
Albuquerque
fala de pintura. Muito mais importante do que as pessoas
retratadas, muitas vezes reais, como o poeta Baudelaire, o filósofo
Wittgenstein ou o escritor Dostoiésvsky, sua arte expressa o
desejo de escavar com o pincel e a tinta a tela, num trabalho físico
que gera figuras agoniadas, que apontam às vezes para o mestre
norueguês Munch.
Referências
à parte, o jovem artista, com 32 anos, nascido em Caieiras, SP,
formou-se em mecânico de locomotiva pelo Serviço Nacional de
Indústria (Senai) e trabalhou como mecânico de empilhadeira.
Inicialmente, buscou na escrita a válvula de escape de uma cabeça
fervente de idéias.
Em
1993, ao ler uma reportagem sobre a morte do pintor inglês
Bacon, ficou fascinado, não tanto inicialmente pela obra, mas
sim pela vida daquele artista que, autodidata, descobriu nos
quadros uma profunda relação com o mundo. Quem só vê neles a
transformação de corpos e rostos, perde o trabalho de pintura
magistral ali existente.
Albuquerque,
a partir daquele instante, sentiu que ele podia trilhar o
caminho das artes plásticas. Freqüentou ateliês para ter o
primeiro contato com tintas e pincéis, mas logo quis vislumbrar
a própria estrada. Encontrou no desenho do corpo um novo olhar.
Daí sua fascinação por artistas como Bacon e Lucien Freud,
ingleses que tratam o figurativo com uma originalidade marcante.
Se
os rostos do artista paulista causam impacto logo à primeira
vista, sejam em formatos maiores ou menores, isso se deve,
principalmente nos melhores trabalhos, à maneira como essas
figuras são trabalhadas de modo a tornar a imagem o testamento
de uma alma.
Wittgenstein
é um filósofo reconhecidamente brilhante pela capacidade que
teve de montar um sistema de pensamento para desconfigurá-lo em
seguida e colocar outro no lugar. Ele ofereceu a escada para ver
atrás do mundo e a retirou em seguida. Guardadas as proporções,
Albuquerque nos faz ver rostos para que nos iludamos e deixemos
de lado o que mais importa: a forma como os pinta.
No
ato de escavar a tela e construir a sua figura desmontando
retratos, observa-se um pintor visceral que, nos próximos anos,
tem tudo para levar essa mesma técnica para espaços maiores,
trabalhando com conjuntos de corpos ou outras imagens. Nesse
processo, cada vez ficará mais claro que seu tema é a lucidez
criativa da própria pintura.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo
Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte
(AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a
arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp
e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).