por Oscar D'Ambrosio


 

 


A natureza em batik

 

            O Oriente é o mundo da luz. Não é uma arbitrariedade que lá nasça o sol e uma das técnicas artísticas mais interessantes e infelizmente pouco valorizadas no Ocidente: o batik. Originário de uma palavra malaia, é uma técnica de tingimento que consiste em aplicar, num tecido, uma base de cera ou outros tipos de pasta,  cobrindo o negativo de um desenho previamente escolhido. Depois, tinge-se a peça, e a tinta impregna as partes onde não há cera, reproduzido-se o desenho positivo.

            De 10 a 29 de novembro de 2005, o Espaço Cultural Banco Central do Brasil, em São Paulo, promove a exposição “A natureza em batik”, em homenagem à professora japonesa Kazuko Tanaka, mestre do gênero Roketsu-zome, que utiliza a cera como base. Ela se dedica à técnica desde 1954 e três anos depois, primeiro no Rio de Janeiro e, depois, em São Paulo, passou a ministrar aulas.

            A exposição junta trabalhos da mestre e das aulas – e não há como não prestar essa reverência. O trabalho de Kazuko em que uma fabulosa imagem surge em forma de espiral com tons de vermelho e amarelo é uma obra digna de entrar em qualquer catálogo de artes plásticas universal como símbolo do poder da arte de expressar uma visão de mundo.

            Alice Yokote, por sua vez, valoriza a cor nas suas visões de plantas e de uma onça, valendo-se da técnica com delicadeza, enquanto Bia Simões trabalha com habilidade o formato vertical para mostrar aves brasileiras, como uma garça, sempre com lirismo e grande respeito à mãe-natureza.

            Francisca do Val atinge grande poeticidade na representação da natureza pela forma como trabalha os tons de verde, enquanto Rose do Val se vale de cores mais fortes para mostrar como a arte pode partir da realidade e devolvê-la ao observador sempre de maneira renovada.

            Yumiko Tomida e Marina Martinelli revelam seu talento de maneiras quase antagônicas e, por isso mesmo, complementares. A primeira tem toda a sutileza do Oriente na forma como combina as cores e se vale da verticalidade para obter recursos plásticos que encantam logo no primeiro olhar.

            Marina expande a cor com largos gestos de manchas que, ao gosto ocidental, seguem os passos de Kazuko no poder imagético que propiciam. Observar seu trabalhos exige calma, pois o impacto visual gera uma espécie de paralisia e um agradável bloqueio do pensar para penetrar na esfera do sentir.

            Nesse sentido, a mestre Kazuko, a discípula Marina e o conjunto dos trabalhos da exposição propiciam a oportunidade de conhecer melhor a técnica ancestral do batik, um universo regido pela luz, pela leveza e pela capacidade de aprender com os mestres para, a partir do conhecimento deles, construir o próprio caminho.             

 

             Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

 

 

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