Ana
Maria Dias
A arte da harmonia
Tranqüilidade, otimismo e amor
são os principais temas da obra da pintora Ana Maria Dias. Olhar
o seus quadros é penetrar em um mundo de sossego em que tudo
parece possível, sem problemas ou dificuldades a serem vencidas.
Os bons sentimentos predominam e o ser humano se integra à
natureza.
Filha de um pai
português que veio da cidade do Porto aos 11 anos e de uma mãe
filha de lusos da região de Coimbra, Ana Maria Dias nasceu na
cidade de São Paulo, em 1945. Como amigos da família tinham um sítio
chamado Calimã, em Porto Feliz, interior do Estado de São Paulo,
os pais dela compraram, na década de 1950, uma terra na região.
Isso foi
decisivo para a vida e para a carreira artística de Ana Maria.
Ela e o irmão tiveram uma infância maravilhosa em Porto Feliz,
localizada às margens do Rio Tietê. Por um lado, a mãe lia
fascinantes histórias da mitologia grega, alimentando o imaginário
daquelas crianças. Por outro, uma vizinha, Dona Henriqueta, fazia
flores de tecido, seda e organdi, despertando na futura artista as
primeiras noções de cor, forma e equilíbrio.
Para completar,
havia em Porto Feliz da época um ambiente favorável ao contato
direto com a natureza. No pomar, mangas, pêssegos e goiabas eram
abundantes, não havendo melhor recordação da infância do que a
vivência com a simplicidade das pessoas do interior e com os mais
diversos tipos de frutas e colheitas.
Ana Maria fez o
curso primário e a Escola Normal, que a habilitava a dar aula, em
Porto Feliz. Uma das marcas dos primeiros anos de ensino são os
diários de uma professora, Dona Violeta Arruda Melo Mota, que
estavam repletos de caprichados desenhos. Achava aquilo lindo e
provavelmente foi um dos motivos que a levou a estudar para ser
professora. Posteriormente, as imagens de sua cidade se
transformaram em telas que retratam do simples vendedor de frutas
à comunidade de uma vila de bananeiros.
Foi na Igreja
Matriz Nossa Senhora Mãe dos Homens, de Porto Feliz, na década
de 1960, que Ana Maria se casou com o seu primeiro marido. Ficou
na cidade, que ainda considera como principal fonte de sua
pintura, até o início da década de 1970, quando seu pai faleceu
e a família se mudou para Sorocaba, SP.
Ana Maria que
tinha exercido diversas funções em escolas de Porto Feliz, teve
então a oportunidade de exercer um talento que já tinha, mas que
estava adormecido. Uma vizinha que gostava de seus desenhos
sugeriu que os aproveitasse como estampas para tecidos.
O êxito foi rápido.
Suas estampas, presentes em lençóis, lançados na Fenit, em
1972, ganharam muitos elogios e venderam muito bem. Ana Maria então
continuou desenhando para esse fim, conquistando espaço nas indústrias
da área, que queriam oferecer aos seus clientes desenhos
criativos e coloridos.
A pintura
surgiu quase por acaso. Em 1973, por sugestão da amiga Maria
Lizete Cabral de Melo Azevedo começou a levar para a tela, em
tinta acrílica, imagens que povoavam a sua infância em Porto
Feliz. Foi o que fez no primeiro quadro, que logo foi publicado
numa revista de decoração. Surgiu daí uma obra marcante,
repleta de cores.
Uma das
principais inspirações de Ana Maria nesse início de carreira
foi a convivência com um grupo de cozinheiras negras que moravam
perto da sua casa em Porto Feliz. Elas participavam de diversos
movimentos da Igreja e promoviam grandes festas populares, que boa
parte da cidade freqüentava.
As quituteiras
preparavam pratos maravilhosos e realizavam divertidíssimas
apresentações teatrais. Todo esse universo de alegria está até
hoje presente nas imagens que Ana Maria pinta, que mostram um
universo pleno de luzes intensas, em que não há espaço para a
tristeza.
As colheitas,
por exemplo, estão muitas vezes presentes, sendo a principal
delas a de cana, já que, na região, havia muitos engenhos, que
preparavam a garapa, bebida feita a partir da cana além de
alambiques que produziam pinga. Esse mundo dos agricultores surge
numerosas vezes, sempre com extrema delicadeza e detalhe.
Cada tela de
Ana Maria demora cerca de 15 dias para ficar pronta exatamente
pelo amor aos mínimos efeitos de luz e à devoção na criação
de cada figura. Sem realizar esboços, a artista cria uma tela de
cada vez com o mesmo cuidado que se gesta um filho. Os detalhes vão
surgindo pouco a pouco até que a imagem final se concretize.
Uma das cores
preferidas da artista é o amarelo, principalmente nas colheitas
de trigo e nas representações em que surgem maravilhosos girassóis
luminosos, que preenchem as telas, sendo manifestações visuais
da intensa da vontade de viver da artista, evidente em suas
luminosas telas.
Outra imagem
bastante freqüente é a de pescadores à margem de rios ou
pescando com tarrafa, pequena rede de pesca, guarnecida de chumbo
nas bordas, que se lança à mão. O que mais impressiona é o número
de detalhes. Cada folha é feita com perfeição, encantando o
observador. Igualmente atraente é o reflexo realizado pela
artista sobre as águas. Além de domínio técnico e das cores,
essas imagens tem um efeito extremante agradável e relaxante,
muitas vezes com a presença de belas orquídeas.
Também há
colheitas de outros produtos, como cacau, café, algodão e trigo.
O horizonte surge com toda força em tons de azul, aparecendo
ainda uma igreja e a imagem de trabalhadores no campo, geralmente
negros envolvidos nas mais variadas tarefas.
O
cotidiano de Porto Feliz é uma presença constante na obra de Ana
Maria Dias. Pessoas indo ou voltando da feira, lavadeiras e o trem
da Estrada de Ferro Sorocabana passando pela cidade são algumas
das temáticas da artista. Os caminhos de terra surgem em meio a
uma vegetação aprazível, paradisíaca, em que a harmonia sempre
predomina. Surgem também vaqueiros trazendo o gado do pasto e
crianças brincando com pipas.
O
vínculo sentimental de Ana Maria com Porto Feliz ainda é muito
forte, embora more há três décadas na Capital paulista. Lá foi
enterrado o seu pai e estão muitos de seus amigos. Isso sem
contar as numerosas lembranças, que vêm à tona de diversas
formas, mas sempre com criatividade, equilíbrio e delicadeza.
Até
o presépio, nas mãos de Ana Maria Dias, ganha uma nova conotação.
Ela o coloca no universo do interior paulista com muita singeleza.
A estrela de Belém surge na parte superior da tela ao centro e os
reis magos são substituídos por portofelicenses que vão, em
seus trajes simples e coloridos, homenagear o Menino Jesus.
Com uma filha,
Adriane Sandano, que se dedica à arquitetura efêmera, ou seja, a
construção de ambientes para grandes eventos que são
desmontados logo após o término, Ana Maria Dias é uma mulher
feliz com a sua arte, que teve um grande impulso com a primeira
individual organizada por ela mesma no Museu da Casa Brasileira,
em São Paulo, em 1980, passando depois a expor em diversas
galerias, sendo classificada como artista naïf.
Desde a época
em que morava em Porto Feliz, fazendo até teatro de fantoches, até
hoje, Ana Maria Dias se mantém fiel à própria arte, mantendo o
espírito livre e a criatividade acessa. Uma de suas marcas é
colocar nas telas um ou mais cachorrinhos brancos, que mostram o
lugar em que ela gostaria de estar na cena que pinta.
Seja no
retratar as mais diversas plantações ou na busca de lembranças
de sua infância passada em Porto Feliz, as telas de Ana Maria
Dias apresentam a construção de um mundo todo especial. O branco
dos algodoais e a relação entre o amarelo de trigo e o colorido
das flores nos colocam perante uma artista que torna toda obra de
arte um instante de mergulho profundo na alegria de viver.
Uma fascinação
da artista são os galos. Além de pintá-los em pequenas telas
que oferece aos amigos, eles também estão presentes em algumas
de suas obras, com um colorido forte e uma maestria técnica admirável.
Enquanto a ave expressa o seu prazer cantando, Ana Maria mostra o
seu amor à criação na preocupação com os detalhes mais ínfimos
de suas telas, num processo de contínua pesquisa estética e de
uso encantador das tintas e pincéis, em tons vívidos que criam
atmosferas paradisíacas.
Para o crítico
de arte Luiz Ernesto Kawal, a pintora “porta em si a graça, a
beleza e a ingenuidade em estado natural puro, guardando da infância
passada no interior, Porto Feliz, a marca lúdica que a faz
voltada para a simplicidade e o burburinho da nossa autêntica
cultura”. “As telas de Ana Maria Dias tornam-se elementos
documentais da vida”, completa o também crítico Jorge Anthonio
da Silva.
Com amor à
arte, otimismo de criança e capacidade inesgotável de
estabelecer universos onde não há estresse ou nervosismo, mas
tranqüilidade e harmonia, Ana Maria Dias se firma como uma referência
importante na pintura brasileira, principalmente na chamada arte
naïf.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de
Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando
a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora
Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).