por Oscar D'Ambrosio


 

 


Ana Maria Dias

 

            A arte da harmonia

 

            Tranqüilidade, otimismo e amor são os principais temas da obra da pintora Ana Maria Dias. Olhar o seus quadros é penetrar em um mundo de sossego em que tudo parece possível, sem problemas ou dificuldades a serem vencidas. Os bons sentimentos predominam e o ser humano se integra à natureza.

            Filha de um pai português que veio da cidade do Porto aos 11 anos e de uma mãe filha de lusos da região de Coimbra, Ana Maria Dias nasceu na cidade de São Paulo, em 1945. Como amigos da família tinham um sítio chamado Calimã, em Porto Feliz, interior do Estado de São Paulo, os pais dela compraram, na década de 1950, uma terra na região.

            Isso foi decisivo para a vida e para a carreira artística de Ana Maria. Ela e o irmão tiveram uma infância maravilhosa em Porto Feliz, localizada às margens do Rio Tietê. Por um lado, a mãe lia fascinantes histórias da mitologia grega, alimentando o imaginário daquelas crianças. Por outro, uma vizinha, Dona Henriqueta, fazia flores de tecido, seda e organdi, despertando na futura artista as primeiras noções de cor, forma e equilíbrio.

            Para completar, havia em Porto Feliz da época um ambiente favorável ao contato direto com a natureza. No pomar, mangas, pêssegos e goiabas eram abundantes, não havendo melhor recordação da infância do que a vivência com a simplicidade das pessoas do interior e com os mais diversos tipos de frutas e colheitas.

            Ana Maria fez o curso primário e a Escola Normal, que a habilitava a dar aula, em Porto Feliz. Uma das marcas dos primeiros anos de ensino são os diários de uma professora, Dona Violeta Arruda Melo Mota, que estavam repletos de caprichados desenhos. Achava aquilo lindo e provavelmente foi um dos motivos que a levou a estudar para ser professora. Posteriormente, as imagens de sua cidade se transformaram em telas que retratam do simples vendedor de frutas à comunidade de uma vila de bananeiros.

            Foi na Igreja Matriz Nossa Senhora Mãe dos Homens, de Porto Feliz, na década de 1960, que Ana Maria se casou com o seu primeiro marido. Ficou na cidade, que ainda considera como principal fonte de sua pintura, até o início da década de 1970, quando seu pai faleceu e a família se mudou para Sorocaba, SP.

            Ana Maria que tinha exercido diversas funções em escolas de Porto Feliz, teve então a oportunidade de exercer um talento que já tinha, mas que estava adormecido. Uma vizinha que gostava de seus desenhos sugeriu que os aproveitasse como estampas para tecidos.

            O êxito foi rápido. Suas estampas, presentes em lençóis, lançados na Fenit, em 1972, ganharam muitos elogios e venderam muito bem. Ana Maria então continuou desenhando para esse fim, conquistando espaço nas indústrias da área, que queriam oferecer aos seus clientes desenhos criativos e coloridos.

            A pintura surgiu quase por acaso. Em 1973, por sugestão da amiga Maria Lizete Cabral de Melo Azevedo começou a levar para a tela, em tinta acrílica, imagens que povoavam a sua infância em Porto Feliz. Foi o que fez no primeiro quadro, que logo foi publicado numa revista de decoração. Surgiu daí uma obra marcante, repleta de cores.

            Uma das principais inspirações de Ana Maria nesse início de carreira foi a convivência com um grupo de cozinheiras negras que moravam perto da sua casa em Porto Feliz. Elas participavam de diversos movimentos da Igreja e promoviam grandes festas populares, que boa parte da cidade freqüentava.

            As quituteiras preparavam pratos maravilhosos e realizavam divertidíssimas apresentações teatrais. Todo esse universo de alegria está até hoje presente nas imagens que Ana Maria pinta, que mostram um universo pleno de luzes intensas, em que não há espaço para a tristeza.

            As colheitas, por exemplo, estão muitas vezes presentes, sendo a principal delas a de cana, já que, na região, havia muitos engenhos, que preparavam a garapa, bebida feita a partir da cana além de alambiques que produziam pinga. Esse mundo dos agricultores surge numerosas vezes, sempre com extrema delicadeza e detalhe.

            Cada tela de Ana Maria demora cerca de 15 dias para ficar pronta exatamente pelo amor aos mínimos efeitos de luz e à devoção na criação de cada figura. Sem realizar esboços, a artista cria uma tela de cada vez com o mesmo cuidado que se gesta um filho. Os detalhes vão surgindo pouco a pouco até que a imagem final se concretize.

            Uma das cores preferidas da artista é o amarelo, principalmente nas colheitas de trigo e nas representações em que surgem maravilhosos girassóis luminosos, que preenchem as telas, sendo manifestações visuais da intensa da vontade de viver da artista, evidente em suas luminosas telas.

            Outra imagem bastante freqüente é a de pescadores à margem de rios ou pescando com tarrafa, pequena rede de pesca, guarnecida de chumbo nas bordas, que se lança à mão. O que mais impressiona é o número de detalhes. Cada folha é feita com perfeição, encantando o observador. Igualmente atraente é o reflexo realizado pela artista sobre as águas. Além de domínio técnico e das cores, essas imagens tem um efeito extremante agradável e relaxante, muitas vezes com a presença de belas orquídeas.

            Também há colheitas de outros produtos, como cacau, café, algodão e trigo. O horizonte surge com toda força em tons de azul, aparecendo ainda uma igreja e a imagem de trabalhadores no campo, geralmente negros envolvidos nas mais variadas tarefas.

O cotidiano de Porto Feliz é uma presença constante na obra de Ana Maria Dias. Pessoas indo ou voltando da feira, lavadeiras e o trem da Estrada de Ferro Sorocabana passando pela cidade são algumas das temáticas da artista. Os caminhos de terra surgem em meio a uma vegetação aprazível, paradisíaca, em que a harmonia sempre predomina. Surgem também vaqueiros trazendo o gado do pasto e crianças brincando com pipas.

O vínculo sentimental de Ana Maria com Porto Feliz ainda é muito forte, embora more há três décadas na Capital paulista. Lá foi enterrado o seu pai e estão muitos de seus amigos. Isso sem contar as numerosas lembranças, que vêm à tona de diversas formas, mas sempre com criatividade, equilíbrio e delicadeza.

Até o presépio, nas mãos de Ana Maria Dias, ganha uma nova conotação. Ela o coloca no universo do interior paulista com muita singeleza. A estrela de Belém surge na parte superior da tela ao centro e os reis magos são substituídos por portofelicenses que vão, em seus trajes simples e coloridos, homenagear o Menino Jesus.

            Com uma filha, Adriane Sandano, que se dedica à arquitetura efêmera, ou seja, a construção de ambientes para grandes eventos que são desmontados logo após o término, Ana Maria Dias é uma mulher feliz com a sua arte, que teve um grande impulso com a primeira individual organizada por ela mesma no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, em 1980, passando depois a expor em diversas galerias, sendo classificada como artista naïf.

            Desde a época em que morava em Porto Feliz, fazendo até teatro de fantoches, até hoje, Ana Maria Dias se mantém fiel à própria arte, mantendo o espírito livre e a criatividade acessa. Uma de suas marcas é colocar nas telas um ou mais cachorrinhos brancos, que mostram o lugar em que ela gostaria de estar na cena que pinta.

            Seja no retratar as mais diversas plantações ou na busca de lembranças de sua infância passada em Porto Feliz, as telas de Ana Maria Dias apresentam a construção de um mundo todo especial. O branco dos algodoais e a relação entre o amarelo de trigo e o colorido das flores nos colocam perante uma artista que torna toda obra de arte um instante de mergulho profundo na alegria de viver.

            Uma fascinação da artista são os galos. Além de pintá-los em pequenas telas que oferece aos amigos, eles também estão presentes em algumas de suas obras, com um colorido forte e uma maestria técnica admirável. Enquanto a ave expressa o seu prazer cantando, Ana Maria mostra o seu amor à criação na preocupação com os detalhes mais ínfimos de suas telas, num processo de contínua pesquisa estética e de uso encantador das tintas e pincéis, em tons vívidos que criam atmosferas paradisíacas.

            Para o crítico de arte Luiz Ernesto Kawal, a pintora “porta em si a graça, a beleza e a ingenuidade em estado natural puro, guardando da infância passada no interior, Porto Feliz, a marca lúdica que a faz voltada para a simplicidade e o burburinho da nossa autêntica cultura”. “As telas de Ana Maria Dias tornam-se elementos documentais da vida”, completa o também crítico Jorge Anthonio da Silva.

            Com amor à arte, otimismo de criança e capacidade inesgotável de estabelecer universos onde não há estresse ou nervosismo, mas tranqüilidade e harmonia, Ana Maria Dias se firma como uma referência importante na pintura brasileira, principalmente na chamada arte naïf.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).
 

 

 

 

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