por Oscar D'Ambrosio


 

 



Analice Uchôa

 

A mão que pinta o destino

 

O pintor Braque já afirmou que “em busca do destino a pessoa se descobre a si mesma”. Esse pensamento que contém uma mescla de autodeterminação com uma adequação aos caminhos que a vida leva cada um a percorrer pode ser aplicado à carreira da artista plástica autodidata Analice Uchôa, que se caracteriza pela maneira como integra fundo e figuras para obter o efeito plástico desejado.

Formada em psicologia, a paraibana Analice começou a desenvolver a sua habilidade criativa no artesanato, principalmente com casca de cajá. Em 1997, teve um sonho no qual se viu imersa num mundo de telas e inserida no mundo da arte. Posteriormente, uma tendinite, que deixa suas marcas até hoje, a fez percorrer os caminhos da pintura, na qual contou com o estímulo do seu primo, o pintor Carlos Djalma.

Inicialmente, as imagens feitas a partir da casca de cajá integravam as telas. Pouco a pouco, porém, foram deixando espaço apenas para o diálogo de Analice com as tintas. Cenas das praias paraibanas, de pessoas brincando no mar, de circos, de trilhas, de escadarias de igrejas, de São Francisco de Assis e de conjuntos urbanos são algumas das temáticas preferidas.

A principal característica estética da obra de Analice é a maneira como faz o fundo. Ela preenche a tela geralmente de uma cor e, depois, vai colocando outros elementos, muitas vezes casarios em linha reta, outras vezes em leve formato de círculo. As figuras surgem pequenas perante o fundo e, às vezes, são solucionadas esteticamente com poucos traços.

Festas populares, como o bumba-meu-boi, também integram esse universo pictórico em que cada figura criada é construída com esmero, na busca de um conjunto harmonioso e equilibrado. Em certas telas, surgem estranhamentos visuais que valorizam o trabalho como perspectivas inusitadas de laterais de igrejas ou edifícios, criando um atmosfera em que o real e o fantástico dialogam com naturalidade.    

O detalhe, porém, em que Analice revela o seu talento com maior intensidade é justamente num trabalho delicado no qual pequenas árvores, na verdade, fios de diversas cores, se intercruzam, estabelecendo uma dimensão colorida que torna as suas telas fascinantes. Esse recurso, à medida que se expande, dá aos trabalhos um interessante diferencial, que pode se tornar a sua marca registrada entre os artistas naïfs.             

O poeta italiano Petrarca, em seu Cancioneiro, dizia que “... No mundo/ Cada um tem sua ventura desde o dia em que nasceu”. O destino de Analice Uchoa, previsto num sonho, parece colocá-la cada vez mais em contato com o mundo da arte. Seu universo de cenas paraibanas ou de sutis São Franciscos está cada vez mais pronto a ganhar repercussão nacional e internacional, tanto pelo talento da artista como pelo seu esforço constante de divulgar a sua arte.  

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é Mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

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 A cidade

  acrílica sobre tela 85 cm x 60 cm - 1999

Analice Uchôa

 

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