por Oscar D'Ambrosio


 

 


Ana Camelo

 

            O universo das pontes

 

            Um dos grandes desafios das artes plásticas é verificar o que diferencia um criador dos outros. Essa preocupação se torna ainda mais importante no universo da arte naïf, onde o discurso rebuscado que permeia a arte conceitual precisa ceder espaço a um exercício de visualidade da obra de arte em si mesma.

            Nesse sentido, talvez a grande metáfora de Ana Camelo seja a ponte. Não se trata, porém, apenas, de pensar nela como a imagem de construções sólidas que ligam dois mundos. O conceito de ponte inclui, principalmente, a idéia de um diálogo entre aquilo que se vê e o que se deseja ver. É necessário, portanto, ter coragem para cruzar os limites que separam o seguro e conhecido do mistério e da incerteza.

            Professora de matemática e artista naïf, a criadora estabelece suas pontes regidas pela capacidade de inserir a fantasia no cotidiano e vice-versa. Isso significa abolir fronteiras rígidas e manter viva a capacidade de arriscar sempre, ou seja, não se acomodar perante as verdades consagradas da pintura.

            Ana, com seus óleos sobre tela, possibilita, a partir de uma imagem, atingir outros mundos. Não se trata de surrealismo, ou seja, do mergulho no onírico, mas da capacidade de captar o mágico no cotidiano. Existe aí um exercício de observação e sensibilidade que extrapola o ato de criar, pois se insere no dia-a-dia de ver o mundo como um teatro pleno de personagens variadas e emoções autênticas.

            Assim como um livro abre portas para um novo mundo, as pinturas de Ana criam universos próprios marcados por certas características, como a desproporção e a liberdade no uso da perspectiva. São recursos de grande valia para instaurar um mundo imaginário, por um lado, mas que, por outro, não perde o vínculo com o real.

            Conhecer os meandros da arte de Ana exige o desprendimento de padrões previamente estabelecidos e a abertura para conhecer um microcosmo em que não existem limites plásticos a não ser os estabelecidos pela própria artista em nome de uma coerência interna.

            Isso significa que, assim como ocorre em boa parte da arte naïf, a pintora consegue oferecer uma visão própria e diferenciada, com uma poética visual marcada pela predominância de elementos que muitas vezes passam despercebidos, como um bar numa esquina ou o simples ato de namorar, muitas vezes esquecido em nome da correria do mundo capitalista globalizado.

            O grande mérito da obra de Ana é justamente obrigar cada um de nós a parar para refletir sobre aquilo que está vendo, verificando como as imagens do artista se conectam com a verdade interior de cada observador.

            Ana Camelo proporciona a oportunidade cada vez mais rara de respirar em meio ao dinamismo contemporâneo. Suas pinturas estabelecem a ponte, o elo que muitas vezes falta entre a fantasia e a realidade aparente. Ao fazer isso, cria uma atmosfera especial, marcada por uma lírica em que a quebra dos cânones da pintura acadêmica é feita com significativo efeito plástico e amplo significado simbólico.  

                

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 
 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

 


Além do que se vê
óleo sobre tela
40x50 cm - 2004

Ana Camelo

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio