Ana
Camelo
O universo das pontes
Um dos grandes desafios
das artes plásticas é verificar o que diferencia um criador dos
outros. Essa preocupação se torna ainda mais importante no
universo da arte naïf, onde o discurso rebuscado que permeia a arte
conceitual precisa ceder espaço a um exercício de visualidade da
obra de arte em si mesma.
Nesse
sentido, talvez a grande metáfora de Ana Camelo seja a ponte. Não
se trata, porém, apenas, de pensar nela como a imagem de construções
sólidas que ligam dois mundos. O conceito de ponte inclui,
principalmente, a idéia de um diálogo entre aquilo que se vê e o
que se deseja ver. É necessário, portanto, ter coragem para cruzar
os limites que separam o seguro e conhecido do mistério e da
incerteza.
Professora
de matemática e artista naïf, a criadora estabelece suas pontes
regidas pela capacidade de inserir a fantasia no cotidiano e
vice-versa. Isso significa abolir fronteiras rígidas e manter viva
a capacidade de arriscar sempre, ou seja, não se acomodar perante
as verdades consagradas da pintura.
Ana, com
seus óleos sobre tela, possibilita, a partir de uma imagem, atingir
outros mundos. Não se trata de surrealismo, ou seja, do mergulho no
onírico, mas da capacidade de captar o mágico no cotidiano. Existe
aí um exercício de observação e sensibilidade que extrapola o
ato de criar, pois se insere no dia-a-dia de ver o mundo como um
teatro pleno de personagens variadas e emoções autênticas.
Assim
como um livro abre portas para um novo mundo, as pinturas de Ana
criam universos próprios marcados por certas características, como
a desproporção e a liberdade no uso da perspectiva. São recursos
de grande valia para instaurar um mundo imaginário, por um lado,
mas que, por outro, não perde o vínculo com o real.
Conhecer
os meandros da arte de Ana exige o desprendimento de padrões
previamente estabelecidos e a abertura para conhecer um microcosmo
em que não existem limites plásticos a não ser os estabelecidos
pela própria artista em nome de uma coerência interna.
Isso
significa que, assim como ocorre em boa parte da arte naïf, a
pintora consegue oferecer uma visão própria e diferenciada, com
uma poética visual marcada pela predominância de elementos que
muitas vezes passam despercebidos, como um bar numa esquina ou o
simples ato de namorar, muitas vezes esquecido em nome da correria
do mundo capitalista globalizado.
O grande
mérito da obra de Ana é justamente obrigar cada um de nós a parar
para refletir sobre aquilo que está vendo, verificando como as
imagens do artista se conectam com a verdade interior de cada
observador.
Ana
Camelo proporciona a oportunidade cada vez mais rara de respirar em
meio ao dinamismo contemporâneo. Suas pinturas estabelecem a ponte,
o elo que muitas vezes falta entre a fantasia e a realidade
aparente. Ao fazer isso, cria uma atmosfera especial, marcada por
uma lírica em que a quebra dos cânones da pintura acadêmica é
feita com significativo efeito plástico e amplo significado simbólico.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto
de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a
Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil).