por Oscar D'Ambrosio


 

 


A morte anunciada do Tupyexxx-mulder

 

É preciso admirar a coragem dos artistas plásticos que ainda acreditam na formação de grupos para mostrar o seu trabalho. Primeiro, porque, numa sociedade cada vez mais regida pelo capital e pelo individualismo, eles estão fadados a se dissolver mais cedo ou mais tarde. Segundo, porque artistas, em sua maior parte, têm um ego altamente desenvolvido que impede que um grupo dure muito tempo.

Nesse contexto, em que os grupos nascem condenados a se extinguir, seja pelas demandas do mercado ou pelas fraquezas dos indivíduos, a exposição do grupo Tupyexxx-mulder, na Mônica Filgueiras Galeria de Arte, de 18 de janeiro a 17 de março de 2007, em São Paulo , merece observação atenta. Estão ali sete artistas, cada qual com sua linguagem, expressa em dois trabalhos: um próprio e outro a partir de um mesmo suporte fornecido a todos os integrantes: um armário de banheiro.

Esse objeto – aquele que tem uma portinha com um espelho, que se abre para um universo de objetos de uso pessoal, como pasta de dentes, batom e um sem-número de possibilidades plásticas que integram principalmente o universo feminino – fornece uma boa pista do pensamento de cada artista do Tupyexxx-mulder.

Patrícia Kaufmann, por exemplo, apresenta, dentro do armário, uma boneca Barbie vestida como mulher fatal, toda em vermelho. O universo de sedução é reforçado pela ambientação. O uso da cor da paixão e do sexo predomina no fundo de um cenário com garrafas e pequenos espelhos. A pintura apresentada pela artista exalta sete silhuetas da boneca num fundo que trabalha com gamas de cor que vão do branco ao negro, passando por nuanças de cinza.

  Fernando Ribeiro se vale do armário de uma maneira mais tradicional, recheando-o com artigos de cuidado pessoal, como pasta de dente, escova, desodorante e perfume. O pensamento de cuidado com a beleza predomina. Já no outro trabalho, existe uma brincadeira mais ousada em que as figuras de Deus e do Diabo são contrapostas, vistas como extremos da relação que o ser humano pode ter do mundo, mais próximas ou distantes desses dois ícones de comportamento.

Beth Turkieniez trabalha com a idéia da Mona Lisa como ícone da beleza em seu armário. Ela surge com diversas possibilidades de visualização, pelo uso de um outro muito ligado à beleza: o espelho e as deformações que ele pode gerar. A transformação do mundo conhecido como real também se faz presente no outro objeto da artista na exposição: um sofá envelhecido, representação do poder perdido e das ilusões que podem estar embutidas em cada peça de mobília fora de moda e em cada viagem propiciada por calmantes e alucinógenos que podem tornar a Mona Lisa um objetivo de beleza ou um terrível ícone a devorar o ser humano, feito esfinge, com suas perguntas a indagarem o perplexo Édipo.

Elaine Gomes satiriza o mundo da beleza ao colocar, em seu armário, justamente um objeto cor-de-rosa típico do mundo da beleza. A caixa fechada aparece adornada com um paetê, prometendo uma sedução que nem sempre se realiza. Já na outra obra, apresenta um minimalismo que explora o espaço, mesmo levando em conta o pé direito baixo da galeria, com bastante segurança, mostrando que, geralmente, “menos sempre é mais”, ainda mais quando se fala de arte contemporânea, no sentido de expressões de nosso tempo que tem como preocupação principal a exploração das possibilidades dos mais diversos materiais.   

Isabelle Ribot, tanto em seu armário como em sua pintura, utiliza o recurso de trabalhar com diversas imagens. No primeiro, é um rolo de filme, grudado na porta do objeto, que chama a atenção do espectador, sequioso do desejo de observar o que cada fotograma possui e se existe ou não uma seqüência lógica. Na segunda, em grande formato no contexto da exposição, as cores ganham um papel preponderante. Os dois trabalhos têm, portanto, no ludismo um elemento fundamental.

Vera Giorgi recheou seu armário de comprimidos. Só o espelho permaneceu visível, talvez um alerta para a vaidade sempre presente no ser humano e para a dor de cabeça que dá lidar com o cotidiano e com o ato de cuidar da própria imagem. Seu outro trabalho, com uma estrutura visual que evoca as obras mais significativas da escultura de Frida Baranek, apresenta um emaranhado que contem pequenas fotos e outros diminutos objetos. Há ali uma recuperação do tempo passado que aprofunda o conceito de que talvez o melhor da arte de todos os tempos tenha nas memórias afetivas um ingrediente fundamental.

Fonthor, por sua vez, trabalha com a idéia de miniaturas dispostas no armário. Temos ali desde uma pequena imagem da Branca de Neve a numerosos outros objetos, que enfatizam o conceito de diversidade e de justaposição de elementos, a começar pela própria mesa na qual se apóia o armário, com cada pé feito com uma estrutura diferente. Toda essa diversidade encontra unidade na forma como é feita a composição, principalmente pelas cores utilizadas e pelo pensamento na forma de articular o espaço.

Quando se lê a ficha técnica bem-humorada do grupo, observa-se que o conjunto acaba por resumir boa parte da arte brasileira contemporânea.Tanto pela idade média, 48 anos,  como pelo conceito de mesclar artes visuais com física quântica, pois ambas nunca estiveram tão ligadas quanto em boa parte da produção que recheia as galerias da cidade.

A multiplicidade de profissões e as referências, que incluem Argentina, Brasil, Finlândia, França, Itália, Japão, Romênia e Uruguai, apontam aquilo que o grupo tem de melhor e de pior. Assim como o seu símbolo, alusão à Regra das proporções, de Leonardo da Vinci, associado a um cocar de índios nacionais, chinelos em pés de frente de lado e mãos deformadas, o humor e a diversidade se fazem presentes.

Justamente pela multiplicidade que o caracteriza o Tupyexxx-mulder tem tudo para não durar enquanto grupo. Seus principais talentos irão se multiplicar e outros de seus integrantes serão esquecidos. Alguns, se superarem as ameaças do próprio ego, podem se firmar e haverá os que não suportarão as desilusões de ser artista plástico ao sul do Equador.

Embora, como todo grupo, seu nascimento já comporte a própria morte anunciada, Tupyexxx-mulder merece ser visto como um berço de talentos a ser acompanhado nos próximos anos. À Darwin, haverá uma seleção natural que levará a uma futura avaliação daquilo que poderiam ter sido as principais características de um grupo que, pelo fato de existir, não pode ser ignorado e, pela sua presença, já anuncia uma morte, que, no entanto, não pode ser vista com pessimismo, mas sim como resultado natural de uma sociedade em que os indivíduos, para sobreviver, precisam gritar cada vez mais alto e tirar o pescoço para fora da mediocridade que ameaça dominar a arte nacional. 

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 



 

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