por Oscar D'Ambrosio


 

 


Amilton Damas

 

            Os jogos de Damas

           

O poeta Manuel Bandeira, em Carnaval, escreve: “A Dama Branca que eu encontrei,/Faz tantos anos,/ Na minha vida sem rei nem lei/ Sorriu-me em todos os desenganos”. Esses versos dizem muito da obra do artista Amilton Damas, pois, além do evidente jogo de palavras, existe na aproximação entre as palavras do escritor e as imagens do artista plástico o mesmo maravilhamento perante o cotidiano.

            Damas não trata da Dama Branca em seus trabalhos explicitamente, mas seu universo imagético, próximo ao expressionismo, mostra justamente personagens, em boa parte, desenganados com a existência. São seres marcados pela dor, mas, ao mesmo tempo, plenos de vida.

            O talento revelado desde cedo levou o artista a participar de numerosos salões, exposições individuais e coletivas no Estado de São Paulo e em Belém, PA. Nascido em Jacareí, SP, em 1º de abril de 1979, ele começou seus estudos em gravura, em 1995, na Oficina da Imagem da Secretaria Municipal de Educação de sua cidade natal e, graças ao incentivo do professor Ronaldo Alexandre de Oliveira desenvolveu o amor pela pesquisa de novos materiais, o aperfeiçoamento do desenho e a busca por análises cada vez mais profundas obra de arte.

            Instrutor de xilogravura da Casa da Gravura de Jacareí, Damas tem como matriz de seu trabalho a pesquisa cotidiana. Seus olhos captam tudo aquilo que está ao redor com filtros seletivos. Desse modo, desenvolveu séries de gravuras com detalhes do rosto de passageiros em ônibus, portões antigos, trancas e chaves. 

O artista percebe nessas pessoas e objetos dimensões inusitadas, principalmente quando trabalha com a extrema proximidade e o referencial concreto começa a desaparecer. Estamos então em frente a imagens que nos questionam, pois o mundo do dia-a-dia nos é re-apresentado sob uma nova perspectiva.

O espectador passa a vislumbrar o mundo sob um novo olhar, notando a beleza intrínseca das linhas e das composições dos mais variados objetos circundantes. Nesse sentido, o artista consegue dar uma lição de como a arte, a partir de sua capacidade de recriar o mundo, não necessita trabalhar com a complexidade dos referentes observáveis, mas sim com a riqueza da capacidade criativa e associativa.

            Os traços fortes plenos de movimento da maior parte de suas gravuras mostram pessoas geralmente em situações expressivas dinâmicas, ou seja, elas são colocadas com uma gestualidade facial muito próxima ao teatro. Os seres se apresentam solitários e marginais em sua humanidade densa e intensa.

Tramas gráficas aproximam as gravuras de Damas às de Livio Abramo, Lasar Segall e Osvaldo Goeldi, mestres da técnica. Sua obra, no entanto, tem características próprias, principalmente quando trabalha com imagens de meretrizes e marginais ao status quo. Elas surgem com vigor inusitado em traços de um estilo marcado pela capacidade de denúncia social e de desnudamento da humanidade do retratado.

Essa capacidade já podia ser vislumbrada nas primeiras obras de Damas, paisagens urbanas de Jacareí. Prédios e pessoas em movimento já denunciavam a inquietação de um jovem pleno de potencial expressivo. Suas imagens posteriores, como a série que lida com preconceitos, dá vida a mulheres ou drag-queens em tons intensos.

As figuras humanas trazem consigo temáticas sociais, mas em um engajamento ingênuo. O artista trata as damas da noite com um respeito quase solene, com uma irreverência mesclada com uma dose certa – e rara na arte contemporânea – de domínio técnico. Isso não significa uma arte gélida e distante do observador, mas sim produções em que a capacidade de criar trabalha lado a lado com o domínio do meio escolhido para  expressar a própria visão de mundo.

Premiado no Salão de Arte Contemporânea de Jacareí, SP, em 1997, com um júri formado por Arcângelo Ianelli, Jacob Klintowitz, Hermelindo Fiaminghi, Renina Katz e Olívio Tavares de Araújo; 7º Salão de Arte Contemporânea de São Bernardo do Campo, SP, em 1998, avaliado por Jacob Klintowitz, Emanoel Araújo e Nuno Ramos; e Panorama de Artes Visuais, em Bauru, SP, em 2002, julgado por Enock Sacramento e Sara Goldman-Belz, Amilton Dantas não se acomoda enquanto criador. Busca novos meios de levar a sua mensagem estética e, para isso, anda por Jacareí com um caderno de onde saem esboços que serão convertidos em  imagens que mesclam os traços fortes da gravura às cores da pintura.

            A arte de Amilton Damas propicia uma dupla descoberta interior. Por um lado, ele se auto-descobre e atinge, após um intenso processo criativo de construção da própria visualidade, um resultado estético muito forte em termos de inquietação artística e social. Por outro, o observador é mobilizado pela capacidade do artista de descobrir novas dimensões espaciais e estéticas numa porta antiga, numa prostituta ou numa cena de personagens marginalizados à sociedade de consumo.

            Damas, que inclusive já fez trabalhos sobre as damas do baralho e da noite, apresenta as suas imagens como cartas de um lúdico universo em que a sua produção sem rei (livre) nem lei (rígidos padrões das escolas de arte) oferece um sorriso irônico que nos ajuda a enfrentar desenganos e frustrações. O gravurista ultrapassa as desilusões humanas e nos traz a doce esperança de que o talento da juventude, aliado à competência técnica, possa renovar a arte brasileira em suas mais diversas manifestações artísticas.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).
 

 

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Meretriz 
gravura  - 2001


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