por Oscar D'Ambrosio


 

 


Altina Felício

 

Possibilidades da luz

 

A escritora norte-americana Edith Wharton (1862-1937) apontou “Há duas maneiras de espalhar a luz: ser/ A vela ou o espelho que a reflete”. As duas maneiras se fazem presente nas aquarelas criadas por Altina Felícia. Seus trabalhos têm como principal característica justamente a forma de criar variações luminosas com cores e fundos.

Estabelece-se assim um universo geralmente mágico em que o assunto é o menos importante perante a habilidade demonstrada no ato de trabalhar a natureza plástica dos materiais. Isso ocorre com o estabelecimento de transparências e variações cromáticas em que a experimentação se faz presente.

Com um currículo em que se destaca mostra individual realizada no Brazilian-American Cultural Institute, em Washington, DC, EUA, em 2000, e premiação na Quadrienal Internacional de Aquarela da Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, em 2003, Altina vem concentrando a sua energia numa recuperação da memória do local em que nasceu, Olhos D’Água, no Estado de Goiás.

Os trabalhos inspirados nas suas origens podem ser subdivididos em subgrupos temáticos de grande possibilidade plástica. O maior deles é o que mostra a cidade propriamente dita: vislumbram-se visões áreas, a igreja, conjuntos de casas, cursos d’água, paisagens noturnas, árvores e imagens do cerrado. Tudo com ampla riqueza cromática e um lirismo visceral.

Um segundo grupo é o de Interiores de Olhos D’Água. Inclui, em tons terrosos e alguns mais quentes, próximos ao vermelho, visões figurativas de quartos, salas, portas e janelas a exercícios de composição em que as linhas retas começam a ganhar destaque rumo à abstração. Olhos d’Água some perante as soluções plásticas encontradas.

A série Objetos apresenta elementos do mundo rural do cerrado do interior goiano que alimentam até hoje o imaginário de Altina. Está ali um majestoso pilão, assim como o balde que abriga o leite recém-tirado da vaca e diversos outros elementos do cotidiano dos primeiros anos de vida da artista. Destaca-se, por exemplo, um imponente bule, com toda a força que as origens de um ser humano podem trazer à tona quando passadas para as mais diversas manifestações de arte, no presente caso, a aquarela.

Os Animais desse mundo do interior goiano compõem um outro conjunto de imagens. A coruja que todo vê, dois gatos de costas para o observador da aquarela e um cavalo correndo pelo cerrado dão o tom de imagens em que a memória e o fantástico caminham lado a lado na sugestão das mais diversas atmosferas, com destaque especial para as imagens em que uma cobra-coral surge com toda sua beleza e periculosidade em preto, branco e vermelho.

Se Interiores caminha para a abstração, a figuração propriamente dita se faz presente numa série de Retratos. O passado em Olhos D’Água ganha aqui uma conotação quase mítica, pois as imagens trazem desde figuras reais, como o sanfoneiro, a alegorias com a presença de onças e veados em paisagens bucólicas.

Olhos D’Água gera ainda numerosas outras possibilidades de criação de séries: seres fantásticos que alimentaram a imaginação de Altina quando criança, com figuras extraídas de uma de suas primeiras leituras, uma edição de O tesouro da juventude; e um progressivo caminho para abstração em que o figurativo progressivamente se dilui em busca de sínteses em que a imagem, cada vez mais sugerida e menos evidente, tende a desaparecer.

As associações possíveis do nome da cidade, Olhos D’Água, abrem novas possibilidades visuais. Pois os olhos, tradicionais espelhos d’alma, tanto podem expressar alegria como tristeza  os elementos “olhos” e “água”, combinados ou isolados, permitem amplas oportunidades de criação imagética.

            Mais um caminho para o desenvolvimento da arte de Altina, residente em São Paulo, SP, está nas árvores. A temática, que já desenvolveu em diversas oportunidades, sob vários pontos de vista, principalmente no universo do Parque da Água Branca, em São Paulo, pode ganhar novas conotações se for cruzado com a memória pessoal, como ocorre, por exemplo, no trabalho realizado a partir de um pé-de-laranja.

            As múltiplas vertentes da obra de Altina Felício, na aquarela e na gravura, apontam para uma pesquisa estética que concretiza as palavras de Edith Wharton sobre a natureza da luz entre os seres humanos. Por um lado, a artista goiana cria seus universos com luminosidade própria pelo domínio das técnicas que desenvolve; por outro, constitui um espelho da riqueza visual que a cidade natal de Olhos D’Água gravou em sua memória.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 
 

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Sem título 
aquarela e nanquim 77 cm x 55 cm 2002

Altina Felício

 

 

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