por Oscar D'Ambrosio


 

 


Alexandre Matos

 

            Horizontes abertos

 

            Definições oriundas de dicionários tratam o horizonte como um plano que passa pelo observador e é perpendicular à direção do fio de prumo vertical. Tal conceito não consegue abranger a obra e o pensamento do artista plástico Alexandre Matos, que, aos 21 anos, conta, em 2006, com seleções para eventos como a Bienal do Recôncavo Baiano e o Salão de Mairiporã.

            Seu trabalho plástico, seja as esculturas ou as pinturas e desenhos, têm em comum, até o momento, uma tensão entre o horizontal e o vertical. Suas figuras verticalizadas apontam justamente para a ânsia humana de superar a horizontalidade e se direcionar para um movimento ascensional caracterizado pela busca de uma outra dimensão.

            O termo horizontal também se aplica a uma área de grande extensão, um largo espaço que a vista abrange. Cabe, portanto, verificar como a tensão encontrada em Matos se dá no seu trabalho plástico. Uma pista está em Verticontes: horizontes verticais, trabalho de conclusão de curso de bacharelado em Artes Plásticas de Alexandre Matos no Instituto de Artes da UNESP, campus de São Paulo, orientado pelo docente Omar Khouri.

            Ali estão algumas de suas referências, como a fascinação pelo desenho e seu processo de aprendizagem contínuo. Dois nomes, Toulouse-Lautrec e Egon Schiele, surgem como catalisadores de uma sucessiva deformação, não tanto no sentido expressionista formal, porém como tentativa de captar a essência do ser humano e seu aspecto nu e solitário perante o mundo e frente a si mesmo.

            Wassily Kandinsky torna-se então uma espécie de xamã intelectual, não só pela sua enunciação da aspiração vertical e espiritual do homem, mas principalmente pela sua preocupação com a arte como uma maneira do ser humano se relacionar com o mundo de forma responsável, no sentido de que ela poderia propiciar um contato com alguma instância que permite ao homem superar seus limites.

            Isso é visto como um movimento vertical. Em contrapartida, o horizonte é a extensão de uma ação, ou seja, o prolongamento de uma atividade qualquer. Nesse conflito entre a dimensão demiúrgica da arte e suas relações causa-conseqüência, Verticontes  apresenta uma reposta.

            Vemos o homem, seja modelado em argila, desenhado ou pintado, alongado como tão bem fez Giacometti, num plano vertical. Ele é esticado, dobrado e retorcido num exercício que valoriza as possibilidades de composição da linha. Ali não está apenas um objeto plástico, mas um corpo, ou melhor, uma alma.

            Sim, o trabalho de Matos propicia essa leitura. É a alma do homem que está retorcida no frio barro ou em cores mais quentes de sua pintura. Suas obras acabam por revelar a agonia de existir do ser humano. Seus verticais horizontes (ou vice-versa) carregam uma mesma questão preocupante: quem é esse ser que se afunila em direção ao infinito, mas não consegue se libertar totalmente do fio de prumo vertical que o prende ao chão?

            Alexandre Matos é esse ser em busca de ascensão pessoal e artística. A palavra horizonte traz em si mesma ainda mais uma conotação: a de perspectiva de futuro. Para o artista, ele se prenuncia promissor, principalmente se continuar a fazer o que conseguiu realizar com sucesso em Verticontes.

Isso significa levantar uma questão existencial e apresentar sucessivas soluções artísticas para resolvê-la, com diversidade de técnicas e, acima de tudo, com um progressivo processo de pesquisa que leve a um resultado, se não original, ao menos, como ocorre até hoje, próprio e reconhecível com marcas de um estilo a ser gradualmente aprimorado. Assim, os horizontes de Alexandre Matos permanecerão sempre abertos.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes Visuais da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil)

 

 

 

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 Ruído 
terracota 57x58 cm 2006

Alexandre Matos

 

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