por Oscar D'Ambrosio


 

 


     Hugo Perucci: além do corpo

 

            Transformar uma escada num local de vivência cultural, em que as pessoas possam contemplar trabalhos artísticos dentro de um projeto visual e de pensamento que motive a reflexão é a louvável proposta da Bio Ritmo Academia localizada na Rua XV de novembro, em São Paulo, SP.

            Sob curadoria de Daniele Baumgartner, o conceito é o de tornar o espaço transitável não só como elemento arquitetônico para que os freqüentadores possam ir de um andar para outro, mas também para criar uma galeria vertical, pela qual se possa subir, descer e discutir o trabalho ali colocado.

            O ato de subir ou descer escadas ganha, além de um sentido físico, por se tratar de uma academia de ginástica, um sentido plástico e lúdico, pois instaura-se o saudável ato de a pessoa olhar melhor o espaço ao seu redor, interagindo com ele num processo de estabelecimento de novas relações.

            Nesse sentido, o artista plástico Hugo Perucci mostra duas séries de trabalhos em termos de formato. Os menores, realizados em acrílica, com decalque e colagem sobre papel Debret, chamados de Templos, são uma série de imagens que tem na arquitetura a sua matriz.

            Plantas são utilizadas como ponto de partida para uma pesquisa visual marcada pela interferência. Existe à medida que se sobe à escada um processo de ação sobre o suporte para gerar numerosos efeitos, evidenciando-se a interpretação do corpo como um local sagrado, no qual se pode agir das mais diversas formas.

            Ao percorrer os oito andares onde os trabalhos estão dispostos, percebe-se a exploração espacial do templo do papel como metáfora do templo do corpo e da própria existência. O dilema central está em como cuidar física e espiritualmente dessa moradia da alma. E nada mais adequado para discutir essa questão do que uma academia.

            O segundo grupo de trabalhos, realizado em acrílica e outros materiais sobre tela, alguns com um voal a sutilmente cobrir as imagens, mas que pode ser levantado para desvendar o mistério sugerido, realiza uma jornada por dimensões verticalizadas de maiores proporções.

            Inicia-se a caminhada pela matéria-prima de que o corpo é feito, pelos seus elementos constitutivos, com alusão ao pó (areia) de onde viemos e para onde voltaremos. À medida que se sobe a escada, essa concretude vai ganhando novas facetas.

            Surgem alusões à pintura rupestre, indicando a presença do elemento primitivo ancestral e visceral. Em seguida, o amarelo solar da vida e da vitalidade ganha destaque, espalhando uma energia que ganha, no trabalho seguinte, intitulado Atena,  a predominância do vermelho, com um coração realista a chamara a atenção do olhar.

            No andar seguinte, o corpo feminino delineado adquire a demarcação visual dos chacras (“roda de luz, em sânscrito), que, segundo a ioga, são pontos de energia de diferentes vibrações, representando distintos aspectos do corpo, da alma e do espírito, simbolizando o constante movimento das leis da natureza.

            Situados ao longo da coluna vertebral do corpo humano, eles recebem e transmitem energia para as áreas afetadas do corpo físico. Para Perucci, esses pontos ganham uma relevância estética muito mais que esotérica, o que se concretiza na imagem que está no topo da série, no último andar da escada, o corpo feminino agora com asas.

            A silhueta parece se levantar no espaço, numa indicação do processo de verticalização sugerido desde a primeira imagem, quando o sólido matérico começa a desmanchar para dar lugar a um movimento ascensional acompanhado pelo subir dos degraus.

            Hugo Perucci ocupa com desenvoltura a escada com uma linguagem que busca a exploração dos materiais para ocupar a área que lhe foi concedida. Em intervenções posteriores, será certamente possível ousar mais na concepção verticalizada do espaço. Acima de tudo, a escadaria, com suas paredes laterais, é um excelente laboratório plástico a ser cada vez mais desvendado com diversidade de técnicas e propostas.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 



 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio