por Oscar D'Ambrosio


 

 


Aldemir Martins e o Brasil dos viajantes

 

            O documentário Brasil dos viajantes, produzido pela Fundação Padre Anchieta,  em seus 55 minutos, propicia uma jornada visualmente rica pelo imaginário da construção de  imagens do Brasil e da América por artistas, cronistas e cientistas estrangeiros, que percorreram o continente desde o século XVI.

Um dado muito interessante é que a observação concentrada dessas imagens possibilita elementos para uma visão renovada de boa parte da obra de Aldemir Martins, que nutria absoluta fascinação pelos primeiro artistas que colocaram sua técnica a serviço do conhecimento do Brasil.

            Aldemir, ao dizer “Pinto todo dia, não sei fazer outra coisa, nem tentei porque não ia dar certo”, além de definir a própria existência, oferece uma pista para compreender melhor dois fatores que o colocam entre os principais artistas nacionais de todos os tempos: ele trouxe os temas e as cores do Nordeste para a região Sudeste do País e, depois, os levou para o exterior, sendo reconhecido nos locais mais diversos, como a China e os EUA.

            A principal característica de Aldemir Martins era a visão generosa da vida e da arte. Dava valor às coisas mais simples e olhava, sem nenhum tipo de preconceito, para cada profissão, percebendo o que ela representava para a sociedade. Pelo seu percurso de vida, em que teve contato com diversas facetas do Brasil e do mundo, de refinados artistas a simples profissionais, aprendeu a dar valor para todo tipo de trabalhador.

            O cearense Aldemir admirava o trabalho manual e tinha uma inteligência visual fora do comum. Amigo de numerosos escritores, como Jorge Amado e Rachel de Queiroz, entre muitos outros, era chamado para fazer ilustrações dos livros desses e de outros importantes escritores nacionais.

            Ao olhar uma imagem, Aldemir a via pela inteligência que ela continha, ou seja, pela forma como fora feita, sem se importar se o autor era jovem ou velho, conhecido ou em início de carreira. Observava a imagem com uma certa pureza, reconhecendo o valor dela mesma, livre de preconceitos.

            O artista amava viajar pelo Brasil pintando paisagens e animais. Ele conhecia, além do Brasil das capitais, também o do interior. Locais como o sertão, por exemplo, tinham profundo significado para ele. Assim, nos anos 1930 e 1940, começou suas viagens pelo Brasil de pau-de-arara, de carro ou de avião. Posteriormente, ampliou seus horizontes pelo mundo.

Mesmo assim, a simplicidade de Aldemir e seu amor ao cotidiano ficavam evidentes em fatos corriqueiros. Um deles era a paixão do artista pelas frutas. Ele conhecia praticamente todas as que existiam. Toda quarta-feira ia à feira para conhecer novos tipos e as comprava para experimentar. Na China, provava todas as frutas que encontrava e os vendedores ficavam bravos, pois sempre escolhia a melhor!

Para Aldemir, desenhar era como respirar. Partia do desenho para cada uma de suas pinturas. Acreditava, como diziam os chineses, que a composição é o osso do quadro. Assim, as suas imagens se configuravam no mundo da composição, da linha e do preto e branco.

Aldemir admirava, acima de tudo, justamente o desenho dos viajantes europeus que vieram para o Brasil nos séculos XVII a XIX sem saber muito bem o que iam encontrar. Eles desenhavam algo que nunca tinham visto, retomando a herança dos primeiro livros bizantinos e romanos, ilustrados manualmente, que formaram a cultura ocidental.

Gostava de Augusto Ferreira Rodrigues, baiano formado em Coimbra, do alemão Rugendas e do francês Debret, enfim, artistas, pesquisadores e naturalistas que viajavam pelo Brasil, percorrendo as suas estradas e conhecendo a sua gente para retratá-la com palavras ou imagens, sempre no difícil exercício de encontrar uma alma brasileira.

            A arte de Aldemir Martins, assim como a dos viajantes, era inspirada no Brasil. Seus temas incluíam frutas – como jacas, pinhas, cajus, maracujás e melancias –, rendeiras, jagunços, profetas, violeiros e cangaceiros; suas linhas são puras; e as cores, vivas e quentes.

Criativo e original, expressou em sua arte um modo de ser brasileiro, tropical e nordestino. Viajava pelo mundo, mas, quando voltava ao Ceará, gostava mesmo de curtir uma rede, aproveitar a brisa do mar, comer caranguejo e rever velhos companheiros.

            Aldemir tinha no ateliê mais de 4 mil livros, com grande diversidade de temas, incluindo arte japonesa e obras do folclorista Câmara Cascudo, além de cerca de 80 livros sobre Picasso, uma de suas paixões, sempre aconselhava os artistas jovens a não se esquecerem do Brasil e da sua arte.

Nessa busca, devotou boa parte de sua obra ao desenho de animais. Quando mergulhava na criação de um deles, seja do peixe arraia, peixe do Pantanal ou nos caranguejos, Aldemir nos transporta a um outro mundo. Há o conhecimento da observação, mas também o poder de questionar a própria natureza. Ele se orgulhava, por exemplo, de conhecer as formas e os hábitos do tatu, incluindo o modo como ele se enrola para entrar no buraco.

Ao longo de sua carreira, o artista ultrapassou os limites da realidade visível e, quando pintava um caranguejo, por exemplo, criava um novo ser, marcado por duas essências (a do artista criador e a da figura criada). Sua arte era fiel ao que pensava do mundo. Os bichos eram tão bem construídos que ganham autonomia em relação à textura do animal, levando o observador a mergulhar no fantástico mundo do desenho de Aldemir.

Nessa mesma linha surgem os galos. Suas cores e traços são inconfundíveis e apresentam formas surpreendentes. Em algumas ocasiões, transmitem uma força vital sempre pronta a enfrentar as adversidades da existência. Constituem um ícone de amor à vida e de renascimento constante.

Se os galos são tratados, na célebre poesia Tecendo a manhã, de João Cabral de Melo Neto, como anunciadores de um novo dia; nas imagens do artista, esse e outros animais trazem as marcas do vigor e energia de quem enfrenta desafios com a certeza de que irá superá-los.

            Isso sem esquecer os numerosos gatos. Aldemir pintou o primeiro, nos anos 1940, por encomenda de uma mulher. Percebeu então que elas os adoravam e não parou mais de fazê-los. Eles se tornaram uma marca registrada de sua carreira. Inicialmente, eles eram bem felinos e selvagens. Depois, passou a pintá-los com maior harmonia e menor agressividade, usando muito traços bem finos em nanquim.

            Os gatos estão presentes em diversas colorações, como azul, branco, amarelo, preto, lilás e malhados. Mas seus preferidos eram os vermelhos. Além das formas e expressões interrogativas do rosto, os olhos desses animais costumam chamar a atenção, inclusive pelo seu brilho à noite.

            Os olhos dos gatos às vezes parecem janelas de edifícios iluminadas pela intensa luz do sol. Em outras ocasiões, porém, ganham uma dimensão lírica, quase dramática, que obriga a pensar como muitos dos numerosos gatos pintados pelo artista cearense conservam a sua vitalidade ao longo dos anos.

            As cores do viajante Aldemir, como o verde e o amarelo, presentes em muitas telas, não são apenas as cores da bandeira nacional. Constituem o ingresso num mundo pictórico e poético mágico, no qual indagadores gatos, paisagens repletas de vida, atraentes marinhas, enigmáticos cangaceiros, naturezas-mortas muito pessoais, animais poeticamente recriados e vitoriosos galos e equipes de futebol nos transportam a uma nova realidade.

            O universo visual do artista cearense permite justamente novas leituras pela capacidade de sempre nos oferecer uma nova porta de acesso. Na aparente repetição, há uma constante renovação e, em cada imagem, a oportunidade de conhecer um mundo artístico rico em cores e traços diferenciados, próprio de um artista que nasceu no Nordeste do Brasil e soube construir o seu destino para ganhar visibilidade internacional.

            Talvez a melhor definição para o viajante Aldemir, em sua jornada visual que se nutre, em boa parte, da mesma paixão dos viajantes pela natureza brasileira, seja a que ele mesmo deu do seu processo criativo: “Na pintura, sou eu, a tinta, o pincel e a tela em um trabalho que divido em duas etapas básicas: o trabalho intelectual e o braçal. Um se refere à elaboração de idéias; e o outro, à concretização do que foi concebido na imaginação. Neste processo, a criação torna o homem semelhante a Deus.”

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 



 

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