por Oscar D'Ambrosio


 

 


Aldemir Martins

 

A magia das cores

 

O cearense Aldemir Martins é muito mais do que uma referência ou um ícone da pintura brasileira. Trata-se de um autêntico mestre pela qualidade de seu trabalho, pela história de vida e pela capacidade de colocar em suas imagens uma visão muito própria de diversos aspectos do ser humano.

Na sua mais recente individual no Hilton São Paulo Morumbi, inaugurada em setembro de 2004, em São Paulo, sob curadoria de Sandra Setti, é possível encontrar acrílicas sobre tela e papel, gravuras, aquarelas e giclées (tecnologia de impressão que permite reproduções de alta qualidade) que apresentam um amplo painel do universo artístico de Aldemir Martins.

Os gatos estão presentes em diversas colorações, como azul, branco, amarelo, preto, vermelho, lilás e malhado. Além de suas formas e expressões interrogativas, o que chama a atenção são os olhos. Certas vezes parecem janelas de edifícios iluminadas pela intensa luz do sol; em outras ocasiões, porém, ganham uma dimensão lírica, quase dramática, que obriga a pensar como os numerosos gatos pintados pelo artista cearense conservam a sua vitalidade ao longo dos anos.

As paisagens mostradas remetem ao Nordeste, mas, acima de tudo, mostram a habilidade no trabalho com tons de azul e amarelo, na criação de atmosferas ilídicas e intensas. O mesmo ocorre com as marinhas, que atingem um estado de intensa luminosidade e de alegria, convidando o observador a participar com encantamento dessas imagens.

Se as paisagens nos trazem a luz do sol em sua plena expressão, os cangaceiros de Aldemir Martins possuem os dois elementos mágicos que caracterizam esses personagens tão nacionais, pelo seu regionalismo, e tão universais, pela mitologia que carregam em sua luta e suas roupas tradicionais. No trabalho do artista, o cangaceiro não ataca, mas observa o mundo ao seu redor, e o admirador da tela percebe que a densidade da imagem nos desafia a entender melhor o rico, e muitas vezes incompreendido, mundo do cangaço.

Mas não é só da aridez do cangaço que vive a poética de Aldemir. Há nela a sensualidade da mulher nua em pose clássica ao lado de um vaso e flores, isoladas ou com canecas. São obras que comprovam o talento colorístico do artista e reforçam a sua habilidade no trabalho com tons quentes, como o amarelo.

Quando mergulha no mundo animal, seja no peixe arraia, peixe do Pantanal ou nos caranguejos, Ademir nos transporta a um outro mundo. Há o conhecimento da observação, mas também o poder de questionar a própria natureza. Ao longo de sua carreira, o artista ultrapassou os limites da realidade visível e, quando pinta um caranguejo, cria um novo ser, marcado por duas essências (a do artista criador e a da figura criada).

Nessa mesma linha surgem os galos de Aldemir. Suas cores e traços são inconfundíveis e apresentam formas surpreendentes. Em algumas ocasiões, parecem palmeiras vivas a enfrentar as adversidades da existência. Os galos do artista constituem desse modo um ícone onipresente de amor à vida e de renascimento, uma alusão poética. Se esses animais são tratados, na poesia de João Cabral de Melo Neto, como anunciadores de um novo dia; nas imagens do artista dos pincéis estão marcadas pelo vigor e energia de quem enfrenta desafios com a certeza de que irá superá-los.

É possível encontrar então uma tela que, à sua maneira, conjuga muitas das abordagens acima descritas. Seleção canarinho pode ser admirada apenas como um time de futebol na tradicional formação para fotografias. Mas pode ainda ser considerado muito mais do que isso. Há nesta imagem o esforço do trabalho e a busca pelo espaço merecido que caracteriza o esporte mais popular do País e a carreira do artista cearense.

O verde e o amarelo presentes em muitas telas não são apenas as cores da bandeira nacional. Constituem o ingresso num mundo pictórico e poético mágico, no qual indagadores gatos, paisagens repletas de vida, atraentes marinhas, enigmáticos cangaceiros, pessoais naturezas-mortas, animais poeticamente recriados e vitoriosos galos e equipes de futebol nos transportam a uma nova realidade.

O universo visual de Aldemir Martins permite justamente novas leituras pela capacidade de sempre nos oferecer uma nova porta de acesso. Na aparente repetição, há uma constante renovação e, em cada imagem, a oportunidade de conhecer um mundo artístico rico em cores e traços diferenciados, próprio de um artista que nasceu no Nordeste do Brasil e soube construir o seu destino para ganhar visibilidade internacional.   

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e Mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Unesp. Autor, entre outros, de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo) e Contando a arte de Peticov (Editora Noovha América)

 

 

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O galo

óleo sobre tela
100 cm x 100 cm
1966/67
Pinacoteca do Estado de São Paulo

Aldemir Martins

 

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