Alcindo Moreira
Filho no
Panorama dos
Panoramas
A
arte é uma das
formas
mais
fascinantes de
trabalhar
com a
variedade dos
materiais. Permite
desvendar
aquilo
que os aproxima e, ao
mesmo
tempo, os distingue, num
exercício
constante de
sensibilidade,
inteligência e
ética, no
sentido de
que
cada
elemento
plástico tem a
sua
identidade e
saber respeitá-la
geralmente diferencia o
artista do
diletante,
pois o
primeiro interage
sem
violentar a
essência de
cada
material.
Esse
pensamento pode
ser
desenvolvido a
partir das duas
obras do
artista Alcindo Moreira
Filho expostas no
Panorama dos
Panoramas,
evento
que inaugura o
início das comemorações dos 60
anos de
fundação do
Museu de
Arte
Moderna de
São Paulo, celebrado
em 2008.
Com
curadoria de Ricardo Resende, o
evento reúne os
trabalhos premiados na
história do
Panorama da
Arte
Brasileira,
exposição
iniciada
em 1969
com o
objetivo de
mapear as
principais
vertentes da
arte
nacional
em
suas
mais diversas
manifestações,
desde
obras
sobre
papel a
instalações, do figurativo ao
conceitual.
Os
dois
trabalhos de Moreira
expostos conseguem
reunir
alguns
princípios
estéticos
presentes na
arte
oriental,
como miyabi,
mono no aware, wabi e
sabi. A
síntese desses
princípios,
grosso
modo, estaria na
configuração de
um
mundo de
harmonia e
serenidade.
Mas
não é
apenas
esse
aspecto
que se
encontra nas
obras do
artista. A
exposição
trabalha
com as
dimensões do
todo, do
indivíduo e da
transcendência.
Polimatérico I e II,
que obteve o
Prêmio Marlen Metalúrgica, Orlândia, SP, no
Panorama de 1986, consegue
esses
efeitos
graças ao
uso de uma
mescla de
materiais.
Pó de
mármore
com
resina,
acrílica, esmalte
com
areia,
verniz
sobre
papel colado
sobre
lona e
madeira transmitem
intensa
harmonia,
mesmo
com essa
diversidade de
materiais.
A
outra
obra,
Construção II,
Prêmio
Museu de
Arte
Moderna de
São Paulo, no
Panorama de 1984, ao
lidar
com
papel
artesanal colocado
sobre
tela, instaura uma
atmosfera de
equilíbrio, obtida
pela
forma de
disposição da
matéria, estabelecendo uma
linguagem
em
que os
recursos
plásticos constituem uma
unidade
autônoma
plena de
sentido
em
seus
recursos de
expressão.
Pode-se
verificar a miyabi (elegância
refinada) no acabamento primoroso
dado a
cada
obra.
Juntar
materiais
distintos
não significa
meramente
justapor,
mas
sim
criar unicidade
pelo
diálogo
entre
cores e
texturas.
Isso é
possível
quando o
artista, de
maneira
consciente
ou
não, interioriza, na
sua
prática, a
idéia do
mono no aware,
ou seja a
consciência da transitoriedade das
coisas e a
serena
tristeza de vê-las
passar
sem
ser tomado
pela
dor,
mas
sim
pelo
sentido da transitoriedade.
Wabi (prazer
da
tranqüilidade) e sabi (simplicidade
elegante)
são
decorrências de uma
pesquisa
com o
fazer
artístico
caracterizado
pelo
prazer de
lidar
com as motivações internas, transformando-as
em
um
conjunto
em
que a
inteligência vence o
acaso.
O
senso de
composição de Moreira é a
sua
principal
qualidade
plástica nesses
dois
trabalhos.
Sua
arte, realizada,
acima de
tudo,
com
dedicação e
talento, derruba
distâncias e instaura
um
reino
onde a
verdade
plástica,
presente
nos
elementos constitutivos de
cada
trabalho, prevalece, numa
sutil
aliança
entre o
pensar da
arte
chamada tradicional e conservadora e o
fazer
contemporâneo.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista, é
mestre
em
Artes
Visuais
pelo
Instituto de
Artes (IA) da UNESP,
campus de
São Paulo e integra a
Associação
Internacional de
Críticos de
Arte (AICA-Seção Brasil).