por Oscar D'Ambrosio


 

 


Alcindo Moreira Filho

 

O costurador de imagens

 

“Somos o que ainda não somos”, do filósofo francês Jean Paul Sartre, é a frase com a qual o artista plástico Alcindo Moreira Filho classifica o próprio trabalho. De fato, a sua poética se caracteriza justamente pela capacidade de se manter em constante movimento mental, num processo de construção ininterrupto em que o barco da criação conhece o ponto de partida, mas busca sofregamente o cais de chegada.

Alcindo define o seu processo criativo como sendo de acumulação. Trata-se de uma meia-verdade. Há também nele muito de construção, no sentido de manter sempre acessa a chama de uma pesquisa estética, tanto com materiais quanto com fidelidade a si mesmo, no sentido de não se repetir e de não aceitar a mesmice.

Nascido em 1950, em Caconde, SP, o artista passou por Campinas e Rio de Janeiro antes de se radicar, em São Paulo, onde trabalhou em lavanderias e exerceu outras atividades. Graduou-se em Artes Plásticas pela Puc/Campinas e, entre 1978 e 1985, passou por Espanha, Inglaterra e Itália, freqüentando escolas e ateliês como bolsista do Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento (CNPq).

Esse contato com a realidade cotidiana do trabalho e também com a academia, como pós-graduando da Escola de Comunicações e Artes da USP, levou Alcindo a um movimento misto de experiência artística e de trabalho como docente universitário. O fascinante é que ele conseguiu reunir essas facetas, realizando, por exemplo, pesquisas com diversos suportes e técnicas a partir de uma fotografia de Marc Ferrez, num processo de revisão histórica e experimentação.

            Embora os resultados estéticos do artista pareçam, em diversas ocasiões, caminhar rumo ao abstracionismo, a referência humana é essencial no seu trabalho. Ela pode não estar explícita, mas trata-se do mencionado ponto de partida para reflexões com materiais sobre o que significa ser, estar e se apropriar do mundo.

            Ao longo de numerosas exposições individuais e coletivas no Brasil e no Exterior, o artista parece ter se exercitado sobre um grande e único tema em numerosas modulações: a identidade. Isso significa a transformação das mais diversas experiências em arte. O ato vivido ou imaginado ganha a esfera concreta nas materializações alcançadas pelo artista.

            Docente do Instituto de Artes (IA), campus de São Paulo, há 30 anos, Alcindo não deixa seu lado acadêmico ofuscar a sua criatividade. Isso se deve, em grande parte, à fascinação do artista pela capacidade humana de aprender. Afinal, criar e estudar exigem disciplina que, se aliada ao ludismo, gera uma arte e um ensino igualmente melhores.

            Experimentar é a palavra de ordem. Com essa filosofia, é possível ser professor e artista simultaneamente, já que a atividade criadora e a educadora têm em comum a necessidade de conhecer códigos e de trabalhar com eles em nome de um dos maiores bens da arte: a capacidade de comunicar mensagens a partir do trabalho com diferentes linguagens e do desenvolvimento de técnicas que proponham novas alternativas de leitura do mundo.

            Alcindo tem consciência de que o discurso, seja ou não artístico, somente se realiza quando é decodificado pelo público. Daí vem a sua insistência em explicar o fenômeno artístico como o resultado da interação, em maior ou menor grau, das forças de um tripé entre a intenção (vontade e desejo de criar), a ação (capacidade técnica de realizar uma obra) e a coragem (disposição de exibir e mostrar aquilo que se quis fazer e o que, de fato, se realizou).

            Esse pensamento está muito associado, como Alcindo admite, as esferas do real, imaginário e simbólico propostas por Lacan e, acima de tudo, com uma idéia que o acompanha: a de que a criatividade necessita estar aliada à habilidade, ou seja, não basta fazer: é preciso fazer bem feito, juntando intenção e ação com talento.

            Esse arcabouço aparentemente árido da teoria ganha concretude nas manifestações artísticas de Alcindo. O exercício poético e artístico de verificar as possibilidades estéticas e semânticas de uma picareta, por exemplo, inclui uma pesquisa que vai desde a função do instrumento como ferramenta ao seu uso como uma silhueta feminina plena de sensualidade.

Alcindo se vale das diversas possibilidades de estrutura da imagem e o faz com a mesma inquietação mostrada em seu obsessivo trabalho com botões para a elaboração de uma instalação batizada O dobro do infinito. O amor ao detalhe e ao preciosismo faz com que ele utilize apenas botões que já conheceram a linha, ou seja, que foram desvirginados de alguma maneira.

O trabalho com objetos usados é uma constante em Alcindo. Está presente, por exemplo, quando utiliza restos de madeira ou no uso renovado e reciclado de materiais. Torna-se assim um demiurgo contemporâneo, dando nova vida a objetos aparentemente mortos. Isso inclui a recente feitura de adornos surpreendentes, como anéis que cabem em coxas femininas, num processo de ressignificação caracterizado pela apropriação de elementos  e a sua nova contextualização.

Uma instalação de grandes proporções, como a que lida com o que o artista chama de etnovisualidade do gosto – que utilizou, no Brasil, 15 toneladas de café e outros recursos em diversos países –, dá vazão à estética acumulativa e criadora de Alcindo. Ao se valer ainda, nesse processo, de xícaras e bandejas em composições mistas surpreendentes, aponta para a ausência de limites que o artista propõe entre o real, o imaginário e o simbólico. Eles se mesclam em projetos antigos e futuros, como o de realizar uma pesquisa a partir de panos usados em lavanderias chinesas.

Inicia-se assim a completude de um ciclo criativo, pois o fato de ele ter trabalhado numa lavanderia, sem dúvida, contribuiu para a idéia. Não há indícios, porém, de que o trabalho com panos seja o esgotamento da capacidade de Alcindo de nos desafiar com novas propostas estéticas e de manuseio de materiais.

Seja com papel, botões usados, café, panos, picaretas, vestimentas, madeira ou qualquer outro utensílio, a arte de Alcindo deixa em aberto uma grande indagação: qual é o horizonte de ser criativo? Para ele, a atividade de pensar o estar no mundo constitui uma mescla de criação e reflexão em que os parâmetros utilizados são os mesmos da criança em seu processo de aprendizagem: contemplar tudo atentamente, decompor as partes e interagir com o todo sob perspectivas inovadoras.

Essa atividade, em si mesma, pelo seu caráter questionador, já é arte – e das densas, aquelas que nos deixam com a testa franzida de perguntas e a alma ansiosa por respostas. Mestre em indagações, Alcindo Moreira Filho se vale da linguagem como poucos e busca nos radicais gregos e latinos muitas de suas reflexões.

Certamente esse é um dos fatores que o leva a ser tão crítico em relação ao próprio trabalho  e aos dos seus colegas de criação. Afinal, criticar, em grego, tem o sentido de “avaliar”, “julgar” e “orientar”, ou seja, apontar caminhos para si mesmo, como artista, e para outros, como professor. Da conjugação dessas atividades, surge um artista completo, um costurador de imagens, pronto a cerzir os nós aparentemente desatados da vida, sempre pronto a ser o que ainda não é – não sendo o que se espera que ele seja.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

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Construção II

construção com papéis - 1x1 m - 1984

Alcindo Moreira Filho

 

 

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