por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

 

Alberto Teixeira

 

O domínio do gesto

 

Saber como trabalhar o próprio gesto exige do pintor a qualidade de aliar o conhecimento técnico à emotividade. Não basta saber como fazer. É essencial somar a essa conquista a expressão do sentir. Trata-se de uma combinação difícil, que exige um amadurecimento contínuo e um entendimento gradual do significado de ser artista no seu sentido mais profundo, ou seja, no diálogo com as próprias limitações e qualidades em busca de um trabalho cada vez melhor.

Nascido em São João do Estoril, Portugal, em 1925, chegado ao Brasil em 1950 e radicado, desde 1973, em Campinas, SP, onde lecionou na PUC local, Alberto Teixeira mostra, em sua pintura em óleo e nas aquarelas, um entendimento denso dessas questões.

Suas aquarelas são uma demonstração da força da cor e, acima do tudo, de um sábio uso das transparências difícil de ser encontrado. Manchas são sobrepostas e articuladas num diálogo fluido de quem sabe que essa técnica exige um navegar pela água e pela tinta com sutileza.

Mas isso não significa necessariamente fluidez. O uso de papéis e materiais leva a resultados plenos, em que a emoção se soma ao plano estrito da feitura.  As integrações entre as áreas e as divisões ocorrem pelas manipulações dos jogos de luz e pelo dinamismo da pincelada.

Algo semelhante ocorre na pintura a óleo. Temos aqui algo mais matérico, com algum volume às vezes, mas também abstratamente lírico. O importante, porém, não está em dar a um trabalho de tamanha intensidade denominações estilísticas. A questão é tentar mergulhar nas composições marcadas pelo movimento interno e por uma palheta variada e de impacto.

As telas em que predomina o preto são de intensa beleza, considerando esta não como um termo subjetivo, mas como um sentimento decorrente do impacto gerado pela visualização das obras. O curioso é que sentimento análogo é obtido quando se contempla as pinturas em que o branco dos fundos predomina.

O segredo talvez esteja na forma como o abstracionismo de Alberto Teixeira é construído. Integrante do Atelier Abstração, do mestre romeno Samson Flexor, na primeira metade dos anos 1950, em São Paulo, SP, e admirador de Rembrandt e Van Gogh, conseguiu, ao longo de seu percurso, reunir o melhor de cada um deles e chegar a um estilo muito próprio, perceptível pelo gesto de pintar.

O que diferencia Teixeira é a recusa a soluções fáceis. Dentro do abstrato, optou por uma vertente expressiva, que, para atingir o coração e o cérebro do observador não depende apenas do domínio do metiê. É necessário algo mais. Isso brota da relação com os materiais e do domínio do jogo com as cores e formas.

Nos vermelhos, o coração do observador salta pela boca; e, nos  verdes nada comportados, qualquer discussão figura e fundo perde o sentido perante a força da abstração como uma declaração de amor ao ato de pintar e um respeito sublime pelas possibilidades que as combinações entre telas, pincéis e tintas oferecem. No reino do gesto, feito com lirismo ímpar, a arte de Alberto Teixeira encanta pelo vigor, domínio a toda prova e, em primeiro lugar, respeito por si mesmo e pela arte como forma de expressão privilegiada do ser humano.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

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 ocre e vermelho dominante
óleo sobre tela 65 x 50 cm 1997

Alberto Teixeira Castanho

 

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